quinta-feira, 2 de abril de 2026

O Antiteatro do Parque Dez

 

Há lugares em Manaus que parecem adormecer no tempo, esperando apenas que alguém lhes desperte a memória. O Anfiteatro do Parque Dez é um desses cantos guardados na sombra da história — e foi justamente numa dessas minhas andanças curiosas pelo passado que reencontrei esse velho conhecido.

Tudo começou lá atrás, quando o prefeito Paulo Pinto Nery decidiu, em 1970, inaugurar um anfiteatro no coração do Parque Dez de Novembro. Instalado no então Balneário do P10, existente desde 1938 e banhado pelo silencioso Igarapé do Mindu, o espaço nasceu com um objetivo nobre: educar e divertir a população manauara. Era um tempo em que cultura e lazer caminhavam lado a lado com a vida simples dos bairros.

Os anfiteatros, como se sabe, são arenas ovais a céu aberto, cheias de degraus onde o povo se acomoda para ver e ser visto. O nome vem do grego amphitheatron, “visão de ambos os lados”. Herdamos dos romanos esse formato clássico — eles, por sua vez, adaptaram dos gregos para assistir a combates de gladiadores e feras selvagens, sendo o mais célebre de todos o imponente Coliseu.

O nosso, bem mais modesto, foi inaugurado com pompa em 1970 e logo recebeu eventos importantes. Consta nos jornais da época que, em 1971, o elenco da novela Irmãos Coragem, sucesso absoluto na televisão, se apresentou ali — imaginem a movimentação no P10!

Ao longo dos anos, o Anfiteatro do Parque Dez serviu para tudo um pouco: Eentregas de certificados do MOBRAL/Apresentações de Grupos Folclóricos das Escolas Municipais/O famoso Arraial Roça Feliz/Ffestas das Crianças/ Shows de artistas e grupos locais como Paulo Onça, Célio Cruz, Suzy, Raízes Caboclas, Carrapicho, Programa Brincando no Parque, Grupo Mar Azul e até a Escola de Samba Barelândia.

Eu mesmo tive o privilégio de assistir ali a uma banda de jazz norte-americana. Não lembro o ano, mas a memória da música ecoando naquele espaço aberto nunca saiu da minha mente. Até a década de 1990 ainda havia notícias de apresentações no local — depois de 1993, silêncio. Pergunte hoje a qualquer manauara sobre o Anfiteatro do P10 e muitos nem saberão que ele um dia existiu.


Mas eis que, movido pela curiosidade, decidi revisitar o passado. Abri o Google Maps e, ao dar um zoom naquele pedaço do Parque Dez, lá estava ele: o Anfiteatro do P10, firme, altivo, resistente. Agora dentro do Hub de Tecnologia, o Centro de Pesquisas da Universidade Estadual do Amazonas (UEA). Resolvi então ir pessoalmente conferir.

Era ponto facultativo, mas os seguranças, muito gentis, permitiram que eu entrasse e fotografasse. O que encontrei me surpreendeu: apesar do abandono, sem qualquer uso, depois de mais de meio século levando sol e chuva, a estrutura permanece em perfeitas condições. Quase como se estivesse esperando por nós.

E é aí que entra uma fagulha de esperança. A Prefeitura de Manaus possui um projeto para revitalizar toda a área do Igarapé do Mindu, desde onde existia o antigo Balneário do Parque Dez até a Avenida Djalma Batista. Pois bem: esta crônica seguirá para o novo prefeito, com um pedido claro — que o Anfiteatro do Parque Dez seja incluído nesse plano e devolvido ao seu verdadeiro dono: o povo manauara.

Porque um espaço construído em 1970 para educar e divertir a população não merece permanecer em silêncio. Que volte a cumprir sua missão.

Fotos:

  1. Antiga (colorizada por IA) — Inauguração do Anfiteatro. Instituto Durango Duarte.
  2. Foto aérea modificada — Google Maps.
  3. Foto — Arquivo pessoal, José Rocha.