segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A BOLACHA DE MOTOR


Os amazônidas utilizam os barcos regionais para percorrerem os rios, viajando para lugares que levam até uma dezena de dias para chegarem ao seu destino, geralmente, o rancho acaba durante a viagem, sobrando apenas a salvadora da pátria, a famoso bolacha de água de sal, conhecida carionhosamente pelos ribeirinhos como “bolacha de motor”.


Para quem não sabe, o motor é um nome dado pelos nossos caboclos, para designar um barco regional, fabricado, em sua grande maioria, de madeira de lei, servindo para o transporte de cargas, passageiros e para o ecoturismo.

A bolacha é um alimento que não pode faltar no café da manhã das embarcações que singram os rios da Amazônia – a nossa bolacha de motor é bastante dura (capaz de quebrar até uma dentadura), mas, possui um saber inigualável e, por ser bastante rústica, a sua durabilidade é muito grande, além de ser muito barata, além de encher o bucho numa boa.


A única fábrica que produz este tipo de bolacha, em Manaus, é a Fábrica Modelo, um estabelecimento com quase cem anos, situado na Avenida Joaquim Nabuco, esquina com a Rua José Paranaguá, inclusive, algumas embalagens já vem com a inscrição “Bolacha de Motor”, em decorrência da tradição e pelo carinho que os amazonenses têm por ela.


Conheço um caboclo que morava em Tabatinga (fronteira com o Peru e a Colômbia), veio para Manaus para trabalhar no Distrito Industrial – depois de um ano na batalha, tirou férias e, resolveu visitar os parentes na sua cidade natal – foram dez dias dentro de um barco regional (ida e volta). Na volta, por ser mais longa, certo dia, acabou parte do rancho, não tinha mais em quantidade o leite, o café, o açúcar e a manteiga margarina, restando somente a bolacha de motor, foi quem salvou a broca da cabocada.


Na semana passada resolvi matar a saudade dessa bolacha, pois na minha infância ela não podia faltar em casa - fui até a Padaria Modelo, comprei dois pacotes e, passei uma semana comendo pela manhã e à noite – lembrei das minhas viagens de barcos pelo interior e, saboreei até a última “bolacha de motor”. É isso ai.  
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