sábado, 28 de setembro de 2024

O ZÉ MUNDÃO DE MANAUS Por José Rocha Parte I – Livro E-book

 Nasceu em Manaus, na Santa Casa de Misericórdia, na década de 1950. Quando veio ao mundo, os sinos da Igreja de São Sebastião batiam doze badaladas, exatamente no aniversário do presidente Juscelino Kubitschek. Seus familiares cogitaram chamá-lo pelo prenome do mandatário maior da Nação, porém, ao ser batizado na Igreja dos Remédios, recebeu na pia batismal o nome de José, em homenagem ao seu avô, um cearense que veio para a Amazônia coletar látex.

Seu primeiro lar foi um flutuante (casa de madeira apoiada em enormes toras, próprias para flutuar na água), no Igarapé de Manaus. Para não fugir à tradição, sendo filho e neto de cearenses, passaram a chamá-lo de Zé, um diminutivo carinhoso de José, o mais novo dos irmãos, o caçula queridinho da família. Seus irmãos mais velhos eram conhecidos por José “Galinha Preta”, José “Pacu” e a única mulher, batizada de Maria José, mais conhecida por Zezinha. O nome Zé tinha que estar presente de qualquer maneira.

O local onde Zé morava era um braço do rio, parte de um conglomerado de residências conhecido como Cidade Flutuante, com a maior concentração de casas situada atrás da Rua Barão de São Domingos. O processo de ocupação do leito do rio foi iniciado com o declínio do fausto da borracha, que ocasionou a falência dos seringalistas e levou uma multidão de seringueiros a ficarem sem eira nem beira. Sem ter onde morar, a solução inicial foi a construção de casas sobre as águas da orla do rio Negro e, naturalmente, pelos igarapés que cortavam a cidade de Manaus.

 

As habitações construídas sobre troncos submergíveis, tornando-as flutuantes, possuíam assoalhos e cômodos de madeira, com a cobertura, em sua maioria, feita de palha. Aqueles que dispunham de mais recursos as cobriam com folhas de zinco. Formavam um imenso conglomerado, tão grande que chegou a ser conhecido como uma cidade dentro da própria cidade de Manaus, com mais de duas mil casas e aproximadamente doze mil habitantes.

Neste local existia, além de moradias, todo tipo de comércio: estivas, ferragens, restaurantes, gabinetes dentários, consultórios médicos, drogarias, oficinas de conserto de motores marítimos, vendas de borracha, castanha, juta, couros e peles de animais. Qualquer atividade existente em terra também existia na cidade flutuante! Alguns achavam que aquilo era um cancro, uma vergonha para os habitantes da terra firme, mas foi exatamente ali que o pequeno Zé passou sua infância de forma muito feliz.

Morar em flutuante tinha seus pontos negativos, mas também positivos. A família do Zé era discriminada pelos moradores da parte de cima da Rua Igarapé de Manaus, que se achavam superiores aos pobres moradores de flutuantes. A maioria das famílias residentes nas ruas Huascar de Figueiredo e Lauro Cavalcante, pertencentes à classe média e possuidoras de belíssimas residências, manifestavam preconceitos ainda maiores: falavam que aqueles moravam no bodozal (na lama, onde se reproduz o peixe acari bodó).

Durante a enchente, a família e os animais de criação (gatos e galinhas) ficavam ilhados, com acesso à terra permitido apenas por uma pequena tábua, espécie de escada. O pequeno Zé sofria bastante para passar, pois o risco de queda dentro do rio era grande. Com a água batendo seis meses na madeira, ocorria o rápido apodrecimento das toras de sustentação – dessa maneira, para a troca das bóias, era realizado um mutirão. O danado do Zé era vigiado 24 horas por dia, pois corria risco de afogamento. Em decorrência disso, ele aprendeu a nadar ainda curumimzinho (menino pequeno).

Outra complicação: todos sofriam também com o ataque de animais peçonhentos, cobras e jacarés. Na casa dele não havia luz elétrica nem água encanada. O sufoco era total, pois tinham que recorrer às lamparinas, candeeiros e lampiões para iluminação dos cômodos - um martírio, pois não podiam usar nenhum aparelho eletrodoméstico em casa. O café era torrado e pilado dentro da habitação e fervido num fogareiro à lenha; as roupas eram passadas com ferro de engomar a carvão e a comida era cozida num fogão a lenha, tudo manual, típico de uma casa de ribeirinhos da Amazônia.

Na vazante, a família levava alguns meses para limpar toda a área externa, pois ficava muito lixo espalhado pelo chão, como garrafas de vidro quebradas, latas enferrujadas, tábuas com pregos etc. Por isso, o coitado do Zé vivia sempre com cortes nos pés e muitas feridas pelo corpo. Os banhos eram feitos em cacimbas ou camburões de metal, com água de beber sendo filtrada em potes, bilhas e filtros de barro.

Existia uma grande vantagem: caso o caboclo tivesse algum problema sério com o vizinho, bastava pegar o machado e cortar a corda principal que amarrava o flutuante à beira do rio, ou colocar uma amarra num barco regional, pedir para ser puxado e mudar-se para o outro lado do rio. Como a família do Zé era benquista por todos os vizinhos, nunca precisou sair do local onde morava.

Durante a enchente, o balneário ficava à altura da janela do flutuante do Zé, bastava pular dentro do rio e tomar banho nas águas refrescantes, pois ainda não havia poluição em demasia, apesar dos moradores despejarem dejetos de privadas diretamente no igarapé. Os barcos regionais ancoravam no flutuante do Zé, oferecendo a preço acessível peixe, leite, queijo, farinha e outros produtos regionais, além de tábuas e palhas para a manutenção da casa.

Zé foi estudar no Grupo Escolar Barão do Rio Branco. Sua avó o matriculou no primeiro ano forte (equivalente à segunda série), mas o Zé não sabia ler nem escrever. A primeira tarefa na escola foi realizar uma cópia e ele, na malandragem, pediu ao seu colega Nascimento para fazê-la. Ocorre que seu confrade era canhoto, que pegou o caderno do Zé Mundão, virou na melhor posição e fez a cópia todinha. O Zé foi entregar o trabalho:

– Fessora Genevova, taí a cópia, tá bonita? – falou todo gabola da vida.

– Vá fazer outra cópia, você fez com o caderno de cabeça para baixo! – disse a professora, dando-lhe aquele ralho.

Não se conteve, chorou que nem um bezerro desmamado. Então, a professora descobriu que ele estava na série errada e o encaminhou para a alfabetização. Cobrir as letras foi uma graça para Zé Mundão. Mas, o que ele mais odiava era a hora da merenda, pois não trazia nada de casa e ainda tinha que encarar aquele leite de soja, enviado ao Brasil em decorrência do projeto dos ianques “União Para o Progresso”. O jeito era filar a merenda dos meninos do pré-escolar.

Num certo dia, Zé foi pego e levado pela orelha até a diretoria. Seus pais foram chamados à atenção - moral da história: ganhou uma lancheira novinha em folha, com direito a suco de maracujá e sanduíche de pão com pão. A partir daí, começou a adorar a hora da merenda, gostava de deixar seus colegas com água na boca, e nunca mais tomou o famoso leite de posto!

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

OS CINEMAS DE MINHA VIDA

 Por José Rocha

CINE POLYTHEAMA - Por ficar próximo à minha rua, era um dos que eu frequentava na minha infância. Minha meia-irmã Kelva trabalhava no Cine Polytheama como bomboniere (vendedora de bombons e goma de mascar), ficando às vezes na portaria quando o movimento estava fraco. Era o momento certo para eu entrar sem pagar e ainda desfrutar de algumas balas de minha preferência, o gardano (sabor menta). O Cine Polytheama ficava na esquina das avenidas Sete de Setembro e Getúlio Vargas, e pertencia à empresa São Luiz (nome de fantasia do grupo Severiano Ribeiro). Seu nome era uma junção de “poli”, de origem latina, significando muito, e “theama”, procedente do grego, denotando espetáculos, ou seja, muitos espetáculos. Trata-se de uma denominação utilizada em diversos cinemas e teatros no Brasil. A saída dava-se pela Avenida Sete de Setembro. Com problemas estruturais sérios e sob fiscalização rigorosa da Prefeitura e do Instituto Nacional do Cinema, o estabelecimento teve as suas portas fechadas definitivamente. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional está mais vigilante, pois, a partir de 2012, todo o centro histórico de Manaus foi tombado. Infelizmente, os cinemas de Manaus foram destruídos antes da proteção por lei. Atualmente, abriga uma loja de departamentos. Conservada a parte externa pela Avenida Sete de Setembro, o restante do prédio foi totalmente destruído pelo “progresso” e falta de sensibilidade por parte do proprietário e empresários.

CINE GUARANY - Eu contava com a opção de assistir sem pagar no Cine Polytheama, mas o cinema de minha preferência era o Cine Guarany, que eu frequentava aos domingos, sempre na sessão das 12h45, quando passavam dois filmes: um de bangue-bangue (faroeste) e outro sobre o império romano. O Guarany ficava na Avenida Sete de Setembro, esquina com a Rua Leovegildo Coelho, tendo sido originalmente Cine Olympia, depois Cine Teatro Alcazar. Foi construído com um estilo arquitetônico inspirado no Oriente Médio (mourisco). O último proprietário foi o empresário Adriano Bernardino, tendo na gerência o Vovô Vasco. O aniversário do cinema ocorria no dia 6 de agosto, ocasião em que a cidade ficava em festas, com a programação iniciando bem cedo, com fogos de artifício soltados às seis da manhã, além de ser tocada repetidamente nos alto-falantes a ópera “O Guarany”, do maestro Carlos Gomes. Nesse dia, assistia-se a Cinema ao Ar Livre, com a tela montada no teto do Bar do Pina (que ficava em frente ao cine), passando filmes desde as nove da manhã até às oito da noite. Durante o dia, eram distribuídos centenas de brindes, além de bombons, balões e gibis para a petizada. Este cinema fechou definitivamente as suas portas, sob intenso protesto dos manauaras. Presenciei a derrubada do prédio para dar lugar a uma nova edificação, que abriga uma agência bancária. Foi mais um prédio histórico que foi destruído pelos empresários e pessoas insensíveis que não tinham o menor respeito pela nossa história. Ficou somente a lembrança e nada mais.

 

EU E O CINE GUARANY - Antes de ir ao cinema, eu passava parte da manhã tomando banho no igarapé, pulando da ponte, tanto que, quando dava conta do horário, já era próximo do meio-dia. Corria até em casa, tomava um banho rápido para tirar o cauixi e vestia às pressas a domingueira. Não dava tempo para almoçar. Saía correndo em direção ao cinema que, ainda bem, ficava próximo à minha residência. Enquanto estava na fila para comprar o ingresso, aproveitava para saborear um famosíssimo cachorro-quente (sanduíche de pão com picadinho de carne), servido com refresco de maracujá. Eu gostava de observar a estratégia de um pedinte chamado Jaú. Um senhor moreno de idade, que ficava remexendo umas moedas antigas (patacão) nas mãos, a fim de chamar atenção dos que estavam na fila dos ingressos. Vez ou outra, fazia o pedido: “Uma esmolinha para o cego, uma esmolinha, por favor!” Os mais velhos diziam que ele não era totalmente cego, pois sempre conseguia desviar-se dos homens. Das mulheres, nem tanto, indo direto aos seios, daí ser conhecido por Jaú Mão Boba. Gostava de ficar na área de cima, chamada de poleiro. Quando as luzes se apagavam, era o momento certo para xingar, jogar papel e cuspir no pessoal que ficava no térreo. Algumas vezes era pego, ocasião em que não se livrava de uns doloridos cascudos; outras, era somente advertido pelo lanterninha Farias. Tudo era diversão: o sinal sonoro avisando do início da sessão, o barulho dos ventiladores centrais e laterais, o fechamento das portas de madeira, a escuridão, a abertura das cortinas do telão e o piscar das luzes multicoloridas, o defender do ataque dos veados (homossexuais) que davam em cima dos jovens, os gols da rodada e a gritaria da molecada enxotando o “Condor” para iniciar o filme. Isso marcou a vida de toda uma geração. Lembranças que ficam para sempre.

ASSISTINDO AO FILME “E O VENTO LEVOU” - Eu vendia gibis usados em frente ao Cine Guarany. Sempre fui fissurado em cinema desde a minha tenra idade. Ficava louco para entrar e assistir a um filme, não importando qual o gênero. O importante era sentar numa poltrona e desfrutar da Sétima Arte. Fiquei afoito para assistir ao famoso “E O Vento Levou” (que versa sobre a Guerra Civil americana, com o acidentado romance entre a bela e mimada Scarlett O’Hara e o cínico e aventureiro Rhett Butler, naquele que é considerado o maior filme de todos os tempos. Superprodução de 4,25 milhões de dólares, o mais caro até então e, em se tratando de atualização monetária, um dos mais caros de todos os tempos). Havia dois problemas: primeiro, era de longa duração, em torno de quatro horas e, segundo, o juizado não permitia menor de doze anos entrar para assistir à película. Minha intenção era entrar na marra. Com um olho no gato e o outro no peixe, quando o porteiro abriu a guarda, dei aquela furada (entrar sem pagar). Corri na escuridão do cinema, fiquei quieto na última fila de um lugar chamado poleiro, com um olho na tela grande e o outro no “lanterninha” Farias (funcionário que usava uma lanterna para ajudar as pessoas a encontrar uma poltrona vazia), para não ser pego de surpresa. As quatro horas passaram num passo de mágica e, na saída, misturei-me à multidão, saindo sem ser notado. Já era quase meia-noite. Quando me aproximava da cabeça da Ponte Romana I (na Avenida 7 de Setembro), uma multidão veio ao meu encontro, sem que eu soubesse o que estava ocorrendo. Nessa ocasião, choveram perguntas sobre o meu paradeiro. Fiquei meio sem jeito, mas falei que estava assistindo ao filme “E o Vento Levou”, e nada mais! Avisados os meus pais, estes começaram a chorar de alegria quando me avistaram, pois tinham mobilizado os moradores da Rua Igarapé de Manaus e seu entorno para procurar-me. Na época, a cidade de Manaus era bem pacata, as crianças brincavam na rua até no máximo às nove horas da noite, quando todos entravam em suas casas. Fiquei proibido por uns meses de ir ao Cine Guarany. A peia eu encarei sem chorar, mas ficar sem assistir a um filme foi um martírio; chorava todo final de semana. Mas não teve jeito, tive que cumprir o castigo.

Fonte: Livro e-book ‘O Igarapé de Manaus, José Rocha’

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

FOTO ANTIGA DE MANAUS

 

José Rocha


Faz dez anos que fiz uma montagem de uma fotografia antiga em que aparecem o Chafariz da Praça da Matriz e, ao fundo, a sede dos Correios e Telégrafos.

Hoje, o Facebook me relembrou da foto que publiquei e sugeriu que eu colocasse uma imagem atual ao lado, para que as pessoas pudessem ver como o local está hoje.

Confesso que não tive a menor vontade de fazer isso. O lugar está em estado deplorável — não apenas os terminais de ônibus, mas todo o entorno, que está caindo aos pedaços por falta de manutenção da administração do prefeito David Almeida

O que sinto é uma profunda vergonha do que se tornou a nossa porta de entrada. 


— Em Praça Da Matriz, Centro De Manaus



domingo, 4 de agosto de 2024

O NOVO POINT DO CENTRO DE MANAUS

 

José Rocha

A Rua Ferreira Pena, entre a Rua Dez de Julho e Avenida Ramos Ferreira, tornou-se um lugar que está conquistando cada mais os “botequeiros” em Manaus.

Um pouco de história: Ferreira Pena foi um político brasileiro do século XIX. Nasceu em 1812 e faleceu em 1848. Desempenhou um papel significativo na política da época, mas sua vida foi tragicamente curta. A cidade de Manaus o homenageou dando-lhe o nome de rua.

A Rua Ferreira Pena inicia na Rua Dez de Julho e termina na Avenida Álvaro Maia. Sua abertura se deu por volta de 1890.

Possui alguns prédios de interesse histórico, dentre eles o Palacete Mourisco, datado de 1908, fica na esquina da Rua Simão bolívar. Na esquina da Avenida Ramos Ferreira fica o Palacete Afonso de Carvalho, construído entre 1907 e 1908. Nas proximidades da Ramos Ferreira encontramos o majestoso Casarão que pertenceu a tradicional família Benzecry, trata-se de um bangalô de estilo californiano, construído em 1940.

Voltando ao presente, além desses acima citados, existem vários outros imóveis da Belle Époque, dentre eles onde fica hoje a Aliança Francesa, outrora Museu do Luso Club, além da antiga residência da Charufe Nasser, um imóvel dos mais bonitos do local, mas estava esquecido e abandonado.

O Jápeto Bar e Restaurante, do meu amigo Norberto e família, sobressai com som ao vivo e atendimento de primeira. Neste mesmo imóvel já funcionou famoso ‘Chefão’. Já estive lá duas vezes e aprovei.

O Bar Sarará é uma ótima escolha para quem busca samba, culinária de boteco e um ambiente animado, responsável por lotar a Rua Ferreira Pena.

O Abaré Central, antiga residência da família Benzecry é um local que atrai frequentadores em busca de boa comida e ambiente agradável.

Muitos outros imóveis antigos estão sendo recuperados para servirem de bar e restaurante, incluindo o da Charufe Nasser, que está sendo limpo e até já colocaram várias plantas para voltar a brilhar como antigamente.

Em uma noite de sábado, parei em frente ao Bar Sarará, preferindo ficar do outro lado da rua, tomando umas cervejas na barraca dos meus vizinhos da Rua Tapajós, o Raimundo & Mara.

Eles não economizaram elogios: - Amigo, Rochinha, esses bares estão deixando os outros no chinelo. Aqui, os barraqueiros disputam acirradamente um lugar para vender suas cervejas, pois este se tornou o novo point do centro de Manaus!

Fotos: José Rocha. Pela manhã de domingo, reina a calmaria no local, muito diferente do que ocorre à noite.








sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Tiko Ramos do Igarapé de Manaus

 



Por José Rocha

Tiko nasceu, cresceu, casou, teve filhos e netos, sempre residindo na Rua Igarapé de Manaus. Esse local também faz parte das minhas lembranças de infância, assim como dos meus irmãos.

Ele era filho do Senhor Luiz e tinha cinco irmãos: Carlos, Roberto, Aluísio, Ademir e Edson. Sua família era uma das mais tradicionais da nossa rua.

Tiko era conhecido por seu senso de humor afiado e suas piadas únicas. Nos sábados, a turma antiga se reunia no Bar da Sogra, do Afonso Toscano & Conceição, na esquina da Rua Huascar de Figueiredo com a Avenida Joaquim Nabuco. Ali, além de beber e jogar conversa fora, todos se divertiam com as piadas do Tiko. Isso incluía as da velha guarda do Igarapé de Manaus, dentre eles de meu pai, o luthier Rochinha, um conquistador inveterado.

Seu irmão Aluísio, um habilidoso técnico em edificações, montou um circo no quintal de sua casa, tendo o Palhaço Tiko como atração principal. Eu e meus irmãos também participamos desse empreendimento, sendo conhecidos como “Os Irmãos Borracha” devido às nossas habilidades em contorcionismo.

Na minha juventude, trabalhei na Braga & Cia, que hoje é o Supermercado DB da Eduardo Ribeiro. Lá, tive a oportunidade de colaborar com Tiko Ramos, despachando mercadorias e veículos.

Escrevi um livro de memórias chamado “O Igarapé de Manaus”, onde Tiko aparece em várias passagens. Uma delas é intitulada “Senhor Arthur”. Arthur era proprietário de um boteco que vendia secos e molhados. Ele namorou, casou, morou e criou seus filhos nos fundos do estabelecimento. Arthur era um verdadeiro escravo do trabalho, labutando de domingo a domingo. Diferentemente dos concorrentes, ele não fechava o boteco nem na hora do almoço. Quando alguém entrava, ele acordava da soneca com o barulho do assoalho de tábuas.

Certa vez, Tiko entrou no boteco devagar, pegou uma botija de gás vazia, levantou-a e jogou-a ao chão, gritando:

Tem gás, Seu Arthur? – tentando acordá-lo com muito barulho.

Não tenho, não! - respondeu Arthur ainda meio sonolento. Tiko agradeceu, colocou a botija no ombro e “pegou o beco”.

Dias depois, o Dr. Tiko voltou ao boteco:

Seu Arthur, meu pai está vendendo algumas botijas de gás. O senhor tem interesse em comprar?

Tenho sim, pois as minhas botijas estão desaparecendo!

Não estou vendendo, não, Seu Arthur. Vim devolvê-la, levei na brincadeira. Peço desculpas! – falando meio sem jeito.

Um dos irmãos de Tiko, o médico Roberto, deu a ele a oportunidade de fazer um comercial na televisão para promover seu consultório. Tiko apareceu vestido com avental e estetoscópio no pescoço, simulando uma consulta com um paciente e promovendo a clínica do irmão médico. A partir de então, ele passou a ser chamado pela galera do Igarapé de Manaus como “Doutor Tiko”.

A última vez que conversei com Tiko foi há uns quatro anos. Ele, sempre bem-humorado, compartilhou uma história sobre seu irmão Aluísio:

“Certa vez, Aluísio estava dentro do Bumbódromo de Parintins, na companhia de um vizinho do Igarapé de Manaus, quando este passou mal e foi levado às pressas para o pronto-socorro. De lá, dava para ouvir o início do apresentador do Boi:

"Meu coração é vermelho, hei, hei, hei. De vermelho vive o coração, ê, ô, ê, ô. Tudo é garantido após a rosa vermelhar. Tudo é garantido após o sol vermelhecer. Um, Dois, Três e Já!

Aluísio começou a chorar copiosamente quando o médico falou:

Não chores, seu filho ficará bom logo! – tentando tranquilizá-lo.

Ele não é meu filho, não! Estou chorando por não estar dentro do Bumbódromo vendo a apresentação do meu boi do coração!”

Segundo Tiko, certa vez fez um pedido ao seu irmão:

Quando eu morrer, não quero choro nem velas no meu velório, apenas fitas encarnadas gravadas com o nome do meu boi. Não quero coroa com espinhos, apenas repique e o surdo a rufar da minha Batucada, com toque da caixinha, para encher de alegria e fazer balançar os presentes na minha despedida! Meu caixão deverá ficar em pé, amarrado na parede para não cair, vestido com a camisa do Boi do Povão e um Cocar do Pajé. Nada de café com bolacha de motor. Todos bebendo cerveja e dançando toadas de boi, do Garantido, é claro!"

O tempo passou, e Tiko continuou apaixonado pelo Vasco da Gama, motocicletas de altas cilindradas, cachorros grandes de raça, pela mulher, filhos, netos e pelos amigos de infância do Igarapé de Manaus. Hoje, aos setenta anos, partiu para o andar de cima, deixando saudades nos corações dos amigos do Igarapé de Manaus e de sua amada família. Que Deus o tenha ao seu lado, meu amigo Tiko Ramos.

Foto: Tiko cabeça branca sem camisa a esquerda, com a galera do Igarapé de Manaus, brincando o carnaval.



 

sexta-feira, 26 de julho de 2024

A NOSSA GERAÇÃO

 Por José Rocha

Nós somos da geração dos anos cinquenta e sessenta, a maioria de nós nascida no Hospital da Santa Casa de Misericórdia e criada no centro histórico de Manaus. Somos manauaras da gema, alimentados à base de peixe e farinha.

Tivemos o privilégio de pular da Ponte da Sete diretamente para o Igarapé de Manaus. Lembro-me de irmos com nossos pais e irmãos para os “Banhos do V8”, explorando lugares como o Parque Dez de Novembro, a Ponte da Bolívia e Tarumã, e, também, tomávamos “Banho de Cacimba”.

Éramos moleques travessos, brigávamos nas ruas e levávamos broncas em casa. Tínhamos rivalidades com a garotada de outras ruas e bairros. Quando nos encontrávamos em clubes, praças, cinemas ou na rua, as brigas eram inevitáveis. Tudo era resolvido no “mano a mano”, sem armas brancas ou revólveres, apenas tapas, chutes e pontapés.

Lembro-me de soltar papagaios de papel feitos pelo “Russo”, com linha de cerol e rabiola, cortando o céu com pedaços de gilete. Jogávamos bola nos campinhos de futebol, pois éramos “peladeiros” também das quadras dos colégios, com arranhões e hematomas de brigas inevitáveis.

Brincávamos de peão e colecionávamos bolinhas de gude e caroços de tucumã, escapole-bate-e-fica, queimada, esconde-esconde, quadrilhas e pula-fogueira, com xote e baião.

Nossos dias de escola foram no Barão do Rio Branco, Estadual, Divina Providência, Nilo Peçanha, IEA, Escola Técnica Federal e Benjamim Constant. As palmatórias e os castigos na diretoria faziam parte da rotina, e nosso lanche consistia em pão com pão e leite de Soja e Nescau, sem direito a repetir nem reclamar.

A “Fanfara” era um espetáculo à parte, e os desfiles orgulhosos do “Sete de Setembro”, na Avenida Eduardo Ribeiro, eram seguidos por sorvetes no Pinguim e no A Gogô, além de Caldo de cana com pastel de vento e bolo de macaxeira nas confeitarias completavam nossas tardes de feriado nacional.

Passar no vestibular da Universidade do Amazonas era um privilégio para alguns “CDF”. A maioria estudava Direito na Velha Jaqueira e Ciências Sociais e Humanas no ICHL, pois faculdades particulares ainda não existiam.

Nossa turma frequentava os Cines Guarany, Polytheama, Avenida e Odeon. Assistíamos às apresentações das “Pastorinhas do Luso”, aos shows musicais do “Titio Babosa” e às peças teatrais do “Vovô Branco”. Os “Circos” também eram uma atração constante em nossa cidade.

Vivenciamos a chegada dos sinais de televisão da TV Ajuricaba e Baré, assustados e maravilhados. E o futebol amazonense brilhava na era de ouro, com partidas emocionantes no “Parque Amazonense”.

Na cidade, todos se conheciam, pelo menos de vista. Sabíamos os nomes dos vereadores, deputados, senadores, delegados de polícia, presidentes da COSAMA e da CEM, juízes e promotores de justiça.

O começo da Zona Franca de Manaus trouxe brinquedos, quinquilharias “made in Japan”, perfumes, alimentos e aparelhos de som.

As lojas Lobras, S. Monteiro, Moto Importadora, Central de Ferragens, Souza Arnaud, Canavarro, Antônio M. Henriques, TV Lar e Bemol faziam parte do nosso cotidiano.

Não tínhamos internet nem aparelhos celulares. Nossas informações vinham das rádios Baré, Rio Mar, Difusora e da famosa “Rádio Cipó”, além dos jornais do Comércio, A Crítica e A Notícia. Pesquisas apenas em livros na Biblioteca Pública ou emprestar volumes da Barsa dos amigos mais aquinhoados.

Minha geração testemunhou a chegada da “Bossa Nova & Rock”. Adorávamos artistas como Elvis Presley, Beatles, Roberto e Erasmo Carlos, Wanderléia, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, entre outros. Éramos da época dos “Discos de Vinil” e “Fitas Cassete”, das festas no Acocho, Sheik Clube, Bancrevia e União Esportiva e das “porradas das galeras do mal”.

Naquela época, as mulheres eram esperadas para casar virgens. Se um malandro “avançasse o sinal” e a mulher engravidasse, o casamento era realizado às pressas. Embora não houvesse casamentos entre pessoas do mesmo sexo, existia algo “por detrás dos panos”.

Homossexuais sempre existiram em todos os tempos, mas naquela época, eles casavam na igreja e tinham filhos. No entanto, a grande maioria optava por permanecer solteira pelo resto da vida, sem constituir família.

Pois é, meus amigos, a nossa geração vivenciou todas essas nuances. Presenciamos a chegada da internet, dos aparelhos celulares, das TVs inteligentes e dos sons digitais tipo Spotify e Youtube Music. Mesmo assim, não nos cansamos de relembrar e escrever sobre aquela época boa de nossas vidas.

Passamos pela pandemia do Covid-19, vendo muitos amigos partirem. Aqueles que resistiram agora são sessentões, setentões e poucos oitentões. Aos poucos, nossos amigos da nossa geração estão nos deixando. Diabetes, problemas cardíacos, AVCs, DSTs e doenças renais os levam gradualmente.

A vida segue seu curso, e agora é a vez de nossos netos e bisnetos aproveitarem as modernidades da vida. Quando eles crescerem, pesquisarão e sorrirão ao descobrir como era a vida de seus avós e bisavôs naquela época: “Da Nossa Geração”.

sexta-feira, 19 de julho de 2024

RAPOSA X GALINHEIRO

 

 Por José Rocha

A maioria dos prefeitos das cidades brasileiras são conhecidos como ‘raposas’.

Os ‘galinheiros’ referem-se aos cofres municipais. Quando elegemos as raposas e as colocamos dentro dos galinheiros, o que acontece?

Com certeza, irão devorar uma por uma galinha, até as chocas irão para a bucho.

Como evitar?

Primeiro, eleger um 'Cão de Guarda' e não uma 'Raposa'.

Segundo, vigiar o galinheiro, ou seja, os vereadores devem cumprir a sua missão de fiscalizar o prefeito.

Mas, caso elegermos vereadores amigos dos prefeitos, o galinheiro irá para o beleleu!

quinta-feira, 18 de julho de 2024

OS LADRÕES DA INTERNET

 Por José Rocha

Diariamente, observo pessoas que declaram para o mundo saber que foram vítimas de golpes na internet. Agora, imaginem a quantidade enorme que sente vergonha de vir a público falar que foram enganadas em decorrência do “Olho Grande”, achando que iriam ganhar fortunas, ou que caíram no ‘Papo Furado’ dos bandidos de plantão. Sentem-se como ‘Otários’ ou infantis por terem caído em armadilhas que poderiam ser facilmente evitadas com um pouco mais de cuidado.

Irei enumerar alguns deles, como forma de alerta aos amigos leitores:

“Jogo do Tigrinho”: Também conhecido como “Fortune Tiger”, foi desenvolvido pela empresa Pocket Games Soft (PG Soft), que tem sua sede em Malta. Vocês sabem onde fica Malta? Nunca ouvi falar, mas pesquisando no ‘Pai dos Burros’ descobri que é um pequeno país localizado no sul da Europa, numa ilha próxima à Sicília, na Itália. Esse jogo deve pertencer a mafiosos italianos.

Quem ganha com o jogo? Em primeiro lugar, os ‘Operadores das Plataformas de Apostas’, que ganham com as apostas dos jogadores que muitas vezes perdem fortunas para ganhar prêmios que raramente são alcançados. Em segundo, os camaradas conhecidos no Brasil como ‘Influenciadores Digitais’, que possuem de 10 a 65 milhões de seguidores que gostam do famoso ‘Besteirol’. Eles ganham de 5 a 15 mil reais por semana.

Esses camaradas são bandidos que têm enganado sistematicamente muitas pessoas, desde um estudante que perde sua mesada até grandes empresários que perdem fortunas, por várias razões: promessas falsas de ganhos fáceis em dinheiro. Os bandidos utilizam ‘Promoção por Influenciadores’ que mostram uma vida de luxo e ganhos aparentes, dando uma falsa sensação de legitimidade e sucesso.

O jogo utiliza gráficos coloridos e infantis, atraindo o público mais jovem e menos experiente para identificar fraudes. Pasmem, pessoas ricas e inteligentes caem na armadilha. Os bandidos utilizam perfis falsos no Instagram e outras redes sociais com promoções do jogo, como forma de aumentar a visibilidade e atrair mais vítimas. Ainda bem que a polícia tem feito investigações e prendido alguns dos responsáveis por promover e operar esses esquemas.

‘Golpe do PIX’: Os golpistas enviam mensagens se passando por bancos, informando sobre transações suspeitas e pedindo para a vítima entrar em contato com uma suposta central de atendimento. Durante a ligação, eles solicitam dados pessoais ou induzem a vítima a fazer uma transferência. Eu, particularmente, não atendo ligação que não está na minha agenda, muito menos com DDD de outros estados com maior densidade populacional e atividade econômica, por exemplo, do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.

‘Golpe da Falsa Central de Atendimento’: Criminosos se passam por funcionários de bancos ou empresas, alegando problemas como clonagem de cartão, pedindo dados pessoais e bancários para “resolver” o problema, mas na verdade usam essas informações para fraudes.

‘Golpe da Tarefa’: Prometem pagamentos por tarefas simples, como curtir publicações ou seguir perfis, pedindo um pequeno investimento inicial ou dados bancários, mas o pagamento prometido nunca é enviado.



‘Golpe do Boleto Falso’: Os bandidos enviam boletos falsos por e-mail ou aplicativos de mensagens, que parecem ser de empresas legítimas. Quando a vítima paga, o dinheiro vai para a conta dos criminosos. Uma forma rápida de saber se o boleto é falso é verificar a numeração que aparece em todo boleto. Os três primeiros números devem ser do banco que aparece ao lado, por exemplo: BB 001, CEF 104, Bradesco 237, Itaú 341 e Santander 033. Caso comece com outro número, é falso. Os últimos números devem ser exatamente o valor a pagar, por exemplo, R$ 744,50, os últimos números serão 74450. Caso o cidadão de bem não observe esses detalhes e for ao banco ou tentar pagar pelo aplicativo do seu banco em seu celular, ao aponta a câmera para ler o ‘Código de Barras’, ele apresenta uma falha bem no meio e pede para a pessoa digitar aquela série de 45 números. É golpe! Perdeu, mané!

‘Ransomware’: É um ‘Malware’ (um software malicioso) que sequestra os dados do usuário e cobra um valor de resgate para liberá-los. É uma forma de extorsão digital. Tenha muito cuidado, não clique em links que te mandam pela internet.

‘Criptomoedas’: É uma moeda digital descentralizada, criada e gerida por meio de tecnologia de ‘Blockchain’ (tecnologia segura) e sistemas avançados de criptografia. Existem muitos golpes relacionados a Criptomoedas, como esquemas de pirâmide e fraudes de ICO (Oferta Inicial de Moeda). Muitas pessoas perdem dinheiro por falta de conhecimento, podem perder suas reservas para os ‘Hackers’ (uma pessoa com habilidades avançadas de informáticas usada para o mal) e também pelos preços que sobem e podem descer drasticamente. O megainvestidor brasileiro Luiz Barsi, um senhor com um patrimônio de 4 bilhões de reais, falou numa entrevista que já pegou em Real, Dólar Americano, Euro, Ouro, Prata, Diamante, Joias e já visitou a sede do Banco do Brasil e da Petrobras e da empresa Klabin, mas nunca na vida viu uma ‘Criptomoedas’, pois ela é uma invenção do homem, não existe no plano físico. Dessa forma, jamais investirá numa coisa irreal.

Para se proteger, é importante desconfiar de mensagens e ligações suspeitas, nunca fornecer dados pessoais ou bancários sem verificar a autenticidade da solicitação, e manter seus dispositivos protegidos com antivírus e atualizações de segurança.

E acima de tudo, deixe de ilusões que será fácil ganhar dinheiro em sites que prometem ganhos acima da média e que vendem produtos abaixo do preço de mercado. Exemplo recente: Site do famoso ‘Big Brother Brasil 2021 ‘Nego Di’. É golpe dos ladrões da internet!

Fonte: IA Copilot da Microsoft 

terça-feira, 16 de julho de 2024

RELÓGIO MUNICIPAL DE MANAUS

                                                                                    Foto Montagem: José Rocha
 

O Relógio Municipal de Manaus é uma marco histórico localizado no Centro Histórico de Manaus, capital     do Estado do Amazonas, Brasil.


Foi inaugurado em 1929, durante a administração do prefeito José Francisco Araújo Lima (autor de Amazônia – A Terra e o Homem).


Sua arquitetura é neoclássica e o mecanismo foi importado da Suíça e montado pela firma Pelosi & Robert, uma loja de italianos que por pouco não foi incendiada na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), porém a residência do Sr. Pelosi Giulio Roberti, não teve a sorte.


Era conhecido carinhosamente pelos manauaras como “Big Bem”, uma alusão ao famoso relógio inglês.


A peça que produzia a “batida” está quebrada e o conserto está a cargo da família Sahdo, permissionários de uma loja de venda e consertos de jóias e relógios, estabelecida no local faz algumas décadas.


Possui uma inscrição em latin ‘Vulnerant Omnes, Ultima Necat’, que significa ‘Todas Ferem, A Última Mata’, alude ao passar das horas e à finitude da vida, lembrando que tudo tem seu tempo e que a última hora é inevitável.


Infelizmente, o relógio permanece mudo, pois a responsabilidade pelo conserto não é da família Sahdo, mas, sim, do poder público municipal, uma vez que o relógio é patrimônio de todos os manauaras.





Café da Manhã dos Pobres de Antigamente

 Por José Rocha

Nas décadas de 50 e 60, apesar de já existirem cafés embalados, algumas famílias gostavam de comprar o café em grãos, torravam e pilavam o café, que era fervido em fogareiros de carvão.

No centro da cidade existiam as padarias Frankfour e Modelo, mas os pães também eram vendidos pelos padeiros que entregavam na porta dos clientes. Geralmente, eram pães caseiros, de meio quilo, com massa fina e doce.

O leite era in natura, vendido por leiteiros que passavam de porta em porta deixando o precioso líquido branco.

A manteiga regional, a mais gostosa, era vendida a retalho nas tabernas ou em latas de meio quilo, sendo a marca Aviação a mais preferida.

Queijos disponíveis eram apenas o Coalho e Manteiga, sendo o Bola reservado para os ricos.

Sucos somente de frutas regionais, mas eram difíceis nas mesas de pobre.

Quando a grana estava curta, o jeito era tomar o café sem leite e o pão sem manteiga, ou comer bolacha de motor.

Uma vez na vida e outra na morte, apareciam um cuscuz, tapioca com queijo ou um pé de moleque e bolo de macaxeira.




DOUTOR CAPA ONÇA

 

Trecho do livro e-book em elaboração “Crônicas do Bar Caldeira, José Rocha”:


Ele morava na Rua José Clemente, próximo ao Salão Grajaú. Foi Diretor do Colégio Estadual (Praça da Polícia) e funcionário da Petrobrás onde se aposentou. Foi também advogado, formado pela antiga UA (atual UFAM), e passou anos militando na profissão.

Doutor Capa Onça tinha seus hábitos peculiares. Adorava tomar cerveja e fazer um esquenta com conhaque (para abrir o apetite). Era fumante inveterado, com aquele pigarro característico. De vez em quando, soltava tossidas tão altas que pareciam convocar uma assembleia de pulmões. E, claro, não podia faltar a cusparada no meio da rua. Coisas de um autêntico boêmio, que curtia seu cigarrinho.

Mas o que realmente chamava atenção era seu apelido: “Doutor Capa Onça”. Todo mundo tremia só de pensar em chamá-lo assim. Afinal, o sujeito que teve a coragem de pegar uma onça pelo braço, imobiliza-la e arrancar-lhe os culhões com uma faca peixeira devia ser um verdadeiro herói. Quem mais faria isso? Só o Doutor Capa Onça! Se ele realmente fez isso, ninguém sabe, mas o apelido pegou.

Eu costuma ouvir a Dona Mary Das Cruzes chamá-lo:

- Capa! Capa! – ele fingia que nem ouvia.

E ela insistia:

- Capa Onça, tô falando contigo! Tá surdo, é?

Ele balançava a cabeça negativamente e resmungava. A rapaziada virava a cara e ria da presepada.

Doutor Capa Onça gostava de conversar comigo e com o meu irmão Rocha Cão do Luso. Éramos contemporâneos dos sobrinhos dele no Igarapé de Manaus. Sempre tinha razão, não adiantava argumentar. Na mesa de bar, não havia espaço para o contraditório. Com aquele vozeirão, ele metia medo. Bebia sozinho no balcão e não era de papear muito com os outros frequentadores.

Um dia, apareceu um vendedor com um carrinho de mão cheio de melancias. Doutor Capa Onça pegou uma por uma, batendo com os dedos fechados e ouvindo o som. Escolheu a maior e mais cara. E, para todo mundo ouvir, declarou:

- Sou nascido e criado no interior, no meio das plantações de melancias. Conheço como a palma da minha mão. Só na batida sei se está boa ou não. Malandragem da capital não me engana, não!

Pagou pela melancia e correu para deixa-la em casa. Quando voltou para reiniciar os trabalhos etílicos, o vendedor já tinha “pego o beco”. Minutos depois, a empregada jogou a bendita melancia na calçada, espalhando pedaços para todos os lados. Ela gritou para o quarteirão inteiro ouvir:

- Doutor, a patroa mandou jogar aqui, porque essa melancia está podre!

Doutor Capa Onça soltou um palavrão e admitiu:

- “PQP”! Foi a primeira vez na vida em que errei!

A galera não se conteve da presepada do Doutor Capa Onça. Segundo Adri Das Cruzes, ele tinha a cara de mau, era valentão e que gostava de discutir sobre tudo com todos. Mas, no fundo era uma pessoa de bom coração.

quarta-feira, 22 de maio de 2024

O SINO DA LEI DA 'CREOLINA'

 

                                                             Foto: José Rocha

Por José Rocha

Ao entrar pelo portão principal do Mercado Adolpho Lisboa, depara-se ao lado direito com um sino sem o badalo (foi retirado pois as pessoas batiam nele constantemente, inclusive eu fiz isso também), que foi colocado naquele local durante a última reforma do 'Mercadão', em 2013.

Ele possui história.

Foi fabricado em Pádua, na Itália, pela Fundição Coleachini, exatamente na Belle Époque manauara, anos de riqueza e opulência, quando a cidade de Manaus encomendava produtos de alta qualidade na Europa.

Ele foi inaugurado em 1903, pelo Superintendente Municipal (Prefeito) da época, Dr. Martinho de Luna Alencar.

Como não existia, na época, sistemas de refrigeração, as carnes frescas de vacum possuíam um prazo mínimo de validade para a venda à população.

Através da Lei 291, de 3 de março de 1903, ficou estabelecido o seguinte: até às nove da manhã o preço da carne seria de mil e quinhentos réis; das nove até às dez, caía para mil réis.

Exatamente às dez horas, os fiscais começavam a tocar o badalo deste sino.

Era a hora da desinfecção das mesas do talho, onde era aplicada a creolina, um germicida e desinfectante
com um odor muito forte.

As pessoas mais pobres esperavam até antes das dez da manhã para comprar carnes a um preço bem reduzido.

Este hábito perdurou por muito tempo, até a chegada dos freezers e congeladores, quando terminou a 'Lei da Creolina'.

Passados 121 anos, este sino encontra-se no Mercadão para que todos os manauaras conheçam a sua história e a da cidade de Manaus.

sexta-feira, 17 de maio de 2024

O Violão do Rochinha: O Último dos Moicanos

 

Foto: Marcus Gomes


Por dezessete anos, dediquei-me ao nobre ofício de fabricar instrumentos de cordas, auxiliando meu saudoso pai. Dez desses anos foram dedicados a criar meu próprio violão, um sonho que, infelizmente, nunca se concretizou.

Eu dominava apenas o básico da construção, enquanto meu pai cuidava do cavalete, braço e escala. Meu violão ficava impecável: todo boleado, com laterais e fundo de macacaúba, tampo de pinho e braço de cedro. No entanto, sua permanência em minhas mãos era efêmera; meu pai o vendia ao primeiro cliente que aparecia.

Ano após ano, eu desistia de possuir meu próprio violão. Até que, um dia, peguei um instrumento quebrado, colei, lixei e envernizei. Meu pai fez um enxerto no braço, substituindo-o por um pedaço de um “Di Giorgio”. Quando finalmente ficou pronto, levei-o para casa. Era o meu tão sonhado violão.

Incrivelmente, esse violão fez história. Ele é a única lembrança do Luthier Rochinha, com sua assinatura e a data de 1967 gravadas. Hoje, com 57 anos de fabricação, é uma relíquia.

Permita-me compartilhar um pouco da minha história como auxiliar de luthier:

Nasci na década de cinquenta, na Santa Casa de Misericórdia em Manaus. Logo após o nascimento, fui levado diretamente para a oficina de fabricação de violões, que também servia como nossa casa. Cresci imerso no aroma de serragem, vivendo em um flutuante (uma casa sustentada por grandes toros de madeira) no Igarapé de Manaus.

Lá, aprendi a engatinhar e a andar, além de absorver o ofício de fazer violões sob a tutela de meu pai, Rochinha. As técnicas de fabricação de instrumentos de cordas foram transmitidas a ele por um senhor conhecido como Nascimento, proprietário de uma pequena oficina de violões nos porões da Casa Alba, no centro antigo de Manaus. Esse senhor, por sua vez, havia adquirido conhecimentos de um grande mestre português no início do século passado.

Com o desmonte da Cidade Flutuante no final dos anos sessenta, mudamos para uma casa alugada. A oficina foi transferida para os porões da mansão dos Bringel, na esquina da Rua Igarapé de Manaus com a Rua Huascar de Figueiredo. Lá, durante dezessete anos, ajudei meu pai no sagrado ofício de carpinteiro, moveleiro e artesão. Além dos violões, também fabricávamos cavaquinhos, bandolins, portas, janelas, mesas, cadeiras e tamboretes.

Naquela época, a palavra “luthier” não era comum; a profissão de meu pai era conhecida simplesmente como “artesão”. Não tínhamos máquinas poderosas, apenas uma pequena serra elétrica e muitas ferramentas manuais. A criatividade e o suor eram nossos principais recursos.

Minha função era auxiliar, e meu trabalho era árduo. Buscava “bucho de Tambaqui” no Mercado Municipal Adolpho Lisboa para fazer nossa cola (que era excelente para colar madeiras). Serrava peças de macacaúba (uma árvore nativa) para o fundo dos violões. Lembro-me bem da dureza dessa madeira! Realizei muitos exercícios físicos, como serragem, plainagem, envernização e colagem, sem precisar frequentar uma academia de musculação.

Durante anos, meu pai repetia aos amigos que seus filhos não tinham a vocação para o ofício. Na verdade, ele não desejava que seguíssemos sua bela profissão. Seus sonhos para nós eram outros: queria que nos tornássemos “doutores”. Minha rotina era intensa: trabalhava pela manhã e estudava à tarde, sem folgas. As raras horas de lazer eram preenchidas com brincadeiras com a molecada do Igarapé de Manaus, mas sempre com a certeza de uma “peia” ao voltar para casa.

Hoje, recordo com saudade minha infância e adolescência, marcadas pelo trabalho como auxiliar de luthier. Na oficina do meu pai, tive a oportunidade de conhecer cantores, músicos, amantes da boa música, compositores, artistas, jornalistas, poetas e até doutores. Nos fins de semana, eles se reuniam para cantar e tocar os instrumentos do meu velho. Esses encontros me inspiraram a frequentar os locais onde os “Regionais de Manaus” se apresentavam, como os bares Caldeira, Loura, Gestina, Walter e Jangadeiro.

As pessoas frequentemente me questionam por que não segui a bela profissão do meu pai. Confesso que essa dúvida me angustia. Agora, estou seriamente considerando mudar o rumo. Para começar, buscarei orientações dos discípulos do saudoso luthier Rubens Gomes, da Escola de Lutheria da Amazônia (OELA).

Minha ideia é reunir meus irmãos – um contador e um vendedor nato – e eu, um administrador. Juntos, levantaremos recursos junto à Agência de Fomento do Estado do Amazonas, faremos convênios com o INPA na área de madeiras e descobriremos fornecedores de madeiras certificadas com selo verde. Quem sabe assim, ressurgiremos das cinzas com uma nova oficina de violões.

Quanto ao nome, “Di Rocha” parece uma homenagem perfeita ao meu pai. Está na hora de deixar de ser apenas um auxiliar e me tornar um fabricante de violões! Sonhar não custa nada.

Enquanto esse sonho não se concretiza, o último exemplar de violão construído por meu saudoso pai permanece guardado a sete chaves. Ele é o “Último dos Moicanos”.

domingo, 5 de maio de 2024

NOSSA LÍNGUA PORTUGUESA

 

Por José Rocha

Hoje, 5 de maio, celebra-se o ‘Dia da Língua Portuguesa’, um idioma originário de Portugal e foi disseminado durante a época colonial no Brasil e em alguns países africanos.

Com a chegada do Império Romano à região ibérica, atualmente correspondente a Portugal e Espanha, o Latim Vulgar foi imposto como língua. Após a queda do império, diversos dialetos emergiram, dando origem ao Catalão, ao Castelhano — também conhecido como Espanhol — e ao Português.

A chegada dos portugueses ao Brasil marcou a imposição de sua língua materna. Contudo, ocorreu uma fusão com os idiomas dos povos indígenas e dos escravos africanos, resultando no que hoje conhecemos como Português Brasileiro.

Nossa língua encontra-se em constante evolução. Basta comparar um jornal do início do século passado com este texto para perceber as transformações.

O estrangeirismo, as gírias e o português coloquial são falados informalmente por todos nós. Por outro lado, o português formal é a modalidade padrão, aceita por um público mais exigente, que ainda preserva o formalismo na língua.

Assim como tudo na vida, nossa língua portuguesa também se transforma.

Parabéns pelo seu dia!

Foto: Microsoft Copilot no Bing (IA)