sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A PRIMEIRA RUA GASTRONÔMICA DE MANAUS

 




Fiquei feliz ao ler a notícia de que a Prefeitura de Manaus assinou a Ordem de Serviço que transforma oficialmente a Rua Ferreira Pena, no Centro Histórico, na primeira Rua Gastronômica de Manaus.

A iniciativa contempla o trecho entre as ruas 10 de Julho e Ramos Ferreira e representa muito mais do que uma obra de urbanização. É, sobretudo, uma oportunidade de devolver vida a uma parte da cidade que guarda, atrás de suas fachadas antigas, histórias que o tempo insiste em apagar.

A proposta prevê a recuperação econômica da região por meio da ocupação dos imóveis históricos por bares, restaurantes e empreendimentos ligados ao turismo e à economia criativa. Ao todo, 26 edificações estão inseridas diretamente no perímetro da intervenção.

A rua deverá ganhar novos ares: as redes de energia e telecomunicações serão enterradas, eliminando a antiga teia de fios que atravessa o céu do Centro; haverá iluminação cênica em LED, suspensa como um grande varal luminoso; novos postes, floreiras, bancos, lixeiras e balizadores. A pista receberá blocos de concreto intertravados e as calçadas serão revestidas com pedra natural antiderrapante, garantindo também acessibilidade.

Tudo isso é importante. Mas, para mim, existe algo ainda mais importante: a memória que vive nesses casarões. E é justamente por isso que a notícia da nova Rua Gastronômica me fez lembrar de um casarão situado na esquina das ruas Ferreira Pena e Monsenhor Coutinho.

Há anos, ele permanece abandonado. Poucos talvez saibam que aquela casa foi morada de uma mulher que poderia perfeitamente ser lembrada como uma das primeiras grandes referências da gastronomia amazonense: Charufe Nasser.

Empresária, cozinheira e escritora, Charufe marcou a vida gastronômica de Manaus durante décadas. Seus restaurantes fizeram história nas décadas de 1980, 1990 e 2000, reunindo sabores da culinária árabe e da cozinha regional amazônica. Entre suas especialidades estava a famosa tartaruga guisada, prato que pertence a uma época em que comer em Manaus também significava conhecer um pouco da identidade de quem preparava a comida.

Os restaurantes de Charufe já não existem. E ela também partiu, em novembro de 2025. Mas algumas pessoas não desaparecem completamente. Ficam nas histórias. Ficam nas fotografias. Ficam nas receitas. Ficam nas lembranças de quem sentou à mesa. E, algumas vezes, ficam até nas paredes de uma casa.

Foi justamente por causa daquele casarão que escrevi O Tesouro Escondido no Casarão Vernier, obra que nasceu da minha vontade de preservar uma história que poderia simplesmente desaparecer junto com o imóvel.

Participei com o projeto de um Edital de Literatura da Prefeitura de Manaus. Não fui contemplado, mas recebi de um dos pareceristas uma avaliação que guardo com carinho: “Projeto bem estruturado, com narrativa clara, metas quantitativas definidas e forte conexão com o patrimônio histórico de Manaus.”

Talvez o livro não tenha sido escolhido naquela ocasião. Mas a história continuou esperando. E agora, diante da criação da primeira Rua Gastronômica de Manaus, acredito que ela merece ser novamente contada.

UM CASARÃO CHEIO DE VIDA

O Casarão Vernier passou por diferentes proprietários até chegar às mãos de um próspero comerciante libanês da família Al Nasser. Uma de suas filhas, conhecida como “Sultana do Seringal”, por ter nascido no Seringal Príncipe, às margens do rio Juruá, mais tarde registrou suas memórias. E que memórias! Ao falar de sua juventude em Manaus, ela não descreveu simplesmente uma casa. Descreveu um mundo.

O casarão possuía móveis, objetos, lustres de cristal, abajures, penteadeiras com espelhos franceses e guarda-roupas de madeiras nobres. No andar superior, o piso de tábuas corridas alternava peças claras e escuras, lembrando o piso do Teatro Amazonas e do Ideal Clube.

No térreo, havia um jardim coberto por um caramanchão de ferro tomado por buganvílias. No centro, um chafariz com luzes coloridas. Ao lado, um enorme pinguim de gesso. Era uma casa para ser vivida. E foi. Ali se reuniam jovens para dançar, conversar, fazer projetos culturais e ensaiar. O casarão conheceu o Twist, o Rock and Roll, o Hully Gully, o Cha-Cha-Cha e o Tango.

Mas conheceu também algo que hoje parece pertencer a outro tempo: as serenatas. Músicos amigos chegavam com seus instrumentos. Cantavam para a lua, para as estrelas, para o amor e para a saudade. Havia tertúlias, conversas sobre literatura, arte, política e filosofia. Havia encontros que atravessavam a noite.

E havia comida. Muita comida. Tambaqui, pirarucu, carnes, sobremesas, sucos de frutas regionais e tantas outras iguarias faziam parte daqueles encontros. À meia-noite, quando a maioria das casas já estava silenciosa, o casarão continuava acordado. Servia-se um lanche com coalhada, ovos fritos, sardinhas portuguesas, azeitonas gregas e pão quente, recém-saído do forno da Padaria do Sujo, que ficava ao lado do Rio Negro Clube.

Enquanto isso, no pátio e no jardim, os jovens conversavam, cantavam e ouviam música. Um piano. Violões. Cavaquinhos. Atabaques. E, entre uma música e outra, provavelmente alguém contava uma história.

Talvez seja isso que mais me emocione quando penso naquele casarão. Ele não era apenas uma construção. Era um lugar onde a vida acontecia.

E AGORA, UMA RUA GASTRONÔMICA

É por isso que considero tão simbólica a escolha da Rua Ferreira Pena para receber a primeira Rua Gastronômica de Manaus. A gastronomia pode trazer novamente pessoas para o Centro. Pode ocupar os casarões. Pode gerar empregos. Pode movimentar o turismo. Pode transformar imóveis abandonados em lugares de encontro.

Mas existe uma condição para que tudo isso faça realmente sentido: não podemos devolver vida aos prédios e matar a memória de quem viveu dentro deles.

Uma rua gastronômica não deveria oferecer apenas pratos. Deveria oferecer histórias. Deveria permitir que alguém pudesse sentar-se à mesa, experimentar um tambaqui ou um prato de inspiração árabe e, ao mesmo tempo, descobrir que naquele mesmo endereço, décadas atrás, uma família reunia amigos, jovens dançavam, músicos tocavam serenatas e uma mulher chamada Charufe Nasser ajudava a construir a história gastronômica de Manaus.

Por isso, penso que, se estivesse entre nós, Charufe Nasser deveria ser uma das primeiras pessoas homenageadas pela nova Rua Gastronômica de Manaus.

Ela não foi apenas uma chef. Foi empresária. Foi escritora. Foi guardiã de sabores. E, acima de tudo, foi uma mulher que viveu a gastronomia como parte da própria cultura de Manaus. Talvez um dia uma placa possa lembrar seu nome naquele casarão. Talvez uma fotografia. Talvez uma pequena exposição. Talvez um restaurante. Talvez apenas uma mesa. Porque algumas homenagens não precisam ser grandiosas. Precisam apenas ser sinceras.

E eu gostaria que, quando a nova Rua Gastronômica estiver pronta e as pessoas caminharem por suas calçadas iluminadas, entre restaurantes, mesas e aromas, alguém pudesse perguntar: “Quem viveu aqui?”

E a cidade pudesse responder: “Aqui viveu Charufe Nasser. E antes que esta rua se tornasse gastronômica, ela já fazia parte da história da gastronomia de Manaus.”

É por isso que escrevi O Tesouro Escondido no Casarão Vernier. Porque acredito que Manaus possui muitos tesouros escondidos. Alguns estão enterrados sob o chão. Outros estão atrás de portas fechadas. E existem aqueles que permanecem vivos apenas na memória de quem se dispõe a procurá-los.

Meu livro é uma dessas buscas. Uma viagem a um casarão, a uma família, a uma época e a uma Manaus que já não existe, mas que ainda pode ser reencontrada nas páginas de uma história.

O livro ainda não foi publicado em edição física, mas disponibilizo a obra em PDF pelo valor de R$ 30,00. Quem desejar conhecer essa história pode solicitar o livro pelo WhatsApp: (92) 99153-7448

Talvez, depois de lê-lo, você nunca mais passe pela esquina da Ferreira Pena com a Monsenhor Coutinho da mesma maneira.

Porque uma cidade muda quando suas ruas são reformadas. Mas ela só renasce de verdade quando aprende a lembrar.