quarta-feira, 6 de abril de 2016

A CIDADE DE MANAUS, O COMPORTAMENTO DAS PESSOAS E DAS FAMÍLIAS NA DÉCADA DE QUARENTA.


Ao ler o livro “Evocação de Manaus - Como eu a vi ou Sonhei”, do saudoso manauara Jefferson Peres, foi quando pude ter uma ideia como era a cidade, como se comportavam as pessoas e as famílias na década de 40 em nossa cidade (que vinha de trinta anos de estagnação e estava sofrendo com a 2ª. Guerra Mundial) – eram formais, conservadores, machistas, respeitadores, católicos e amavam a sua cidade. 

A cidade possuía cerca de cem mil habitantes, onde a classe média morava no centro, formada por oficiais das armas, médicos, advogados, comerciantes e políticos – eles moravam em casa de no máximo dois pavimentos, casarões e palacetes, enquanto os menos favorecidos, a grande massa de trabalhadores morava em vilas e estâncias, em casas de zinco e telhas;tendo apenas três bairros, Educandos, Cachoeirinha e São Raimundo; com o bonde, a única forma de transporte público, indo até a bifurcação da atual Rua Recife e Constantino Nery (área rural, onde existiam as chácaras e igarapés); contando com pouquíssimos automóveis circulando.

Praticamente todos se conheciam, pelo menos de vista, por cruzarem-se diariamente, pois apesar dos bondes e dos reduzidos carros e das catraias (para travessia dos igarapés), a grande maioria gostava mesmo era de andar a pé.

Existiam poucos choferes de carros de aluguel - eles pertenciam a Garagem Avenida e Esportiva (ambas na Avenida Eduardo Ribeiro) - estacionavam no centro os seus automóveis da marca Packard, Studebaken e Cadilac, não existia taxímetro e a corrida era cobrada em comum acordo – cada família tinha o seu motorista preferido, o qual era contratado para passear, visitar amigos distantes, fazer piqueniques, participar de casamentos, batizados e enterros.

Existiam pequenos furtos (subtração do alheio sem uso de violência) e as pessoas já evitavam dormir com as janelas abertas – quando acontecia um crime mais violento, tipo homicídio, a repercussão era em toda a cidade, a comoção era geral e duravam semanas de matéria nos jornais.

Existia policiamento durante o dia pelos guardas-civis e, pela parte da noite, por duplas de soldados a cavalos e pelos guardas-noturnos que cobriam quarteirões, apitando o tempo todo, transmitindo segurança a todos – praticamente não existia violência urbana, apenas casos pontuais de brigas entre bêbados e desordeiros.

Quando alguém adoecia, os parentes e amigos faziam visitas, levando solidariedade e carinho ao enfermo – no caso de morte, a viúva e familiares vestiam-se de preto e ficavam até seis meses de luto, depois, mais seis meses de luto brando, com roupas de preto e branco e braçadeira preta ou fita na lapela/bolso da camisa – e não participavam de nenhum evento social na cidade.

Por estar em plena Segunda Guerra Mundial, com os navios mercantes brasileiros sendo atacados pelos submarinos alemães, existia um grande desabastecimento na cidade – ninguém se incomodava de dar a um vizinho um pouquinho de açúcar, café, óleo, etc. – aliás, isso foi um hábito que durou por muito tempo.

A cidade respirava a guerra, com despedias e choros para aqueles que partiam para o front na Itália – com o afundamento do navio Baependi (nome dado a uma vila que fica na Rua 24 de Maio – antes se chamava Vila Itália) morreram vários manauaras ilustres, ocasionado revolta na cidade, como uma quebradeira geral do Consulado da Alemanha, de residências e lojas de italianos, espanhóis e de partidários do eixo – na cidade não morava japoneses, porém, os residentes na Vila Amazônia (Parintins, Baixo Amazonas) foram expulsos de suas terras (o que lamentamos até hoje).

Com a reabertura dos seringais e a chegados dos “soldados da borracha”, a cidade foi invadida, novamente, pelos nordestinos “arigós” (aves de arribação) e também por muitos norte-americanos que trabalhavam na empresa que transportava borracha em hidroaviões (Ilha de Monte Cristo) – o aeroporto de Ponta Pelada foi construído em tempo recorde pelos americanos.

Os homens usavam paletó e gravata o tempo todo, com os chapéus panamá já caindo de moda – as mulheres não usavam calça comprida, era coisa de homem –nos vestidos e saias até abaixo dos joelhos, com meias para não mostrarem as pernas – utilizam também anáguas e combinações para não aparecerem a calcinha e o sutiã.

Manaus era entrecortada por igarapés, onde a população gostava de fazer piqueniques e tomar banho de rio, com as mulheres usando maiôs inteiros e os homens bermudas longas – quando o evento era promovido pelos colégios de freiras, as mulheres tomavam banho de vestido!

A Semana Santa era respeitada por todos, com poucas atividades no comércio (muitas lojas ficavam fechadas durante a semana) e na Sexta-Feira um multidão iam à procissão, com muitos carregando cruz ou uma pedra na cabeça – nem as “mulheres do sexo” faziam encontros nessa semana – as rádios somente tocavam musicas sacras e os cinemas passavam direto “A Paixão de Cristo”.

Não se ouvia falar em lésbicas na cidade, era muito raro – alguns homens tentavam esconder ao máximo que eram gays (também conhecidos como enrustidos), quando assumiam a sua homossexualidade, eram marginalizados, apanhavam dos machos e era uma vergonha para a sua família, alguns deles tinham que deixar a cidade, geralmente partia, em definitivo, para no Rio de Janeiro.

As mulheres não chamavam palavrões em hipótese alguma e não bebiam em público – os homens falavam baixinho entre amigos e jamais próximos a família – eles também não fumavam diante dos pais, mesmo depois de adultos.

O pedido de casamento era um evento marcante, pois todos da casa, os vizinhos e parentes aguardavam com muita expectativa o dia – uma autoridade ou o pai do rapaz era quem fazia o pedido, sem a presença dos noivos – selavam o acordo com uma taça de champanhe e, era muito raro não acontecer o casamento.

A mulher tinha que casar virgem, caso contrário, o homem devolvia ao seu pai – o camarada que casasse com uma desvirginada era apelidada na cidade por “pedreiro” (aquele que tampava buraco).

Caso o homem desvirginasse uma mulher antes do casamento, os pais arrumavam o casamento as pressas e, para não ficar falada na cidade, inventavam que o filho de sete meses nasceu prematuro – quando não era possível casar, a mulher ficava reclusa em casa até nascer o filho ou mudava de cidade.

A mulher tinha que casar aos vinte anos, conhecido como “o primeiro tira na macaca”, depois aos 25 anos (segundo tiro) e, por último, aos trinta anos (o terceiro tiro), após essa idade era muito difícil encontrar um pretendente, ficando no “caritó”, permanecendo titia para o resto da vida.

A mulher estudava até o colegial e o magistério (ensino médio), dificilmente fazia um curso superior, algumas faziam Direito, mas não exerciam a profissão ao casar, pois toda mulher tinha que cuidar da casa, dos numerosos filhos e do marido, sendo sustentada por ele.

A esposa não traia o marido, pelo menos isso não era divulgado (quando existia, era caso até de morte), porém, os maridos pegavam as empregadas domésticas e as barangas, além de terem uma amante (quando tinham dinheiro para sustenta-las) – não havia separação formal, ficavam juntos até a morte, mesmo em camas separadas – em eventos sociais, o marido levava sempre a esposa, jamais a amante.

A família era patriarcal, o pai mandava e decidia tudo, inclusive escolhia até a roupa que a mulher usaria ao sair para um evento social – algumas delas ficavam reclusas em suas casas (pelos maridos enciumados).

Os filhos tomavam benção dos pais, dos tios e avós – rezavam o Pai Nosso e a Ave Maria ao dormir, pois a grande maioria das famílias era católica - utilizava em suas casas um oratório com vários santos e não admitiam protestantes na cidade (havia muita rivalidade e até brigas) – todos iam às missas nas igrejas da Matriz, São Sebastião e Remédios.

Nos finais de tarde as famílias, por ainda não existir a televisão, colocavam cadeiras de embalo em frente de suas casas, para papear com os vizinhos, enquanto a meninada brincava de marmanja, cemitério e outras brincadeiras infantis, podendo permanecer na rua até às onze da noite – todos brincavam juntos (pobres e ricos), sem a existência de preconceitos entre eles, apesar de viverem em uma sociedade preconceituosa.

Os jovens do sexo masculino gostavam de “morcegar” os bondes (entrar e sair em movimento, sem pagar), deixavam vidros nos trilhos para fazer o cerol das linhas de papagaios - muitos deles tinham a iniciação sexual com empregadas domésticas ou com as prostitutas em pensões e no baixo meretrício.

As do sexo feminino eram mais vigiadas, namoravam apenas na sala de estar de sua casa, sob a supervisão de alguém da família – os namorados jamais saiam sozinhos, eram sempre acompanhados dos irmãos mais velhos ou alguém de confiança da família – aquelas moças que fossem pegas sozinhas com o namorado ficavam sendo faladas na cidade.

Amavam a cidade, gostavam de passear de bondes, principalmente nas linhas Saudade e Circular – frequentavam o Roadway (Porto de Manaus) nos finais de semana e sempre iam se despedir dos entes queridos que viajassem – gostavam das praças, sendo a Praça da Saudade a queridinha de todos – frequentavam em peso o Parque Amazonense (para assistir eventos esportivos) e ao Teatro Amazonas (shows e peças teatrais) e cinemas no Cine Guarany– a cidade era pequena, pacata, bonita, limpa, bem arborizada, sem violência urbana e muito boa para se viver.


Quem viveu os anos quarenta pode contar e registrar, foi o caso do nosso saudoso Senador Jefferson Péres. Tempos bons, hein? É isso ai.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

O DESAPARECIMENTO DOS BONDES E O SURGIMENTO DOS PRIMEIROS ÔNIBUS EM MANAUS


Os bondes elétricos prestaram um grande serviço à mobilidade urbana em nossa cidade, porém, com o inicio da Segunda Guerra Mundial, os ingleses que administravam a geração de energia elétrica e os bondes, começaram a ter problemas para atender a contento a população, o que motivou o seu declínio e o surgimento dos primeiros ônibus para suprir essa lacuna.

Com o início da guerra (1939), os ingleses tiveram muitas dificuldades em importar peças de reposição para os bondes e para as subestações de geração de energia elétrica, ocasionando apagões prolongados na cidade e deixando parados alguns bondes, revoltando a população.

Os bondes que sempre foram bem limpos, reluzentes e conservados, porém, na década de quarenta começaram a aparecer com os bancos quebrados e rasgados, sendo abandonados aos poucos pelos ingleses – eles alegavam que estavam tendo prejuízos financeiros, não sendo possível conservá-los e, muito menos, adquirir novos elétricos.

A população começou a se revoltar com essa precariedade, inclusive provocaram o incêndio de um deles.

Diante de tantos problemas nesse sistema de transporte, em 1951, o governo do estado resolveu encampar a companhia inglesa, por iniciativa do governador Álvaro Maia, provocando uma grande indignação por parte deles, vindo diretamente da Inglaterra até Manaus o Mr. Booth, dono da empresa Manaos Tramways, com o intuito de reverter a situação, não sendo aceito os seus argumentos.

O governo do estado não fez os investimentos necessários para a revitalização dos bondes, bem como, demonstrou um péssimo gerenciamento do sistema, sendo obrigado a desativar, em definitivo, a circulação dos bondes em Manaus.
Os bondes ainda serviram por um bom tempo para transporte de cargas para a sub-usina da Cachoeirinha (no final da Sete de Setembro, atual Eletrobras Manaus Energia).

O governador Plinio Coelho (PTB) em campanha política para o governo prometeu a volta dos bondes, no entanto, conseguiu apenas reativar uma linha, em 1957, sendo desativada em seguida.

Lamentamos, profundamente, pela falta de sensibilidade dos governantes em não manterem para as novas gerações de manauaras, pelo menos uma linha regular de bondes elétricos – como escreveu Jefferson Péres “A fim de preservar algo inseparável da memória da cidade” - algumas cidades brasileiras assim o fizeram, constituindo motivo de orgulho e respeito aos seus antepassados, além de servir como fonte de divisas com o turismo – a exemplo dos bondinhos de Santa Tereza, no Rio de Janeiro.

Em 1940, surgiram alguns ônibus de madeira não oficiais (piratas) para suprir, em parte, a deficiência de transporte público dos bondes elétricos – eram apelidados pelos manauaras como “Pirata”, “Perna- de-Pau” e “Periquito da Madame”, uma alusão as marchinhas de carnaval da época.

Esses ônibus foram comprados pelos ingleses, para abafar a concorrência e, posteriormente, deixados ao relento até apodrecerem.

Nesse mesmo ano, os automóveis de luxo começaram a circular em Manaus, eram de chapa brancas (do governo), de aluguel (pertenciam às garagens Avenida e Esportiva) ou de particulares (classe alta) – eram importados dos Estados Unidos, da marca Ford, Chevrolet, Buick, Packard, Studebaken e Cadillac, além dos ingleses Austin e Standard (acessíveis à classe média).

Na primeira fotografia antiga, na esquina das avenidas Eduardo Ribeiro e Sete de Setembro, aparecem um bonde e um ônibus, além de carros estacionados no primeiro plano (possivelmente um Austin e um Studebaker) e vários deles bem meio da avenida (provavelmente são de aluguel da Garagem Avenida).

Depois, surgiram novas empresas de ônibus, pois esse sistema de transporte popular caiu no gosto dos usuários, devido serem mais espaçosos, atendendo linhas onde os bondes não passavam e, não tinham problemas com falta de energia (que deixavam os bondes parados), além de serem mais baratos.

Atendiam, inicialmente, os bairros de Cachoeirinha e Educandos, posteriormente, para os demais bairros, onde houvesse ruas que lhes possibilitasse a circulação.

Os primeiros ônibus tinham a carroçaria em base de madeira, com cobertura de zinco, montados em chassi de caminhão – eram montados artesanalmente na Rua Wapés, no bairro da Cachoeirinha – tinham os nomes de Progresso, Brasil, Radiant, Monte Ararate, Torino, Girassol, Santa Helena, dentre outros.

Os ônibus entraram para valer com o fim da circulação dos bondes, ocorridano final da década de quarenta.


Em 1957, foi criado no governo do Plinio Coelho, a “Sociedade de Economia Mista Transportamazon” (não oficializada e desativada na década de 60), com a compra inicial de 10 ônibus e mais 15 veículos no ano seguinte.




A empresa “Viação Sul Americana”, sediada na cidade de Belém (PA) começou a fabricar um tipo de ônibus muito estranho, pois tinha um formato do dirigível “Zeppelin” – eles circularam naquela cidade e, também em Manaus – a carroceria era de madeira, ferro e flandres, pintados externamente na cor de alumínio, com o interior forrado em couro e os bancos acolchoados.

Alguns veículos tipo Kombi, da Volkswagen, foram transformados em lotação, sendo chamados pelos manauaras de “Expresso”.

Os ônibus de madeira que ficaram na história da cidade, foram os pertencentes à empresa “Ana Cássia”, de propriedade do empresário Cirilo Anunciação, conhecido pela alcunha de “Batará” –tinha a maior frota de veículos, além de provocarem o maior número de acidentes.

Os primeiros ônibus de ferro a circular na cidade vieram da fábrica “Marcopolo”, em São Paulo – aqui receberam o nome de “Hilariante”, apelidado pela rapaziada por “Rabo Quente”, em decorrência do superaquecimento da parte traseira (descarga vertical), impossibilitando aos mais afoitos a pratica de “morcegar” (carona sem pagar).

Apesar de todo o progresso dos dias atuais, com milhares de ônibus e outros veículos circulando pela cidade, os saudosistas ainda desejam alcançar um dia, a volta dos bondinhos elétricos na área história da nossa Manaus. É isso ai.

Fonte:
Blog:
Livros:
Manaus 1920-1967 A Cidade do Céu e Dura em Excesso. José Aldemir de Oliveira
Evocação de Manaus: como eu a vi ou sonhei. Jefferson Péres

Manaus, amor e memória. Thiago de Mello

terça-feira, 29 de março de 2016

NOS TRILHOS DOS BONDES DE MANAUS


Com os trabalhos de revitalização da Avenida Eduardo Ribeiro, apareceram os antigos trilhos dos bondes que circulavam em Manaus, mostrando para os manauaras e turistas um pouco da nossa história que estava enterrada em nome do progresso.

A nossa cidade foi uma das ricas do Brasil, em decorrência da maciça exportação de borracha “in natura”, no final do século dezenove e inicio do vinte - com os cofres cheios, foi possível embelezar a cidade nos moldes das europeias, dotando de redes de energia elétrica e a implantação dos bondes.

Os elétricos circularam precariamente depois da Segunda Guerra e desaparecendo no final da década de quarenta, sendo substituídos por ônibus de madeira. O governador Plínio Coelho, ainda tentou voltar uma linha em 1957, mas foi em vão, deixando apenas os trilhos para contar a história.

Em nome do progresso, foram colocados camadas de asfalto nas ruas de Manaus, enterrando os trilhos dos bondes e as pedras de paralelepípedos e de jacaré.

Com a revitalização do Largo de São Sebastião(Teatro Amazonas/Praça e a Igreja de São Sebastião), a Secretaria de Cultura (SEC) recuperou e deixou amostra para as novas gerações parte do calçamento de pedras de paralelepípedos da Rua José Clemente e dos trilhos que circundam a Praça.


Os trilhos das esquinas da Avenida Eduardo Ribeiro/Rua Dez de Julho e da Praça de Sebastião faziam parte de duas linhas de bondes para o“Plano Inclinado/Fábrica de Cerveja” (Miranda Corrêa, fabricante da cerveja XPTO), no bairro de Aparecida.


Os bondes saiam da Praça XV de Novembro (atual estacionamento do Porto de Manaus, na antiga Booth Lines), percorriam a Rua Rocha dos Santos (prédio da Alfândega), Rua dos Andradas, entrando na Rua Doutor Moreira até a Praça da Polícia, depois, Rua Rui Barbosa (ao lado Colégio Estadual) até a Rua Saldanha Marinho, Rua Costa Azevedo, Largo de São Sebastião, a esquerda da Rua Dez de Julho, Alexandre Amorim, e Rua Wilkens de Matos, chegando ao Plano Inclinado (na Fábrica de Cerveja Miranda Correa).

Existia outra linha mais curta para o Plano Inclinado, com o bonde subindo a Avenida Eduardo Ribeiro, dobrando a esquerda na Rua Dez de Julho.

Existe um projeto engavetado na Secretaria de Cultura do Amazonas, no qual os bondes voltariam a circular num pequeno trecho, saindo do Porto de Manaus (Roadway), subindo a Avenida Eduardo Ribeiro até o Largo de São Sebastião, destinado, em parte, aos turistas vindos dos transatlânticos.

Conheço os bondes apenas por fotografias antigas e, viajo neles através dos relatos escritos nos livros do Mario Ypiranga, Jefferson Péres, Thiago de Melo e outros escritores amazonenses.


Por hora, contento-me em caminhar pelos trilhos dos bondes de Manaus, que aos poucos vão sendo desenterrados e, fico na esperança de um dia voltarem a circular pelo centro histórico da nossa cidade. É isso ai.

sexta-feira, 25 de março de 2016

120 ANOS DA PONTE ROMANA I


Situada a Avenida Sete de Setembro (antiga Rua Municipal), entre as ruas Igarapé de Manaus e Major Gabriel, na cidade de Manaus, conhecida pelos manauaras como “Primeira Ponte”, por existirem naquele logradouro mais outras pontes – está completando, em 2016, cento e vinte anos de construção, requerendo um maior respeito e cuidado por parte das nossas autoridades governamentais.

Naquele local, existia o Igarapé de Manaus e, quando da enchente do Rio Negro, as suas águas límpidas invadiam toda aquela área - tempos bons que ainda alcancei.

Para o acesso dos bondes elétricos pela antiga Rua Municipal até o bairro da Cachoeirinha (o ponto final e garagem dos bondes ficava onde é hoje a sede da Amazonas Energia), foi necessária a construção dessa ponte e outras mais ao longo do percurso (Ponte Marechal Deodoro, Romana II ou Segunda Ponte; Ponte Benjamin Constant, Ponte de Ferro ou Terceira Ponte) - existia a Ponte Romana III, para acesso ao bairro de Educandos, essa foi destruída em nome do progresso pelo governo do Amazonas através do PROSAMIM.

A ponte foi edificada pelo então governador do Amazonas, o maranhense Eduardo Ribeiro (1892-1896), em substituição a uma precária ponte de madeira - recebendo essa denominação de “Romana” por ter a forma das pontes de arquitetura romana, caracterizadas pelos seus arcos plenos.

Foi inaugurada em 1896 (o mesmo ano da inauguração do Teatro Amazonas), recebendo o nome oficial de Ponte Floriano Peixoto (esse nome não vingou pela população), em homenagem ao vice-presidente que se tornou Presidente da República, em 1891, em decorrência da renúncia do Marechal Deodoro da Fonseca (o primeiro presidente da República).

O governador Eduardo Ribeiro, apelidado de “O Pensador” (um jornal maranhense onde ele escrevia), era um militar/engenheiro que, na sua juventude, lutou muito para a queda da monarquia e a implantação da forma republicana de governo (ocorrida em 15 de novembro de 1889), gostava de colocar os nomes de militares republicanos nas obras em que ele inaugurava.

A sua construção ficou a cargo do engenheiro civil Miguel Ribas - possuindo 230 metros de vão, 15 de largura e uns vinte de altura (parte foi aterrada pelo PROSAMIM), com o passeio público em pedras de Lioz e gradis de proteção (guarda-corpo?) em ferro fundido, importados da Europa - possui três arcos que serviam para passagem de barcos quando da cheia do rio.

Na lateral que fica para o Parque Jefferson Péres ainda estão dois leões e três tubos de ferro (a do outro lado foram retirados), onde jorravam as águas das chuvas -, na minha adolescência, descia pela lateral da ponte segurando pelas suas extremidades e, equilibrando nesses canos, pulava dentro do rio.

Existem duas placas em ambos os lados, de mármore branco (originais, comemorativa da inauguração da ponte), com os seguintes dizeres:

 “CONSTRUÍDA - NA ADMINISTRAÇÃO - DO GOVERNADOR EDUARDO GONÇALVES RIBEIRO - EM 1896”

Por lá passavam os bondes (desativados na década de cinquenta) da linha Cachoeirinha, como mostra a fotografia antiga – caso forem retirados o asfalto, acredito que ainda poderemos encontrar as pedras de paralelepípedos e os trilhos, assim como foram encontrados na Avenida Eduardo Ribeiro com a Rua Dez de Julho.

Com a finalidade de facilitar o escoamento de contêineres do Porto de Manaus até o Distrito Industrial, o governo aterrou vários igarapés do centro de Manaus, construindo a tal “Manaus Moderna”, dando o nome de Avenida Lourenço Braga.

Foram represadas as águas da cheia do Rio Negro que, outrora, invadiam todo o Igarapé de Manaus. Atualmente, jorra apenas um pequeno córrego de águas vindas da sua nascente que fica por detrás da sede da TV Cultura, na Praça 14 de Janeiro (ainda existe uma baixada que termina no Rio Negro, onde era o leito do rio), misturadas com as pluviais e os dejetos das casas e conjuntos habitacionais.

Para a construção do Parque Desembargador Paulo Jacob (antigo morador da Rua Major Gabriel) e do Parque Senador Jefferson Péres (Senador do Amazonas e antigo morador da Rua Huascar de Figueiredo), pelo PROSAMIM (Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus), o governo do Estado aterrou praticamente toda a Ponte Romana I, deixando no fundo parte da nossa história.

Por ter sido morador daquela área na minha infância e adolescência, guardo boas lembranças daqueles tempos bons, onde eu e a molecada do igarapé de Manaus passávamos parte do nosso tempo de lazer pulando da ponte (na cheia do rio), nadando, pescando e passeando entre os seus arcos.

No futuro, caso tenhamos um governo mais sensível com a nossa história, a Ponte Romana I deveria ser desenterrada, abrindo os arcos para passagem das pessoas para acesso a ambos os parques, com portões de proteção ao Parque Senador Jefferson Péres, pinturas em cores originais e iluminação cênica.

Nesse ano de 2016, a Primeira Ponte está completando 120 anos de construção e, devido a um grande trabalho de engenharia civil do final do século dezenove e visão de futuro, continua firme e forte, suportando até os tempos atuais um trânsito bastante pesado.

A Ponte Romana Primeira
Por ficar próximo ao antigo Palácio do Governo
Possuindo história e grande beleza
Não pode continuar enterrada e esquecida
Pela atual realeza (governantes)


É isso ai.

quarta-feira, 23 de março de 2016

AS DIVAS DO BAR CALDEIRA




O Bar Caldeira, localizado na esquina das ruas Lobo D`Almada e José Clemente, centro antigo de Manaus, cultiva desde a década de sessenta, o gosto pela nossa boa música brasileira e, mantêm coeso e sempre renovado, até os dias atuais, um grupo de amigos músicos e cantores, destacando-se quatro mulheres cantoras que são conhecidas como as divas do bar, ídolos de várias gerações de amazonenses.  

No final dos anos oitenta, eu tinha uma missão de ir buscar o meu filho mais velho, o Alexandre Soares, no Colégio Dom Bosco, sempre as sextas-feiras e, por ele gostar de jogar futebol de salão com os outros coleguinhas, no horário das cinco às sete da noite, aproveitava para frequentar o Bar Caldeira – o que me chamava muito atenção era um grupo de músicos e cantores que davam um show naquele lugar, porém, não fiz amizade praticamente com ninguém, pois o meu filho estudou apenas um ano naquela instituição de ensino.

Passados muitos anos, acredito que foi em 2006, comecei a frequentar regularmente aquele famoso bar e, tive o prazer de rever e fazer amizades com os remanescentes daqueles músicos e cantores - o dia preferido para ouvi-los, sem duvida, era aos domingos, quando o recinto era liberado totalmente para as suas apresentações.

Quatro mulheres brilhavam com as suas maravilhosas vozes: Graça Silva (Delegada, cantora e compositora), Celestina Maria (cantora e compositora), Kátia Maria (A Rainha do Rádio, rádio Difusora) e Nazaré Lacouth (A Estrelíssima do Rádio, rádio Rio Mar), que ficaram para a história do bar como “As Divas do Bar Caldeira” – sendo a Kátia Maria a primeira mulher a frequentar o estabelecimento, com direito a uma placa na “Calçada da Fama”.
Durante anos, escrevi e tirei fotos delas para publicação no nosso humilde blog, o que de alguma forma, serviu e, ainda serve, como fonte de pesquisas para o pessoal da imprensa que sempre gosta de homenageá-las.

Exemplos de postagens:

 
Esse grupo de músicos e cantores (as) ficou conhecido como “A Velha Guarda Caldeirense” e, ainda se apresentam aos domingos, no horário das cinco às sete da noite.

O Canal AmazonSat (44), no Programa Documentos da Amazônia, do historiador Abrahin Baze, fez documentários sobre a Kátia Maria e a Nazaré Lacut - outro programa, denominado “Amazonas Mulher” fez uma bela homenagem a Celestina Maria, que também recebeu um emocionante tributo na Escola de Samba Vitória Régia.

A Doutora Graça Silva sempre é requisitada para dar entrevistas nas rádios, jornais e televisão, além de receber inúmeras homenagens pela sua brilhante atuação como delegada de policia civil.

Recentemente, assisti a homenagem que o AmazonSat fez a cantora Nazaré Lacouth – fiquei feliz, pois o apresentador publicou algumas fotografias que tirei e, ainda leu alguns trechos que escrevi em nosso blog (apesar dele não ter me dado os créditos).

Parabéns a Graça Silva, Celestina Maria, Kátia Maria e a Nazaré Lacouth – que continuem por longos anos cantando e encantando para os seus fãs de Manaus – elas são As Divas do Bar Caldeira. É isso ai.

terça-feira, 15 de março de 2016

O ESPORTE AQUÁTICO “SUP” ATUAL E DE ANTIGAMENTE


Os atuais jovens manauaras, das classes média e alta (antigamente, apelidávamos de “filhinhos de papai”), pegaram o gosto por um esporte caro que, antigamente, era o mesmo praticado pela minha “turma” pobre e remediada da Rua Igarapé de Manaus – mudaram apenas os equipamentos, mas, continua o mesmo daqueles tempos bons!


É isso mesmo! Vamos nessa, tentar fazer uma comparação entre a prática desse esporte dos tempos atuais e da minha época e, também, fazer um pequeno passeio pela nossa história.


Atualmente:


Os jovens “bacanas” (incluindo a minha filha Amanda Soares, que é odontóloga/militar), gostam de praticar o “Stand Up Paddle” (remar em pé numa prancha) mais conhecido por “SUP” (supi).


A nossa Manaus em nome do “progresso” aterrou os seus igarapés e poluiu os demais, deixando-os como “esgotos a céu aberto” – forçando os jovens a buscarem lugares mais longínquos para praticarem o “SUP” e outros esportes náuticos.


Um dos lugares preferidos por eles é a desembocadura da “Bacia do Tarumã”- por incrível para pareça, esse local foi onde habitava a tribo dos Manaós (Mãe dos Deuses), que deu origem ao nome da nossa cidade Manaus, por sinal, todo manauara gosta de tratar os outros confrades, culturalmente, por mano ou mana.


Colocam no rio os seus brinquedinhos caros ou são alugados nas Marinas ou nos “Flutuantes” (esses são da minha época, porém, em nova versão).


O SUP é uma prancha quase igual a dos surfistas do Havaí. Em Manaus não temos mar salgado, porém, o Mar Dulce é aqui!


Tem uma quilha para orientar na navegação, onde o camarada fica em pé e, com um remo longo de plástico e alumínio, coloca toda a sua força muscular de sua juventude para passear e apreciar a natureza, paquerar e descarregar a sua adrenalina!


Os militares botaram a boca no trombone:


“A Rádio Marinha FM 99,9, avisa: Senhores navegantes - tenham muito cuidado com os praticantes de SUP -por não possuírem sinalização, passem em uma distância razoável, evitando provocar marolas. Praticantes de SUP- usem coletes salva-vidas e evitem passar onde existem cargas e descargas de barcos e navios - a segurança vem em primeiro lugar”.


Marola é um termo utilizado pelos confrades que já moraram no Rio de Janeiro – eu e o meu irmão Henrique Martins já moramos, uma temporada, por lá, mas, sempre falamos banzeiro, pois somos cabocos da gema.


No passado:


Quando não existia a tal “Manaus Moderna” (com o aterro dos Igarapés de Manaus e do Mestre Chico) - na enchente dos rios, as águas do Rio Negro invadiam toda aquela área que, atualmente, compõem o “Parque Jéferson Péres” e o “Parque do Mestre Chico”, entre as Pontes Romanas I e II e a Ponte de Ferro (Ponte Benjamin Constant)– era o local onde praticávamos esportes náuticos!


É isso mesmo, meu jovem! 


E éramos todos pobres! De bens materiais, talvez... - porém, ricos em alegria, de amor pela nossa cidade, pela natureza e, felizes pelo nosso Igarapé de Manaus! 


O lance era o seguinte: 


Cada jovem da nossa rua possuía uma boia (pequena tora de árvore que vinha na enchente do Igarapé de Manaus e,era adotada por cada um) – aos domingos, gostávamos de praticar o nosso esporte náutico.


Era conhecida como brincadeira de Boia, onde ficávamos em pé se equilibrando para não cair no rio e, com um remo longo (pedaço fino da madeira), remávamos com toda a nossa força muscular da nossa juventude, para passear e apreciar a natureza, paquerar e descarregar a nossa adrenalina!


Era puro esporte, pois íamos remando,numa boa,até a “Ilha do Caxangá” (ficava no atual Estaleiro Nilo Coutinho, na Avenida Lourenço Braga).


A nossa volta era complicada, pois todos estavam cansados e, não era fácil competir com as “voadeiras" e os barcos regionais - além da fome, ainda tínhamos que escutar toda aquela bronca dos nossos pais. Tempos bons!


Parodiando os militares da Marinha:


“A Rádio Cipó FM 171, avisa: Senhores navegantes: tenham muito cuidado com os praticantes de Boia, passem em uma distância razoável para não provocarem banzeiros, pois eles não possuem sinalização. Praticantes de Bóia: usem câmara de pneus salva-vidas, evitem passar onde existem carga e descarga de barcos, navios e de catraias - a segurança vem em primeiro lugar”.


É mano velho, o SUP atual é a mesma BOIA da nossa infância e adolescência, mudaram apenas os equipamentos e o nome, mas, continua o mesmo daqueles tempos bons!


É isso ai.