Há lugares em Manaus que parecem adormecer no tempo, esperando apenas que alguém lhes desperte a memória. O Anfiteatro do Parque Dez é um desses cantos guardados na sombra da história — e foi justamente numa dessas minhas andanças curiosas pelo passado que reencontrei esse velho conhecido.
Tudo começou lá atrás, quando o prefeito Paulo Pinto Nery decidiu, em 1970,
inaugurar um anfiteatro no coração do Parque
Dez de Novembro. Instalado no então Balneário do P10, existente desde 1938 e banhado pelo silencioso Igarapé do Mindu, o espaço nasceu com
um objetivo nobre: educar e divertir a população manauara. Era um tempo
em que cultura e lazer caminhavam lado a lado com a vida simples dos bairros.
Os anfiteatros, como se sabe, são arenas ovais a
céu aberto, cheias de degraus onde o povo se acomoda para ver e ser visto. O
nome vem do grego amphitheatron, “visão de ambos os lados”. Herdamos dos
romanos esse formato clássico — eles, por sua vez, adaptaram dos gregos para
assistir a combates de gladiadores e feras selvagens, sendo o mais célebre de
todos o imponente Coliseu.
O nosso, bem mais modesto, foi inaugurado com pompa
em 1970 e logo recebeu eventos importantes. Consta nos jornais da época que, em
1971, o elenco da novela Irmãos Coragem,
sucesso absoluto na televisão, se apresentou ali — imaginem a movimentação no
P10!
Ao longo dos anos, o Anfiteatro do Parque Dez
serviu para tudo um pouco: Eentregas de certificados do MOBRAL/Apresentações de Grupos
Folclóricos das Escolas Municipais/O famoso Arraial Roça Feliz/Ffestas das Crianças/ Shows de artistas e
grupos locais como Paulo Onça, Célio Cruz, Suzy, Raízes Caboclas,
Carrapicho, Programa Brincando no Parque, Grupo Mar Azul e até a Escola de Samba Barelândia.
Eu mesmo tive o privilégio de assistir ali a uma
banda de jazz norte-americana. Não lembro o ano, mas a memória da música
ecoando naquele espaço aberto nunca saiu da minha mente. Até a década de 1990
ainda havia notícias de apresentações no local — depois de 1993, silêncio.
Pergunte hoje a qualquer manauara sobre o Anfiteatro do P10 e muitos nem
saberão que ele um dia existiu.
Mas eis que, movido pela curiosidade, decidi
revisitar o passado. Abri o Google Maps e, ao dar um zoom naquele pedaço do
Parque Dez, lá estava ele: o Anfiteatro
do P10, firme, altivo, resistente. Agora dentro do Hub de Tecnologia, o Centro de
Pesquisas da Universidade Estadual do
Amazonas (UEA). Resolvi então ir pessoalmente conferir.
Era ponto facultativo, mas os seguranças, muito
gentis, permitiram que eu entrasse e fotografasse. O que encontrei me
surpreendeu: apesar do abandono, sem qualquer uso, depois de mais de meio
século levando sol e chuva, a estrutura permanece em perfeitas condições. Quase
como se estivesse esperando por nós.
E é aí que entra uma fagulha de esperança. A
Prefeitura de Manaus possui um projeto para revitalizar toda a área do Igarapé
do Mindu, desde onde existia o antigo Balneário do Parque Dez até a Avenida Djalma Batista. Pois bem: esta
crônica seguirá para o novo prefeito, com um pedido claro — que o Anfiteatro do Parque Dez seja incluído
nesse plano e devolvido ao seu verdadeiro dono: o povo manauara.
Porque um espaço construído em 1970 para educar e
divertir a população não merece permanecer em silêncio. Que volte a cumprir sua
missão.
Fotos:
- Antiga
(colorizada por IA) — Inauguração do Anfiteatro. Instituto Durango Duarte.
- Foto
aérea modificada — Google Maps.
- Foto — Arquivo pessoal, José Rocha.


