terça-feira, 8 de junho de 2021

A ROTUNDA DA PRAÇA DA POLÍCIA




Ao abrir o álbum de família, fiquei a observar atentamente uma fotografia em preto e branco, acredito que deva ser do início da década de quarenta, onde aparece a minha mãezinha ainda muito jovem, sentada num dos degraus da imponente Rotunda da Praça da Polícia.
Aproveitei o feriado de Corpus Christis para visitar e admirar esse importante monumento.
Tirei fotografias e sentei exatamente no mesmo local onde a minha genitora esteve setenta anos atrás.
Passei milhares e milhares de vezes por aquele local, porém, nunca tinha antes parado para admirar e pensar sobre a importância daquela construção, mas, sempre existe o primeiro dia.
Mas, afinal, o que é uma Rotunda?
Segundo os especialistas, o nome vem do latim rotundus, significando “redonda”, ou seja, em arquitetura é uma construção circular terminada em cúpula.
As mais famosas são a Rotunda do Capitólio dos Estados Unidos e o Panteão de Roma, possui um grande valor histórico e arquitetônico. Muitas igrejas dos séculos 9-11 foram construídas dessa forma.
E qual a sua utilidade numa praça?
Por ser redonda, com uma visão de 360 graus, ela é própria para alguém fazer um discurso, mandar uma mensagem para todos aqueles que estão naquele ambiente.
Serve também para as pessoas sentarem, baterem papo ou se abrigarem do sol ou da chuva, além de ser um elemento que dar um charme todo especial a praça.
E a nossa Rotunda Baré?
De acordo com os nossos cronistas, a sua construção foi no governo municipal do José Francisco Araújo Lima (1924-1924 e 1926-1929), fica na Praça Heliodoro Balbi, antiga Praça da Polícia, possui cinco degraus, quatro colunas e uma belíssima cúpula, passou, recentemente, por uma grande reforma.
Segundo o poeta e escritor amazonense Rogel Samuel "A nossa Rotunda é uma cópia do Temple de l´Amour (Templo do Amor), dos Jardins de Versailles, France. É possível comparar com as imagens acionando o Google".
Este bonito espaço, permaneceu durante muitos anos sem ser utilizado, ficando bastante ociosa, servindo apenas de banco e de abrigo, isso refletia que o povo estava acomodado, aceitando passivamente os desmando dos governos municipal e estadual, além de engolir sem reclamar da roubalheira e da atuação pífia da maioria dos políticos amazonenses.
No ano de 2012 a nossa Rotunda voltou a brilhar, a ser utilizando para os fins em que foi construída: para o povo discutir sobre o seu destino, da administração da pólis e da atuação dos nossos representantes no parlamento.
Eis que ressurge das cinzas o “Projeto Jaraqui”, sob a batuta do antropólogo Aldemir Ramos, com reuniões todos os sábados de manhã, onde todos têm vez e voz para falar livremente sobre um tema previamente acordado.
É a Rotunda da Praça da Polícia servindo novamente ao povo de Manaus.
É isso ai.
Fotografia: J Martins Rocha

PREFEITO DAVID FOI RÁPIDO E EFICIENTE NO CAOS

 

Não sou porta-voz da Prefeitura de Manaus nem do prefeito David Almeida, mas quando toma decisões corretas e rapidas para a população, bato palmas e retransmito as suas ações.
O prefeito David Almeida anunciou o seguinte:
1. Amanhã, a Praça das Letras vai ser entregue como nada tivesse acontecido de ruim com ela;
2. A UBS queimada vai ser entregue no final de semana novinha em folha, com novos e modernos equipamentos;
3. Os ónibus voltam a circular a tarde de hoje com 30% de sua capacidade;
4. Vai implantar em tempo recorde a Guarda Municipal Armada, tendo o Delegado da PF Fontes no comando.
5. As escolas retornarão amanhã com toda segurança possível.
6. A vacinação voltará amanhã a normalidade.
7. O Distrito de Obras incendiado voltará com novos equipamentos.
É assim que os chefes do executivo devem ser comportar: com respostas rápidas e positivas para a sociedade.

NÃO TEMOS WC PÚBLICO EM MANAUS

 

Era fevereiro de 2018, a cidade de Manaus estava apinhada de turistas estrangeiros, pois estávamos em plena temporada de Cruzeiros, com o Roadway cheio de transatlânticos.
A cidade vivia o boom do turismo com todos faturando alto: bares, restaurantes, guias turísticos, hotéis, lojas de souvenires etc.
Eu estava sentado em um banco, ao lado da Banca de Revista do Joaquim Melo, no Largo de São Sebastião, observando toda aquela movimentação.
De repente, aparece um senhor branco, alto e ruivo, parou e olhou para a galera com cara de pidão. Ele suava mais do que tampa de chaleira.
Aproximou e falou: - Здесь есть общественный туалет? У меня болит желудок. (segundo o tradutor Google)
O que este camarada está falando? – as pessoas ao redor questionavam.
Acho que está falando alemão. – falou um magrelo.
Pior que estava mesmo!
Depois, mudou o idioma: - Is there a public restroom around here? I have a stomachache. (segundo o tradutor Google)
Eu não sei nem falar corretamente o português, vou entender o inglês! – falou um picolezeiro.
E o gringo cada vez mais suando e mudando de cor.
E ninguém entendia patavinas, pois eramos todos monoglotas.
Quando ele mudou de branco para vermelho e estava começando a ficar verde, parecendo um incrível Hulk, fez o sinal internacional da dor de barriga: bateu com a mão aberto no estômago.
Agora, sim, eu entendi, ele quer “jogar o barro na louça”. – disse um estudante.
Apenas apontei para o lanche da Africa House e ele saiu bem devagar, arrastando os pés, pois poderia fazer a obra ali mesmo!
Pense numa situação escrota!
Não somente os turistas passam por estes vexames, em decorrência da alimentação, mas também os manauaras que não possuem nenhum WC público na cidade.
Isto é uma vergonha!
Já é hora do prefeito fazer uns pela cidade e deixar ser explorado por concessionários, cobrando um valor razoável para cobrir os custos e anda ter lucro, pois clientela não irá faltar.
É isso ai.

domingo, 16 de maio de 2021

MANAUS ATERRADA E ALAGADA

MANAUS ATERRADA E ALAGADA

José Rocha


A ciddde de Manaus possui cinco bacias hidrográficas:

 Puraquequara, Lago do Aleixo, Taruma, Educandos e São Raimundo, com aproximadamente 150 igarapes.

Com o passar dos anos alguns deles foram sendo aterrados.

Por exemplo, Espírito Santo,  Remédios, Aterro, Manaus, Bittencourt, Quarenta, Mestre Chico e outros menores que foram direcionados  para dentro das tubulações de águas pluviais.

Na parte central, com a construção da Avenida Lourenço Braga ligando o Porto de Manaus ao Distrito Industrial, foi feito um imenso paredão para conter às águas do Rio Negro.

Vocês sabem o porquê do governo ter construído os Parques Jefferson Peres, Paulo Jacob e Mestre Chico?

Simplesmente com medo de um dia a mãe natureza aumentar o nível das águas, como está ocorrendo agora, e derrubar àquela estrutura da Lourenço Braga e "invadir" o seu curso normal de antigamente antes dos aterros.

Vocês podem observar que o PROSAMIM, por questão de segurança,  construiu vários  conjuntos de apartamentos somente depois dos referidos parques, para evitar uma possível catástrofe.

Caso houver uma enorme cheia, o grande volume de águas irão encher os parques como era antigamente.

Antes dos aterros de alguns igarapes, vivia-se em casas flutuantes, onde era possível conviver harmonicamente com as cheias e vazantes do Rio Negro.

O Igarape do Espírito Santo entrava pela atual Alfândega e ia até próximo a Rua 24 de Maio. Foi aterrado pelo Governador Eduardo Ribeiro.

Vocês podem observar que ao lado deste prédio secular existe um paredão que barra a entrada do rio.

Rezemos para um dia a força do rio não o derrube, pois caso isto  aconteça milhares de pessoas morrerão.

Hoje, andei pelo centro antigo e vi as águas buscando o seu lugar de outrora.

Devemos saber conviver com isto, pois tudo é em decorrência do progresso e da briga do homem contra a natureza.

Um dia ela dará o troco!

sábado, 15 de maio de 2021

Em 2021, Flávio de Souza retorna ao Parque Amazonense, uma praça de futebol onde guarda grandes e memoráveis lembranças e um dia muito triste de sua vida.



 Comentei no início deste livro (FLÁVIO DE SOUZA - UM GRANDE MÚSICO E DESPORTISTA DO AMAZONAS) sobre um dia trágico que aconteceu na vida  do Flávio de Souza, quando ele tinha apenas dezesseis anos de idade. Era o ano de 1946, ele estava na arquibancada do Parque Amazonense assistindo ao jogo de futebol entre a Seleção do Amazonas versus Seleção do Pará, quando o seu genitor passou mal e voltou para casa, deixando o jovem Flávio assistindo ao clássico,   quando retornou a sua residência encontrou o seu pai morto.  Foi um dia fatídico que o marcou para o resto da vida.                      No entanto, no decorrer dos anos voltou a frequentar centenas de vezes o velho Parque Amazonense, não somente na qualidade de torcedor e expectador, mas de treinador de futebol até o fechamento definitivo daquela praça de esportes, ocorrido no dia 8 de julho  de     1973.

Passados quarenta e oito anos depois do fechamento definitivo dos portões do Parque Amazonense, exatamente no dia 15 de maio de 2021, o Flávio de Souza voltou àquele lugar, para posar para fotografias e verificar in loco o que restou daquele estádio outrora tão imponente e bonito. Foi um misto de alegria, tristeza e saudade. Poucas coisas restaram: A Fachada do Parque, com o muro, um imenso portão de ferro fabricado em Glasgow (Escócia) e um busto de um cavalo (mostrando para a posteridade que naquele local já fora um Prado, onde havia corridas de cavalos na belle époque manauara). Os antigos moradores conservam uma Viga de Sustentação das arquibancadas, toda em ferro, fabricada por W. Macfarlane & Co./Glasgow, a única que restou entre dentre dezenas delas  que foram destruídas e/ou guardadas por colecionadores.                   A área é imensa, apesar de alguns moradores terem feito loteamentos e construído suas casas. Existem dois campos de futebol, com gramas e parte de chão batido  e outro para a prática de voleibol. No local foi   construído    também o 22º. DIP - Distrito Integrado de Polícia.

O Flávio de Souza teve a grata surpresa em encontrar a Elcimar Costa,  mais conhecida por Dona Mikita. Ele é filha do Dr. Elcio Farias (Odontologo formado na antiga Universidade do Amazonas), que foi goleiro reserva  do Clóvis Aranha Negra, do Rio Negro, quando foi treinador deste time. Em 2016, ela foi treinadora de futebol do infantil, juvenil e juniores do São Raimundo Esporte Clube. Atualmente, possui uma escolinha de futebol, ensinando o esporte às crianças do entorno do Parque Amazonense, sem nada cobrar, uma forma de amor ao próximo e dando seguimento ao que o seu saudoso pai fazia até antes de falecer. Ela Ministra aulas todas as terças e quintas a partir das quatro da tarde e nos finais de semana ela joga futebol feminino. O Flávio por morar próximo ao Parque prometeu retornar ao local para colaborar e dar orientações aos jovens sobre a sua larga experiência de treinador de futebol. Segundo a Dona Mikita, existem rumores que, o suposto dono do Parque Amazonense ganhou na justiça  o direito de vendê-lo a uma construtora que pretende fazer os seus espigões e acabar            de uma vez por todas com o Prado e a nossa memória.                    

Caso isto aconteça, o Flávio de Souza, Dona Mikita e toda a comunidade estão dispostas a fazerem de tudo para alertarem as autoridades públicas e aos políticos (os oportunistas, em sua grande maioria, a comunidade  não conta muito) para reverter esta situação. Ao sair do Parque, encontrou o jogador Val, um atleta do Rio Negro que fez questão de abraçá-lo e declarar que se tornou um bom profissional graças      aos ensinamentos do professor, treinador e amigo Flávio de Souza. Foi um momento emocionante. Propôs ao Flávio de Souza fazermos um pedido ao atual Prefeito de Manaus, para que olhe com muito carinho para  o Parque Amazonense, tornando-o um Centro Social Prado Parque Amazonense.                                                                        

Um pouco de história - O Estádio Parque Amazonense (Prado) fica   na Rua Belém, zona Centro-Sul da capital, antigo Beco do Macedo (atual bairro Nossa Senhora das Graças) numa área por detrás do Reservatório do Mocó.                                           Segundo os historiadores, a área pertencia a um rico comerciante português, que mais tarde fez uma concessão ao Dispensário Maçônico (uma entidade da maçonaria que cuidava da saúde e distribuía medicamentos gratuitamente a população carente de Manaus). Em 1906, no governo estadual do Constantino Nery, em parceria com o prefeito Adolpho Lisboa, abriu  as portas do Parque à população manauara. No início, o espaço fora destinado à corrida de cavalos, com a construção de um Hipódromo, tornando-se o point das famílias abastadas amazonense. Com o declínio da borracha, ocorrido em 1912 e, consequentemente, com a quebradeira geral dos barões dos seringais,  esta prática de esportes conhecida como “Esporte Rei” foi abandonado, pois ninguém tinha mais condições de manter os cavalos “puro sangue”.  Em 1918, os maçons tentaram a volta da prática de corrida de cavalos combinado com partidas de futebol, vingando apenas o segundo. A sua época de anos dourados foi somente com o futebol de campo, com as disputas dos campeonatos de futebol amazonense. A primeira partida foi protagonizada pelo Rio Negro e Nacional, ocorrida  em 13 de junho daquele ano, com empate de 1 a 1.                                      

    Segundo os acervos do saudoso historiador Carlos Zamith,        publicado no site da Globo Esporte:                                                  “Em 1946 o local foi vendido à Federação Amazonense de Desportos Atléticos (FADA). Em 1960, o prado maçônico passou a ser administrado pelos irmãos Artur e Amadeu Teixeira (América futebol Clube), no entanto, em 21 de maio de 1967 houve um grande acidente, com várias pessoas feridas e uma morte,   o espaço foi devolvido pelos irmãos a maçonaria, que repassou para uma empresa que queria construir no local um conjunto habitacional. Este empresário sem nenhuma sensibilidade com a nossa história e desrespeito ao patrimônio público mandou demolir toda a estrutura da arquibancada,  com ferros vindos de Glasgow e coberto com telhas de barro de fabricação portuguesa. O último jogo disputado oficialmente foi no dia 8 de julho de 1973, entre Rio Negro e Rodoviária. Já com parte da estrutura e da história destruídas, a prefeitura sob o comando de Jorge Teixeira tentou reverter a situação passando a praça de esportes  para a esfera municipal, sem sucesso, com parte da área sendo  loteada     pelos  moradores do entorno”.

        Aquela área nobre da cidade é muito disputada para especulação imobiliária, porém, não sabemos que são os seus verdadeiros donos,  pois até os dias atuais muitos declaram que são os seus legítimos proprietários e herdeiros, demandando uma briga de foice na justiça. O Poder Público Municipal deveria intervir e tornar aquela área de interesse público e fazer as devidas desapropriações e, no local, construir Quadras Poliesportivas, Campo de futebol, Unidade Básica de Saúde,        Museu do Futebol, Creche, Praça Temática e outras obras de infraestruturas, para barrar a especulação imobiliária e tornar o local de lazer e bem estar para  os moradores do entorno e do povo manauara em geral. 




 *Trecho do meu Livro que está no prelo: FLÁVIO DE SOUZA - UM GRANDE DESPORTISTA E MÚSICO DO AMAZONAS

 

sexta-feira, 14 de maio de 2021

SEXTOU EM MANÔ - 1979

 


Era uma sexta-feira, 11 de maio de 1979, na coluna social Art & Som, editado pelo Carlos Garcia, do Jornal do Comércio, em página inteira mostra as opções para os manauaras se divertirem na noite caliente de Manaus (Manô para os colunistas):

1.  Casas Noturnas com muita movimentação - Hoje, sexta-feira é dia de som maior nas boites e discothéques locais, a partir de agora começa a grande concentração da massa jovem e adulta nas nossas casas noturnas. Não só hoje, como também amanhã sábado a coisa vai esquentar e domingo também no som alucinante do momento. Há várias opções para divertimento nesta sexta-feira a noite, pois a partir das 21 horas começam a funcionar as discotecas e boites Shock, Starship, Crocodilo-s e Studio Cento e Um. 

2. Cinemas: Studio Center (Dois Vigaristas em Nova York) - Veneza (A Mulher e o Divórcio) - Ypiranga (A Ilha do Dr. Moreau) - Guarany (As Taradas Atacam) - Cine Pop (Eu Faço Elas Sentem) - Cine 2 (Mazzaropi).

3. Televisão: Programação a partir das oito horas:  Canal 2 (Cinema de todos os tempos: O Guarany) - Canal 4 (O Direito de Nascer - Cinema Proibido) - Canal 5 (Novela Cara a Cara - TV Bolinha).


Vocês ai, que já são sessentões e setentões, qual foi a pedida neste dia?


E não lembro nem o que comi ontem, vou lembrar onde eu estava 42 anos atrás! Deveria estar lá no lupanares "Lá Hoje" ou na "Saramandaia", pois em plena sexta-feira não colava cinema. A boite que eu frequentava era dos pobres, a Danilo´s da Silva Ramos.

É isso ai.


quinta-feira, 13 de maio de 2021

DR. JOSIAS, O CAPA ONÇA

 

           Ele morava na Rua José Clemente, próximo ao Salão Grajaú. 

Foi Diretor do Colégio Estadual (Praça da Polícia) e funcionário da Petrobrás onde se aposentou. 

Foi também advogado, formado pela antiga UA (atual UFAM), militando anos na profissão. 

Gostava de tomar cerveja e tirar gosto com conhaque (para abrir o apetite).

Era fumante inveterado, tanto que tinha aquele pigarro característico. Vez e outra dava umas tossidas alta e uma cusparada no meio da rua. 

Até ai tudo bem para um boêmio que gosta de fumar o seu cigarrinho. 

No entanto, o que mais chamava atenção era aquele apelido estranho de “Capa Onça”. Todo mundo tinha medo de chamá-lo pela alcunha, pois o sujeito que teve a coragem de pegar uma onça pelo braço, imobilizá-la e arranca-lhe os seus culhões (testículos) com uma faca peixeira, deveria ser realmente, uma pessoa muito valente e brava. Quem iria se atrever a capar uma Onça? Ninguém. Com exceção do Dr. Josias Fiqueiredo! Se ele fez isso não sabemos, mas o apelido vingou. 

Eu somente ouvia a Dona Maria      chamá-lo pelo apelido. Meu Deus!

Ele gostava de conversar comigo e com o meu irmão Rochinha, pois fomos contemporâneos dos seus sobrinhos Adelson e o Aldenor Fiqueiredo, no Igarapé de Manaus.                                   

Sempre tinha razão, não adiantava argumentação, sem chance para o contraditório na mesa de bar. 

Tinha um vozeirão que metia medo. Sempre bebia sozinho no balcão e não era de papear muito com os  outros frequentadores.           

Certa vez, passou por lá um vendedor com um carrinho de mão cheio de melancias.  O Dr. Josias pegava uma por uma e batia com os dedos fechados e ficava ouvindo o som, escolheu uma bem grande e a mais cara.      Falou bem alto para todo mundo ouvir:                                                - Sou nascido e criado no interior, no meio das plantações de melancias, conheço como a palma da minha mão, só na batida sei se está boa ou não, malandragem da capital                         não              me                ganha,              não!

Pagou e foi deixar a bendita melancia em sua residência (ficava quase em frente ao bar)        e voltou para reiniciar os trabalhos.                    

O vendedor “pegou o beco” depois da venda. Minutos depois, veio a empregada e jogou a melancia na calçada, foram pedaços para todos os lados, ficou assustado com aquilo e ela falou bem alto para todo o quarteirão ouvir:                                             

- Doutor Josias, a   patroa   mandou   jogar aqui,  pois     está     melancia    está       podre!

- Puta que o pariu! Foi a primeira vez                 na vida em que errei!    A galera neste dia não liberou, começou a rir da presepada do Dr. Capa Onça.                   

Segundo o Adriano Cruz, ele tinha a cara de mau, valentão e que gostava de discutir de tudo e com todos,   mas   no    fundo    era            uma         pessoa      de       bom          coração.

sábado, 24 de abril de 2021

ZÉ MUNDÃO TIRANDO ONDA COM UM PUMA

Apaixonadíssimo  por  carros,  Zé  perseguia  seu  desejo  de  consumo  –  dirigir  o  conversível  pertencente  a  um  amigo  filhinho  de  papai (pai  rico).  Era  um  puro  sangue  Puma  GTS,  na  cor  vermelho  Ferrari.  O  coitado  babava  quando  via  o  bacana  desfilando  naquela  máquina,  ele  se  imaginava  sentado  naquele banco de couro, dirigindo em companhia de duas gatinhas, passeando pela praia da Ponta Negra. Tudo era apenas  sonho,  pois  o  Zé  não  tinha  dinheiro 

nem  para  colocar  gasosa  suficiente  no  seu  fusquinha,  quanto  mais comprar o carro do amigo que, diga-se de passagem, não estava à venda, visto que o caboclo estava sentado em cima da carne  seca.  Grana  não  era  problema  para  ele,  além  do  mais, mantinha  mais  ciúmes  do  carro  que  de  sua  namorada,  uma  loira gostosa e cheia de dengo. Zé  nem  olhava  para  a  boazuda,  o  negócio  dele  era  o 

Puma.  Era  um  martírio,  pois,  nem  sequer  era  convidado  para dar  uma  volta  pela  cidade,  emprestar,  nem  pensar,  ele  não emprestava  nem  para  o  pai  dele,  imagine  para  o  coitado  do Zé. Num belo dia, a louraça botou um par de chifres no amigo, depois  que  ela  conheceu  um  marmanjo,  dono  de  um  Opala Comorodo  completo,  com  ar,  direção,  vidros  verdes  e  capota  de  vinil.  Enfim,  tinha  enjoado  de  andar  de  Puma,  pode-se  dizer que ela era tremenda Maria gasolina.

O corneado chorava mais que bezerro desmamado, razão pela qual Zé passou uns tempos consolando o amigo, com terceira  intenção,  claro.  Pois  não  estava  nem  aí  para  a  desilusão amorosa, o negócio dele era um dia ainda dirigir o Puma.

Depois de uns tempos, seu amigo esqueceu a loira, mandou  serrar  os  galhos  e  começou  dar  em  cima  da  Rosinha,  prima  do  Zé  Mundão.  Uma  morena  cor  de  jambo,  peituda,  com  pernão  e  bundão  arrebitado,  uma  gata  e  tanto,  dizia-se,  tipo violão. O primo já tinha dado uns amasso nela, pois para ele, prima não é parente nem aderente.

Zé  passou  a  intermediar  o  namoro,  antes,  foi  logo  detonando:  –  Olha  aqui,  gente  boa,  o  negócio  é  o  seguinte:  passo a  conversa  na  minha  prima,  entrego-a  de  bandeja  para  você,  mas,  em  contrapartida,  você  vai  ter  que  me  emprestar  uma vez e outra o Puma!

O amigo deu um pulo e retrucou: – Nem pensar, não empresto meu Puma prá ninguém, tô fora, papai!

Mas o Zé era um cara paciente, tanto que esperou a volta do  anzol.  Seu  amigo  fez  várias  investidas  pra  cima  da  prima,  jogou todo seu charme, convido-a para umas voltas no Puma, tomar  sorvetes  no  Pinguim,  assistir  a  um  filme  no  Studio Center,  almoçar  no  restaurante  Chapéu  de  Palha,  jantar  no  Canto  da  Peixada e,  nada!  Mal  ele  sabia  que  o  Zé  já  tinha  armado  todo  o  circo  com  a  parenta,  pedindo  na  maior  para  ela ignorar  o  cara,  ser  durona,  não  dar  moleza.  A  estratégia  era deixar o marmanjo secar todos os argumentos possíveis e cair novamente nas mãos do primo Zé.

Ele não era chegado a fazer ameaças, mas, por via das dúvidas,  foi  logo  dando  o  recado:  –  Priminha  do  coração,  segue direitinho  como  eu  mandei,  sabe  como  é... Se  você  mijar  prá trás, eu conto pra titia todas as ondas que você anda aprontando!

Funcionou,  o  bacana  veio  todo  de  mansinho  falar  com o Zé Mundão: – Meu amigo, a tua prima é dura na queda, vou precisar da tua mãozinha, concordo em te emprestar uma vez por ano meu Puma!

Mas  o  Zé  ficou  fulo  da  vida,  e  logo  vomitou:  –  Uma  vez por ano, tá ficando doido, quero emprestado todo final de semana! O bacana foi à loucura: – Pirou de vez, ficou pinel?

Aí o Zé mandou a bala fatal: – É pegar ou largar, o Puma emprestado toda semana, com o tanque até o toco de gasosa, de  minha  parte,  a  prima  no  seu  colo,  pra  você  deitar  e  rolar.  Vai?

Sem chance para o filhinho de papai.

Aí foi graça para o Zé Mundão! O carro, emprestado num sábado à noite, deveria ser devolvido no domingo de manhã, limpo,  lavado  e  sem  nenhum  arranhão.  Promessa  feita,  não  cumprida!  Tão  logo  pegou  na  máquina,  Zé  ligou  o  toca-fitas  Roadstar cabeça branca, colocou no volume máximo uma música  dos  Beatles  e  saiu  todo  boçal  pelas  ruas  de  Manaus.  Deu  um  pulo  no  bar  do  Gordo,  onde  olhavam  para  o  Zé  e  para  o Puma,  ele  na  maior  cara  de  pau.  Então,  falou  alto  e  em  bom  tom: – Esse é meu e está pago, somente saio nos finais de semana, macho carona não entra nele, nem pagando!

Tomou  duas  doses  de  Montilla  com  gelo,  limão  e  koka, sua  bebida  preferida.  Deu  um  rolê  pela  avenida  Getúlio  Vargas,  estacionou  o  carro  em  frente  ao  Cheik  Club,  sentou  no  capô,  estava  mais  alegre  do  que  pinto  na  beira  da  cerca,  não  precisava  paquerar,  as  gatas  se  ofereciam  para  passear  com  o Zé, ele escolheu duas a dedo, rodou por todos os points de Manaus, ele queria mesmo era aparecer.

Escolhidas  as  minas,  saiu  para  pegar  um  vento  na  testa,  pegou a estrada do Tarumã e parou num balneário, conhecido por Cachoeira  das  almas.  O  local,  de  difícil  acesso,  tinha  lama  até o talo, por isso, o Puma começou a ficar sujo, mas o motorista  não  estava  nem  aí,  queria  mesmo  era  levar  as  gatinhas para  tomar  banho  num  igarapé  de  águas  cristalinas.  Lá,  as  beldades ficaram somente de calcinha e sutiã, e o Zé, na maior onda com elas.

Nova  etapa  da  esbórnia,  uma  volta  pela  praia  da  Ponta  Negra; nessa altura do campeonato, o carro já estava todo enlameado,  molhado  e  repleto  de  areia  e  barro.  Numa  encruzilhada próxima, havia um pessoal fazendo um despacho de macumba, uma das beldades pediu uma parada do carro. Então, ela foi até onde acontecia o ritual, e aí o bicho pegou para o Zé

Mundão, pois a garota começou a pegar santo, tendo se enrolado pelo chão, mudado a voz, enfim, ficado toda ralada.

Um  adepto  veio  até  o  Zé  para  reclamar  da  intrusa:  –  Boa noite,  o  senhor,  por  favor,  leve  sua  amiga  de  volta,  ela  está  atrapalhando  nosso  serviço,  pois  a  linha  dela  não  é  igual  a nossa.  O  Zé,  sempre  gaiato,  retrucou:  –  Deixa  comigo,  fui!  Ao  entrar, a gata sujou de sangue o banco do carro.

Rumou,  então,  para  a  prainha  da  Ponta  Negra,  um  dos points dos jovens. Após um banho na beldade que estava suja e  ralada,  deixou-a  em  standbay,  enquanto  a  outra  foi  para  o  abate.

O dia já estava amanhecendo, quando Zé resolveu ainda dar  um  pulo  na  cachoeira  do  Tarumã.  Ainda  madrugada,  tomaram  banho  pelados  até  o  sol  raiar.    Ao  sair,  contudo,  o  Zé  engatou a ré no carro e bateu levemente num tronco de madeira.  Retornando,  tomaram  café  regional  no  Café  da  Loura,  em  seguida, Zé deixou as gatas em casa delas e foi dormir, afinal, ninguém é de ferro Meio dia de domingo, e o herói foi acordado à força. Era seu  amigo:  –  Zé,  filho  da  baraga,  tu  nunca  mais  vai  pegar  no meu carro, ele tá todo sujo de lama, barro e sangue e tá amassado na traseira!

O  cara  ainda  dormindo,  falou:  –  Mil  desculpas,  parceiro, deixa que eu vou dar um banho nele, passo até esmeril e cera no  bicho,  vai  ficar  novinho  em  folha,  na  segunda,  mando  desamassar a belezura! Tudo bem?

O  amigo,  todavia,  estava  possesso:  –  Negativo,  vou  levar  agorinha  o  meu  Puma.  Outra  coisa,  aquela  tua  prima  é  a maior fuleiragem, tô fora!

Dessa forma, acabou o sonho de consumo do Zé Mundão, nunca  mais  teve  a  oportunidade  de  dirigir  aquele  carro,  carro  que  fez  história  no  Brasil,  criado  no  início  da  década  de  60 por  um  grupo  de  aficionados  pelo  automobilismo,  liderado pelo  Rino  Malzoni.  Tratava-se de  um  cupê  esportivo  de  vidro,  lembrando  muito  a  Ferrari  250  GTO  da  época,  daí  o  Puminha ser desejado, pois tinha um desenho espetacular, com beleza, agressividade e aerodinâmica, além de ótima dirigibilidade.


segunda-feira, 19 de abril de 2021

SOU MANAUARA

Foto: Praça de São Sebastião, Manaus, Amazonas, Brasil. José Rocha
 Sempre houve uma confusão, uns chamam de manauara, outros, de manauense. Tanto faz, como tanto fez. Os dois termos estão corretos. A diferença está na escolha do sufixo gentílico. –ense é herança portuguesa,     o –ara é tupi (wara = o que veio de).

Os meus antepassados maternos nasceram dentro da mata, no interior           do Amazonas, corre nas minhas veias sangue indígena sim senhor.

Os meus antepassados paternos eram nordestinos que vieram para a Amazônia, no Alto Juruá em busca do látex, sou também um cabra da peste.

A minha mãe era cabocla vinda de Terra Nova e o meu pai um arigó de Uruburetama, por aqui os dois viveram, trabalharam, casaram, tiveram filhos e foram enterrados.                                                   

Nasci em Manaus, no Hospital de Santa Casa de Misericórdia. Todos os meus irmãos são manauaras e nasceram lá também.                       

Fui batizado, comungado, crismado e casado na Igreja de São Sebastião, e quando morrer, nela talvez no sétimo dia seja lembrado.

Sou católico e vou à missa, mas não sei rezar, somente o Pai Nosso e olhe lá.                                     

Morei com a minha família dentro do Igarapé de Manaus, fomos ribeirinhos e acompanhávamos a seca e a enchente do Rio Negro.                           

Ainda consegui alcançar uma Manaus linda e pacata, quando começava no Porto e no Boulevard Amazonas terminava.

Tomava banho de rio. andava de canoa, pulava dentro do igarapé na Primeira Ponte.

Frequentava os cines Guarany, Politheama, Avenida e o Odeon. Adorava o Carnaval da Eduardo Ribeiro.                                 

Passeava no Ródo (Roadway), Mercadão Adolpho Lisboa e no Aviaquário   e assistia ao Festival Folclórico do General Osório.       

Alcancei os banhos no V8, Parque Dez, Tarumã,                   Tarumanzinho, Ponte da Bolívia e Ponta Negra.                                         

Curti o arrocho na Festa do Acocho. Frequentava os bailes do Luso Clube, Sheik Clube, Bancrévea Clube e da União Esportiva Portuguesa.

Passava a régua nas primas nos lupanares Maria das Patas/Saramandaia e lá pelas bandas da Prainha somente detonava as  gatinhas.

Assistia com muito entusiasmo e vibração, o meu Fast Clube jogar contra o Rio Negro ou Nacional no Parque Amazonense, Colina e no Vivaldão.

Gostava também de assistir o ano inteiro, grandes partidas de Voleibol no Ginásio Renné Monteiro.                                

Estudei, inicialmente, no Barão, depois, o fundamental no Benjamin  e no Sólon de Lucena a conclusão.     

Casei com uma cabocla na Igreja de São Sebastião, depois de muita bronca acabou a união. 

Os meus irmãos casaram, tiveram filhos manauaras e tempo depois também descasaram.

Tenho três filhos manauaras que me deram três netos manauaras também. Sou da Universidade do Amazonas com muita satisfação, formado em ciência da Administração.

Estudei também alguns períodos de Direito, não concluir o curso foi o meu grande erro e defeito.

Sempre gostei de suco de Taperebá e Açaí com tapioca, melhor não há.

Nunca dispensei um Jaraqui, muito menos uma Caldeirada de Tambaqui.

Gosto de degustar um Tacacá e detonar uma Tapioca com Banana Frita e Castanha do Pará.

Para completar, gosto de roer um Tucumã com farinha e tomar um suco de Cupuaçu para não entalar.

Não dou bobeira para um Pé de Moleque e de um Bolo de Macaxeira.

Sou boêmio, sou da tradição, gosto do Morro, mas sou de São Sebastião.

Curto o nosso ritmo amazonense, a toada e o ritmo quente parintinense.

Frequento regularmente, o Armando, Caldeira e o ETbar, os botecos tradicionais da nossa Manaus de antigamente.

Passeio pelo Largo de São Sebastião, Praça da Polícia, Praça da Saudade, Praça do Congresso, Mercado Municipal e o Porto de Manaus.

Faço caminhadas pela minha cidade toda semana.

Gosto ainda da Praia da Ponta Negro, Praia da Lua e Tupé.

Vou aos grandes Shoppings e ao Bate Palma também.

Gosto das Feiras e Mercados, onde compro peixes e como Pastel com Caldo de Cana.              

Sou blogueiro que escreve sobre a cidade de Manaus o ano inteiro.            

Escrevo livros sobre a sua gente e sua história e a minha também.

Pretendo ainda conhecer toda a extensão do Rio Negro, deste São Gabriel da Cachoeira, passar pelo Encontro das Águas e entrar no Rio Amazonas até a sua foz no Oceano Atlântico.                          

Apesar de ter nascido na Manaus de Antigamente, ainda tenho muito gás para casar com uma Cabocla novamente.

Não sou mais reprodutor, pois sendo vasectomizado, a fonte secou.

Falo o Amazonês e também gírias do Carioquês.

Sou Manauara da Taba e o meu herói é o índio Ajuricaba.                 

Não sou Manauense, mas, sim, um Manauara Amazonense.

Sou Manauara, com muito orgulho, com muito amor.                                       

Se for a vontade de Deus, hei de morrer aqui em Manaus e ser  enterrado ou cremado tanto faz como tanto fez.      

É isso ai.