quarta-feira, 20 de abril de 2016

SECOS & MOLHADOS

O CAOS DA POLÍTICA

No meu Estado do Amazonas alguns Prefeitos estão presos e outros poderão sê-lo por corrupção e outros crimes - o Governador e seu vice foram cassados pelo TRE-AM, por abuso de poder, mas continuam no poder. Em Brasília, a Presidenta não esta governando, podendo ate perder o cargo brevemente - o Vice-presidente se comporta como já fosse o Presidente, porem pode cair também por decisão do STF. Os Presidentes do Senado Federal e da Câmara Federal são citados em vários casos de recebimentos milionários de propinas e não são julgados pelo STF. São quase cinqüenta parlamentares federais citados na Operação Lava Jato (incluindo alguns Senadores) podendo chegar a trezentos com as novas delações em curso! Os membros da corte do STF estão sendo imparciais e desacreditados por parte da população! Os vermelhos estão sendo incitados a baixar o pau em coxinhas, caso percam o poder, por outro lado, os verdes oliva estão caladinhos e arredios em seus quartéis! E o povo brasileiro sofrendo e assistindo a tudo isso pela televisão!

A PRESSA DO ZOIDE

O Direito a Vida esta elencado no art. quinto da nossa Carta Magna, sob dois prismas, sendo um biológico, traduzido no direito a saúde, na vedação de pena de morte, na proibição do aborto, dentre outros e, no segundo, com um sentido mais amplo, traduzido no direito material e espiritual mínimo e necessário a uma existência condigna (proporcional ao valor) a existência humana.
Depois dessa introdução, um tanto acadêmica, vamos ao que interessa, com uma piadinha, para não fugir a regra:
No interior dos ovos (ou bagos) de um cabocão de Manaus, morava um espermatozóide, conhecido pelos seus pares pela alcunha de Zoide, um deficiente físico, por ter nascido sem a sua calda, uma nadadeira, fundamental, para vencer a todos e conseguir fecundar a Dona Ovoide.
O cara era bom de papo, um idealista por natureza, pois apesar das suas mínimas chances, o safado do Zoide tinha um sonho de um dia fecundar um ovulo e, contribuir para o nascimento de um curumim manauara.
Pois bem, conseguiu convencer aos seus pares, em torno de cinco milhões de espermatozóides (eu queria saber quem foi o cientista que contou) que seria o cara certo e único a entrar na única abertura "a perseguida" da Ovoide (a famosa foda nuclear) e, nessa união, transformar-se-iam em zigoto (a célula-ovo, a fase inicial do ser humano).
Numa certa manha duma sexta-feira, o patrão acordou com o famoso "Tesão do Mijo" e a patroa estava num bode daqueles! 
Houve um abalo geral: interno e externo, deixando em alerta geral o Zoide e os seus milhões de seguidores.
O lance foi o seguinte: todos entraram no papo fuleiro do Zoide e, resolveram fazer uma "barreira humana", empurrando o fodido para pegar "de primeira" a virginíssima Ovoide, mesmo que significasse a morte de todos eles!
Os batimentos cardíacos aumentaram com a respiração ofegante e os gemidos explícitos - prenúncios de uma gozada total - o batalhão ficou a postos - colocaram o Zoide "na cara do gol" - quando o líder gritou:
- Atenção, soldados! O homem la de cima esta prestes a gozar! Façam uma barreira e deixe o Zoide à frente do batalhão - vamos empurrá-lo até a "boca do macaco", deixando o nosso escolhido detonar a fêmea; numa boa! A prioridade total e exclusiva é para o Zoide, apesar de ser um deficiente físico, foi escolhido em assembléia geral nessa fodelancia toda!
Dito e feito: milhões de espermatozóides empurraram o Zoide para o destino final: a fecundação da Ovoide!
Segundos depois, ouviram o Zoide, desesperado, gritando:
- Parem, parem de me empurrar! Eeee pppuuunnnhhheeetttaaa!
O Zoide, o idealista e, mais cinco milhões de seguidores, morreram na mão!
Moral da Historia?
Fica a cargo de cada um dos senhores! 

PARA RELAXAR

Isso tudo é golpe ou não é?
Você é a favor ou contra o impedimento?
Sim, Sim; Não, Não
Não Sou a Favor Nem Contra, Muito Pelo Contrário!
Também não concordo, nem discordo, muito pelo contrário!
Na verdade, sim, mas sinceramente, não.
Concordo plenamente com quem discorda que em minha opinião está em cima do muro.
Sabe de uma coisa, não estou nem ai, vou abrir uma cerveja de litrão
e assistir tudo pela televisão.
Eu, hein!

SE GRITAR PEGA LADRÃO!

Escrevo sempre com um pouco de irreverência e gozação e, por meio das minhas brincadeiras, digo o que penso da realidade política dos nossos pais. Lembro-me de tempos atrás quando falávamos que somente "ladrão de galinha" ia preso e que os criminosos de "colarinho branco" ficavam rindo da nossa cara e curtindo a vida numa boa, isso esta mudando, pois nunca na historia desse país, vi tanta gente graúda presa - falta construir (sem fraudar a licitação) uma cadeia para abrigar somente políticos, empresários e outros bacanas corruptos. Se gritar pega ladra, não fica um, mermao!

RENOVAÇÃO TOTAL NA POLÍTICA

Eu sei que é impossível, mas prego a renovação total dos quadros políticos brasileiro, com a saída de cena dos velhos caciques, os profissionais (aqueles que começam vereadores e chegam ate Senador e Ministro). Saiam os pastores (as) e padres (que voltem a pregar em suas igrejas), professores (voltem a lecionar), apresentadores de programas de fuleiragem (vixe, vixe), médicos (tanta gente morrendo e essas caras na politica). Os apresentadores e levantadores dos bois Garantido e Caprichoso (devem brigar la na Arena de Parintins e não no parlamento). Os catitas, ratos e ratazanas do erário publico, eles devem ficar quatro ou oito anos não no parlamento ou no executivo mas na cadeia publica. Aqui na política Baré, que peguem o beco os netos e bisnetos (os tataranetos, podem), os Lins e Tribulins, os Bragas e Pragas. e os Nicolaus da vida e outros lalaus. Renovação total -  devem dar lugar para os mais jovens e começar a fuleiragem do zero!

NEM COM NOJO

Depois da centésima idêntica resposta: "Nem com nojo de pitiu de bodo", uma senhorita da voz bonita e muita educada, telefonou-me (não era ligação gravada, coisa rara):
- Bom dia, senhor! As mns que enviamos para o Sr eram para responder SORTE, para participar dos sorteios de cem mil reais, porem, com as suas constantes respostas, a Cia com o intuito de estreitar o relacionamento com o seu cliente está entrando em contato para entender o significado das suas respostas.
Respondi: E que eu sou da região amazônica e, alem da língua portuguesa, falo também o "Amazonês", um dialeto entendido somente pelos manos e manas do Amazonas!
Ela respondeu: - Muito bem, então, traduza para o português “Nem com nojo de pitiu de bodo".
Respondi: Significa que, não entrarei "nessa jogada" de vocês nem fodendo, pois posso ser doido, mas não sou leso.
A jovem desligou o tel na minha cara, em compensação, nunca mais me mandaram essas mns de pegar otario! Nem com nojo. Eu, hein!

INTERROGAÇÃO

O Deputado Paulo Maluf (PP-SP) e sua esposa Sylvia Maluf podem ser presos na Suíça por terem roubado no Brasil e, no Brasil estão soltos. Por quê?
A mineradora Samarco (da Vale SA) deve 20 bilhões de reais em uma ação judicial por danos ambientes – até o momento não pagou nem os 2 bilhões requeridos para a implementação do plano de recuperação ambiental. Por quê?
O artigo 80 da Constituição Federal determina que, “em caso de impedimento do Presidente e do Vice-Presidente, ou vacância dos respectivos cargos, serão sucessivamente chamados ao exercício da Presidência o Presidente da Câmara dos Deputados, o do Senado Federal e o do Supremo Tribunal Federal.” Deixa entender: O Deputado Cunha (PMDB-RJ), caso permaneça na presidência da Câmara Federal poderá chegar a Presidência da Republica. Por que o homem não caiu até agora?
O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, determinou que Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, acate o pedido de impeachment do vice-presidente Michel Temer. Isso configura conflito de competência de poderes?

FURO DE REPORTAGEM FURADA!

Sintonizei a Rádio Tiradentes, para me inteirar sobre a decisão da Desembargadora Socorro Guedes, Presidente do TRE-AM, com relação a acatar ou não o pedido de execução do acórdão ingressado pelo Eduardo Braga (PMDB) para afastar do cargo o governador José Melo (PROS).
O dono da emissora falou “alto e em bom tom” que tinha uma fonte fidedigna dentro do tribunal – que a decisão já tinha sido tomada, faltando apenas informar ao público e publicar no diário eletrônico, acatando o pedido pelo afastamento do chefe do executivo estadual.
Em seguida, entra no ar o radialista e apresentador do programa “Manhã de Notícias”, o Marcos Santos, perguntando ao Ronaldo: - E, agora, como fica? – A Assembléia Legislativa terá um prazo de trinta dias dar posse ao novo governador e, nesse ínterim, o Estado do Amazonas será governado pelo Josué Neto! – respondeu o advogado e empresário. O Marcos Santos saiu com essa: - Parabéns governador Josué Neto! Parabéns governador Eduardo Braga!
Horas depois, para evitar a descontinuidade do serviço público e seguindo a legislação eleitoral, a presidente Socorro Guedes mantém o governador e o vice no cargo até que todos os recursos contra à cassação do mandato sejam julgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
No dia seguinte, às oitos horas, liguei o rádio na mesma emissora, quando o dono da emissora estava pedindo todas as desculpas possíveis ao governador Melo e aos seus eleitores!
Pois é, esse furo de reportagem foi uma tremenda furada!

PREFEITO DE MERDA!

Os cariocas devem estar em "Guerras" com o seu prefeito, o "Paes" - o cara chamou a cidade de Maricá de uma merda de lugar! Depois, foi a televisão pedir desculpas aos seus eleitores! Sacanagem!
Segundo a Wikipédia: "O município de Maricá também é conhecido por suas propriedades rurais – chácaras e grandes fazendas –, muitas delas ricas em conteúdo histórico. O trem também já passou pela cidade – ainda hoje se encontram resquícios daquela época, como estações, trilhos, um túnel e uma ponte no bairro de Inoã, com a inscrição da Estrada de Ferro Maricá"..

AMAZONENSE FILHO DE CEARENSE

Nunca fui ao Ceará, apesar do meu pai e avos paternos serem de lá, porém, a vontade ainda reina! Dizem que, os amazonenses que visitam o Ceará, gostam de mostrar que são daqui: levam Tambaqui e assaram na praia, gostam de jogar dominó ouvindo toadas dos bois de Parintins e, adoram falar o Amazonês. Quando chegam a Manaus, começam a falar o Cearancês: Fala, Macho! Diabéisso?O caba é morto dentro das calça! O bicho é lesado! Rai te lascar!

A MESMICE TODO DIA


Abro os jornais, ligo o rádio ou a TV, entro no Facebook, whatsapp e outras mídias sociais, nos bares e botecos, nas esquinas de ruas, nos carros, nos ônibus e nos táxis, nas lan houses, nas feiras, mercadinhos e supermercados e, até nas igrejas – lá estão eles, não tem como fugir! Socorro! Estou tendo até pesadelos com isso tudo: Lava Jato, Moro, Lula, Aécio Neves, Dilma, STF e seus juízes, Petrobrás, Delação Premiada, Odebrecht e outras empresas citadas na LJ, Marcelo e outros executivos presos, PT, PMDB, PSDB e outros, Senador Delcídio e outros, Deputado Cunha e Outros, Policia Federal, Japonês, Milhões de Dólares Desviados, Contas no Exterior, Lavagem de Dinheiro & Outros Roubos e Desvios! Não agüento mais! Tô Fora! Não quero mais saber dessas notícias! Tô de saco cheio! Não leio, não dou mais ouvidos e não falo mais sobre isso! Ponto Final

domingo, 10 de abril de 2016

O ZÉ MUNDÃO - I PARTE


J. Martins Rocha
1ª. Edição
2014

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Autor:
Rocha, J. Martins, nasceu em Manaus, em 1956, capital do Estado do Amazonas, formado em Administração de Empresas, pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), atua como pequeno empresário do ramo alimentício e, editor do BLOGDOROCHA, uma página na internet voltada para a cidade de Manaus, a Amazônia e a sua gente.
Contatos:
Celular: (92) 9153-7448
E-mail: jmsblogdorocha@gmail.com
Página Internet: BLOGDOROCHA
www.jmartinsrocha.blogspot.com

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Introdução
O livro surgiu em decorrência de centenas de postagens que publiquei no BLOGDOROCHA – no endereço eletrônico www.jmartinsrocha.blogspot.com - na qual edito desde 2006 – não sou jornalista, historiador ou pesquisador, mas, escrevo para o blog de forma amadora sobre a minha cidade, principalmente, da Manaus antiga e das décadas em que desfrutei das suas belezas, encantos, monumentos, praças, cultura, músicas e gastronomia - bem como, da contribuição cultural, social, educacional e econômica por parte das pessoas que aqui vivem ou viveram.
O personagem Zé Mundão foi criado, casualmente, nas postagens do BLOG, onde me permitia escrever contos e causos a vontade sobre a infância, adolescência, vida adulta e na idade feliz dos meus irmãos, amigos, colegas e, sobre a minha também.
Vários amigos e leitores aconselhavam-me a reunir os escritos num livro, não aceitando de imediato a sugestão, pois não me achava preparado suficientemente para tal empreitada. Recentemente, fui condensando as postagens e, consegui terminá-lo, contando com a ajuda e incentivo de muitas pessoas e colaboradores. 
Escrevi de uma forma leve, cômica e irreverente, misturando realidade com ficção, tendo como pano de fundo a cidade de Manaus e o interior do Estado do Amazonas. Este é o meu primeiro livro, uma obra simples, com os erros e acertos de um iniciante, mas, espero que ele cumpra a sua missão: elevar o estado de espírito das pessoas que o lerem.

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Dedicatória:
Aos meus pais Rocha e Neli (in memoriam) 
Aos meus filhos, Alexandre, Amanda e Adriana.
Aos meus netos, Victor e Eduarda.
Aos meus amigos e familiares.

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O Zé Mundão nasceu na Santa Casa de Misericórdia, na década de cinquenta, quando veio ao mundo, estavam batendo as dozes badaladas dos sinos da Igreja de Sebastião, exatamente no dia do aniversário do Presidente Juscelino Kubitschek; os seus familiares ensaiaram em chamá-lo pelo prenome do mandatário maior da nação, mas, ao ser batizado na Igreja dos Remédios, recebeu na pia batismal o nome de José, em homenagem ao seu avô, um cearense que veio para a Amazônia coletar o látex. O seu primeiro lar foi um “flutuante”, uma casa de madeira apoiada por duas enormes toras, própria para flutuar na enchente do Rio Negro, no Igarapé de Manaus.
Para não fugir da exceção, por ser um filho e neto de uma família de cearenses, passaram-no a chamá-lo de Zé, um diminutivo carinhoso de José - era o mais novo de todos os irmãos, o caçula queridinho da família; os seus irmãos mais velhos eram conhecidos como Zé Galinha, Zé Pacú e, a única mulher, foi batizada de Maria José, também chamada de Zezinha, tinha que ter Zé no meio de qualquer maneira.
O local onde morava o Zé era um braço do rio e, fazia parte de um conglomerado de residências conhecido como “Cidade Flutuante” (com maior concentração das casas por detrás da Rua Barão de São Domingos) – o processo de ocupação do leito do rio foi iniciado em decorrência do declínio do fausto da borracha e, com a falência dos seringalistas, levou uma multidão de seringueiros a ficarem sem eira nem beira, não tinha onde morar, a solução foi iniciar a construção de suas casas sobre as águas da orla do Rio Negro e pelos igarapés que cortavam a cidade de Manaus.
As habitações eram construídas sobre troncos de árvores, tornando-as flutuantes, com os assoalhos e todos os cômodos de madeira, tendo a cobertura, na sua grande maioria, feita de palhas - os que tinham mais recursos cobriam com folhas de zincos.
Formavam um imenso conglomerado de casas, era tão grande que chegou a ser uma “cidade” dentro da própria cidade de Manaus, com mais de 2.000 casas e aproximadamente 12.000 habitantes.
Neste local existia além de moradias, todo tipo de comércio: estivas, ferragens, restaurantes, gabinetes de dentistas, consultórios médicos, drogarias, oficinas mecânicas de consertos de motores marítimos, vendas de borrachas, castanhas, jutas, couros e peles de animais; qualquer atividade que tinha em terra, também tinha na cidade flutuante!
Alguns achavam que aquilo era um cancro, uma vergonha para os habitantes da terra firme, mas, foi exatamente onde o pequeno Zé passou de uma forma muito feliz a sua infância.
Morar em um flutuante tinha os pontos negativos e também positivos. A família do Zé era discriminada pelos moradores que moravam na parte de cima da Rua Igarapé de Manaus, pois se achavam superiores aos pobres moradores de flutuantes.
A grande maioria das famílias das ruas Huascar de Figueiredo e Lauro Cavalcante, pertencente à classe média, com belíssimas residências, tinham preconceitos ainda maiores – algumas falavam que eles moravam no “bodozal” (na lama, onde se reproduzem o peixe Acari Bodó).
Na enchente, a família e os animais de criação (gatos e galinhas) ficavam “ilhados”, com acesso a terra somente por uma pequena tábua, onde o pequeno Zé sofria muito para passar, com risco de queda dentro de rio. Com a água batendo seis meses,

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havia o apodrecimento mais rápido das toras de sustentação da casa – era feito um mutirão para a troca das “boias”.
O danado do Zé era vigiado 24 horas por dia, pois corria risco de afogamento, em decorrência disso, ele aprendeu a nadar ainda curumizinho (menino pequeno) - todos sofriam também com o ataque de animais peçonhentos, cobras e jacarés.
Na sua casa não existia luz nem água encanada, o sufoco era total, pois tinham que recorrer a lamparinas, candeeiros e lampiões para iluminar os cômodos - um martírio, pois não podiam ter nenhum aparelho eletrodoméstico em casa - o café era torrada e pilado dentro da habitação e, fervido num fogareiro à lenha; as roupas eram passadas num ferro de ferro de engomar a carvão e a comida era feita num fogão a lenha, com tudo manual, típico de uma casa de ribeirinhos da Amazônia.
Na vazante, a família levavam alguns meses para limpar toda a área externa, pois ficava muito lixo espalhando pelo chão, com garrafas de vidro quebradas, latas enferrujadas, tábuas com pregos, etc. – o coitado do Zé vivia sempre com cortes nos pés e muitas feridas pelo corpo.
Os banhos eram feitos em cacimbas ou camburões de metal, com água de beber sendo filtradas em potes, bilhas e filtros de barro.
Uma das grandes vantagens, era caso o caboco tivesse algum problema sério com o seu vizinho, bastava pegar o machado e, cortar a corda principal que amarava o flutuante a beira rio, colocar uma amara num “barco regional”, pedir para ser puxado e, morar no outro lado do rio – a família do Zé era benquista por todos os vizinhos e nunca precisou sair do local onde moravam.
Na enchente, o balneário ficava na janela do flutuante do Zé, bastava pular dentro do rio e, tomar banho nas suas águas refrescantes, pois ainda não havia poluição em demasia, apesar dos moradores jogarem os dejetos das privadas diretamente no
igarapé. 
Os barcos regionais ancoravam no flutuante do Zé, oferecendo a preços mais acessíveis peixes, leites, queijos, farinha e outros produtos regionais, além de tábuas e palhas para a manutenção da casa – o flutuante servia de base para muitos pescadores amadores e banhistas, era o momento em que os moradores da parte de cima, pediam favor para passar e, respeitavam a pobre família do Zé.
Quando o rio secava, os moradores se reuniam e faziam campos de futebol, tinham a prioridade para formar as equipes e jogar, pois se consideravam os donos da área - os residentes da parte de cima tinham que pedir para entrarem na peleja – os campos
serviam também para inúmeras brincadeiras infantis, além de ser palco para muitas brigas entre a molecada de baixo contra a de cima.
O Zé por morar em contato direto com a natureza, dentro do rio, acompanhando todo o processo de enchentes e vazantes, era um caboclo que tinha mais anticorpos, pouco vulnerável as doenças que acometiam normalmente as crianças “filhinhos de papai” da parte de cima, pois eles não pisavam descalços de jeito nenhum num lugar daquele.

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Desde bebê, o Zé não foi muito chegado ao leite materno, foi criado à base de “Mingau de Banana Verde” e papinha feita de “Araruta” e “Cremo Gema”, depois, a sua dieta passou a ser direto o peixe; por ser um pobre ribeirinho, não tinha acesso aos produtos industrializados, tudo era natural, fazia também a “dieta da sopa”, ou seja, dava sopa, ele comia, não fazia cerimônia, comia feito uma draga.
Pegou aquelas doenças comuns da sua época, como a “Papeira”, “Catapora” e “Sarampo”, criou bastantes lombrigas no bucho, pegou muita “Frieira e Mijacão”; as suas doenças eram curadas a base de “Mamona”, “Jalapa Pião”, “Copaíba”, “Chá de limão com Melhoral” e “Xarope Caseiro” – o seu genitor era um artesão, em razão disso, os ferimentos eram estancados a base de verniz (uma mistura de álcool com goma-laca) e, pegou muita surra para tomar “Magnésia” (um remédio para limpar os intestinos).
Apesar de todas as dificuldades materiais e, por morar em um flutuante, era um caboquinho feliz, cresceu forte e sadio, começando a aprontar desde cedinho.
Os seus brinquedos eram feitos manualmente por seu pai, um exímio marceneiro, tudo era de madeira, brincava de carrinhos, espada, pião, cangapé e, curtiu todas as brincadeiras que as criançadas de Manaus curtiam naquele tempo: Papagaio de Papel; Caroço de Tucumã, Bolinha de Gude; Boi de Pano, Estátua, Escapole-Bate-Fica, Boca-de-Forno, Queimada, Corrida de Saco, Macaca, Manja, Cemitério e Barra-Bandeira.
Certa vez, no seu aniversário, ganhou de presente da sua madrinha um pequeno “Globo Terrestre” de plástico – mesmo ainda não sabendo ler e a escrever, aprendeu com os seus irmãos mais velhos os nomes e onde ficavam os países - passava horas e horas girando a esfera, parava, apontava com dedo indicador e falava alto:
- Quando eu crescer quero viajar muito, conhecerei Portugal, França, Itália, Alemanha, Japão e os Estados Unidos, aliás, quero conhecer o mundo todo! – falava de uma forma determinada.
De tanto repetir que iria conhecer o mundo todo, foi um passo para a molecada o apelidar de “Zé Mundão”.
Quando ficou mais taludinho, recebeu a missão de esperar o “Padeiro” e o “Leiteiro” na rua e, numa manhã, deixou o pão e o leite escondidos e foi pegar “Mangas” num terreno de um enigmático senhor, conhecido por Durau.
Quando retornou, alguém tinha comido o “bico do pão” e um gato havia derrubado a leiteira e, estava lambendo o leite - a bronca ia ser alta pro Zé, mas, ele era um cara esperto:
- Vou completar o litro de leite com água, não quero nem provar, pois está cheio de pelos do gato, vou ver se o velho engole essa! – pensando rápido numa saída.
Dito e feito, o Zé tomou o “café puro” e ainda teve que explicar que foi ele quem comeu o “bico do pão” – dias depois, falou do ocorrido para o seu irmão mais velho, o Zé Galinha, mas, foi dedurado, pegou uma surra daquelas e ainda ficou um mês de castigo!

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O Zé tinha uma vizinha, a Wanda, ela falava palavrões o tempo todo, foi um passo para aprender rapidinho todo aquele vocabulário - pegou muito “tapa na boca” para perder aquele costume feio, mas, o famoso “sinal com o dedo” ele não deixou de mostrar para as pessoas que o acomodava:
- Tá qui prá ti, sêo leso! – gesticulando e gritando.
Era um hábito comum entre as famílias pobres de Manaus, criarem animais em seus quintais, os mais comuns eram as galinhas, os patos, os papagaios, os macacos de cheiro e barrigudos, os jabutis, os cachorros, os gatos e até porcos - eles eram chamados de xerimbabo (tupi = minha criação) – a família do Zé, inicialmente, criou um cachorro vira-lata, chamado Duque, era considerado o mascote, fazia o papel de segurança da casa, porém, ele pegou a hidrofobia, ficou doido, mordeu o Zé, a Zezinha (irmã) e a sua mãe.
O coitado do Zé pegou diversas injeções dolorosas no bumbum – o seu pai resolveu sacrificar o cão, pegou um terçado para degolá-lo, mas, o animal abaixou a cabeça, chorou aos seus pés e não o mordeu – o homem começou chorar também, deu uns passos para trás, foi embora e, deixou o cachorro morrer com a doença – a família nunca mais quis saber de criar outro cachorro.
Tempo depois, a sua avó paterna, comprou umas galinhas e um galo pedrês (carijó) -os primeiros ovos foram da casca azul, a molecada de casa ficou extasiada, mas ela resolveu guardá-los em cima de uma antiga Cristaleira.
O Zé e seus irmãos escalaram o móvel ao mesmo tempo, com o peso, ela tombou e caiu em cima deles, foram ovos, copos e taças de cristais, xícaras e bules de porcelanas, tudo foi para o chão, com cacos espalhados por todos os lados, ficaram cortados, mesmo assim, pegaram da avó uma bela surra de galho de goiabeira – dias depois, ela resolveu botar o galo e as galinhas na panela, acabando com a festa dos
pequenos.
Foi estudar no Colégio Estadual Barão do Rio Branco, a sua avó o matriculou no primeiro ano forte (o equivalente a segunda série), mas o Zé não sabia ler nem escrever, a primeira tarefa na escola foi fazer uma cópia e, na malandragem, pediu ao seu colega "Nascimento", para fazê-la, o seu confrade era canhoto, pegou o caderno do Zé Mundão, virou na melhor posição e fez a cópia todinha.
O Zé foi entregar o trabalho:
- Fessora Genevova, tai a cópia, tá bonita? – falou todo gabola da vida.
- Vá fazer outra cópia, você fez com o caderno de cabeça para baixo! – dando-lhe aquele ralho.
Não se conteve, chorou que nem um bezerro desmamado, a professora descobriu que ele estava na série errada e o encaminhou para a “Alfabetização” - cobrir as letras foi uma graça para Zé Mundão.
O que ele mais odiava era a “hora da merenda”, pois não trazia nada de casa e ainda
tinha que encarar aquele “leite de soja” que era enviado ao Brasil em decorrência do

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projeto “União para o Progresso” dos ianques; o jeito era filar a merenda dos meninos do pré-escolar,
Num certo dia, foi pego e levado pela “orelha” até a Diretoria, os seus pais foram chamados à atenção - moral da historia: ganhou uma “Lancheira” novinha em folha, com direito a suco de “Maracujá” e sanduíche de “Pão com Pão”, a partir dai, começou a adorar a hora de merenda, gostava de deixar os seus colegas com água na boca e, nunca mais tomou o famoso "leite de posto"!
Tempo depois, saiu do “flutuante” e vou morar com a família numa “casa de madeira”, na parte de cima - fora proibido de tomar banho no igarapé, mas não tomava jeito, tirava o calção, colocava num arbusto qualquer e pulava pelado dentro d’água, pois não era hábito usar cuecas naquela época.
Era um final de semana, quando o seu “amigo da onça”, o “Nego Mau”, escondeu a roupa do Zé Mundão, o coitado passou a tarde toda dentro do rio, deixou a noite chegar e, correu pelado pela rua até chegar à sua casa, com todos os moradores achando graça daquela cena inusitada e, ainda foi gozado por bastante tempo - mas o cara sabe muito bem dar o troco:
- Vou dá um tempo no tempo, pegarei o escroto do “Nego Mau” e todos os amigos deles que ficaram me gozando! – prometendo uma desforra.
Num sábado à tarde, estava o “Nego Mau” e toda a sua galera estavam tomando banho pelado no rio, como de costume, eles também não usavam cuecas; o Zé foi bem de mansinho e, pegou os calções de todos eles, quando estava bem distante, gritou:
- Ei, ei, Negou Mau, olha aqui, estou com o teu calção e da tua galera, quero ver todo mundo pelado correndo pela rua, sai da água se tu é macho, sai!
Foi um Deus nos acuda, prometeram uma bela sova no Zé, mas, ele não estava nem ai!
À noite, toda a molecada da rua estava à beira do rio, esperando a galera do Nego Mau sair da água – estava ficando tarde, não dava mais para ficar ali naquela situação, não deu outra, todo mundo saiu correndo pelado pela rua em direção as
suas casas, foi uma gozação total.
O Zé ficou uma semana sem sair da sua casa, estava com medo da represália, somente ia à escola escoltado pelos seus pais, mas, um dia o pegaram sozinho, deram a prometida surra nele e ainda tiraram o seu calção e, teve que correr novamente pelado pela rua até chegar a sua casa! Haja gozação!
Ficou mais uma semana hibernando em sua residência, pois estava cansado de servir de chacota pelos colegas de rua.
O Zé Mundão era um grande “perna-de-pau”, jogava uma bola “quadrada”, tanto que era sempre escalado para ficar no gol, além de “brabo” era também um goleiro “frangueiro”.
Passou alguns meses vendendo picolés, bolinhas de gudes, revistas em quadrinhos e fazendo mandado para os outros, tudo para arrecadar dinheiro e comprar uma ”Bola

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Oficial” - num belo dia, chega no “Campinho da Várzea” todo gabola, com a bola embaixo do braço e dando ordens:
- A partir de hoje quem manda no time sou seu, o Nego Mau vai para o gol e eu vou para o ataque, quem “frescár” vai para o banco, se não estiverem de acordo, levo a bola, tudo bem?
Todos respondiam:
- Sim, Zé Mundão, você é o dono da bola!
E assim foi por uma semana, pois a redonda caiu num quintal de um velho ranzinza que a cortou em vários pedaços, acabando com o reinado do Zé e, ele voltou novamente para o gol!
A grande maioria dos amigos de Rua do Zé era sapeca que nem ele, dentre os mais famosos estavam o Nego Mau e o Adelson Mau Elemento.
Pela alcunha de Nego Mau dá para se ter uma ideia o quanto ele aprontava, o cara era realmente um malvado, travesso e traquina, era um capeta em forma de guri.
Ele aprontou poucas e boas, era esperto, revelou bem novinho o seu lado empreendedor e, para ganhar dinheiro em cima dos otários, montou nos porões da sua casa o “Matinê do Nego Mau”, passava filmes em caixinhas de sapato, cobrava o ingresso da molecada, aproveitava para ganhar mais algum, vendendo KSuco de Uva com bolacha da Padaria Modelo.
Certo dia, resolveu majorar os preços, com a ânsia de faturar mais alto, um concorrente abriu outro Cine, com mais conforto e com os preços dos ingressos bem abaixo da concorrência, o Nego Mau foi à falência, mas, o capeta não se deixava abater, partiu logo para outro empreendimento, montou no mesmo local o “Circo do Nego Mau”, fez o cenário, figurino, treinou a molecada, formou palhaços, malabaristas e trapezistas.
O Zé Mundão foi um dos artistas do circo, caiu na lábia do Nego Mau, pois ele tinha prometido que somente no final da temporada iria pagar o cachê, falou que era bem melhor ele guardar o dinheiro e pagar a “bolada” no final do ano, o dinheiro daria para comprar uma bicicleta “Monareta” novinha em folha, o sonho infantil de consumo do Zé.
Era tudo brincadeira de criança, mas, o esperto do Nego Mau levava à sério, foram seis meses trabalhando todos os finais de semana, o porão sempre ficava cheio de expectadores mirins, bamburrando na bilheteria.
Quando chegou Dezembro, ele deu uma pernada na molecada, chorou miséria, era um artista, sabia representar muito bem, apresentou uma “contabilidade” fajuta, demonstrou na maior cara-de-pau que os gastos foram maiores do que a receita, - moral da história: prejuízo, nada de grana para o Zé e, o sonho da Monareta ficou para o próximo ano!
Na temporada do ano seguinte o negócio foi diferente, o Zé colocou o Nego Mau contra a parede, exigiu o pagamento no final de cada apresentação, mas, o esperto embolsava sempre a metade da grana dos ingressos e enganava os artistas do circo.

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O Zé e os seus irmãos, o Zé Galinha e o Zé Pacu, eram conhecidos com “Os Irmãos Borracha”, eram todos trapezistas e faziam contorcionismos.
Com o surgimento de outro picadeiro na rua, o “Circo do Aluísio & Tico”, resolveram debandar geral, cansaram das trapaças e trapalhadas do patrão. Num dia de apresentação, o Zé Mundão estava no trapézio de cabeça para baixo, o Nego Mau contratou o Adelson Mau Elemento para detonar o Zé, o malvado pegou uma baladeira com bolinhas de barro duro, mirou e , acertou bem no “ovo esquerdo” do Zé Mundão, ele caiu de cabeça no chão, o baque na cachola o deixou tantã por bastante tempo.
O Nego era o único filho homem da família, o queridinho da mamãe, mimado pela Dona Nira, ela botava tudo na boquinha dele - andava sempre bem trajado, perfumado, com talquinho no pescoço, era bem alimentado e ganhava brinquedos caros, já era metido à besta desde novinho, não compartilhava nada com os colegas de rua, gostava mesmo era de se mostrar e tirar sarro da cara dos outros.
Ele sempre foi o melhor nas brincadeiras de rua, ganhava sempre na bolinha de gude, na dama, no cangapé e no pião, era muito sortudo e esperto. No futebol, ele era um tremendo “perna de pau”, mas, era na maioria das vezes o dono da bola, o pobre do Zé Mundão era sempre escalado para ficar no gol; gostava da “banheira”, o negócio dele era receber a bola, chutar e correr para o abraço.
Quando o Nego Mau ficou mais taludinho, começou a brechar a mulherada tomando banho pelada, o que lhe rendeu muitos calos na mão direita - gostava também de colocar a “piroca” dentro de uma garrafa, certa vez, ela ficou rígida e não saia mesmo forçando, entrou em pânico e, saiu correndo pela rua, o Zé Galinha foi solidário e ajudou ao amigo, deu uma martelada certeira, foi caco de garrafa e de falo para todos os lados.
O Nego Mau ficou envergonhado e se enclausurou em casa por dois meses, não aguentava mais ser chamado de “Nego Mau, o piroca de vidro!”.
O Nego tinha um amigo chamado Pingo, um moleque franzino, era filhinho de papai, vinha de uma família abastarda, mas, gostava também de aprontar, os dois de vez e quanto se estranhavam – certa vez, o Pingo ficou escondido nos altos do “Solar dos Bringel” e botou para urinar na cabeça da molecada do Igarapé de Manaus, o Nego Mau ao passar pelo local tomou um banho, jurou que iria matar o Pingo de pancada.
Quem bate, esquece! Um dia, o Pingo apareceu na rua com a maior cara dura, o Nego Mau foi o primeiro a correr atrás dele, na correria, o Pingo caiu dentro de um buraco, ficando indefeso, o Nego aproveitou o momento e, jogou uma pedra de barro na cabeça do Pingo, ele simplesmente desmaiou, foi um corre-corre da família.
O Nego Mau correu para a sua casa, entrou de mansinho pelos fundos, tomou um banho e se meteu embaixo dos lençóis e começou a roncar, fingindo que estava dormindo. Levaram o Pingo ao Pronto-Socorro, foi medicado e voltou para casa, depois, os seus familiares foram até a casa do capetinha, chegando lá, a Dona Nira saiu em defesa do filho:
- O meu Nego é um menino incapaz de fazer isso, ele é bondoso e colega de todos da rua e, além do mais, passou à tarde todinha dormindo!
Foi um álibi perfeito.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

A CIDADE DE MANAUS, O COMPORTAMENTO DAS PESSOAS E DAS FAMÍLIAS NA DÉCADA DE QUARENTA.


Ao ler o livro “Evocação de Manaus - Como eu a vi ou Sonhei”, do saudoso manauara Jefferson Peres, foi quando pude ter uma ideia como era a cidade, como se comportavam as pessoas e as famílias na década de 40 em nossa cidade (que vinha de trinta anos de estagnação e estava sofrendo com a 2ª. Guerra Mundial) – eram formais, conservadores, machistas, respeitadores, católicos e amavam a sua cidade. 

A cidade possuía cerca de cem mil habitantes, onde a classe média morava no centro, formada por oficiais das armas, médicos, advogados, comerciantes e políticos – eles moravam em casa de no máximo dois pavimentos, casarões e palacetes, enquanto os menos favorecidos, a grande massa de trabalhadores morava em vilas e estâncias, em casas de zinco e telhas;tendo apenas três bairros, Educandos, Cachoeirinha e São Raimundo; com o bonde, a única forma de transporte público, indo até a bifurcação da atual Rua Recife e Constantino Nery (área rural, onde existiam as chácaras e igarapés); contando com pouquíssimos automóveis circulando.

Praticamente todos se conheciam, pelo menos de vista, por cruzarem-se diariamente, pois apesar dos bondes e dos reduzidos carros e das catraias (para travessia dos igarapés), a grande maioria gostava mesmo era de andar a pé.

Existiam poucos choferes de carros de aluguel - eles pertenciam a Garagem Avenida e Esportiva (ambas na Avenida Eduardo Ribeiro) - estacionavam no centro os seus automóveis da marca Packard, Studebaken e Cadilac, não existia taxímetro e a corrida era cobrada em comum acordo – cada família tinha o seu motorista preferido, o qual era contratado para passear, visitar amigos distantes, fazer piqueniques, participar de casamentos, batizados e enterros.

Existiam pequenos furtos (subtração do alheio sem uso de violência) e as pessoas já evitavam dormir com as janelas abertas – quando acontecia um crime mais violento, tipo homicídio, a repercussão era em toda a cidade, a comoção era geral e duravam semanas de matéria nos jornais.

Existia policiamento durante o dia pelos guardas-civis e, pela parte da noite, por duplas de soldados a cavalos e pelos guardas-noturnos que cobriam quarteirões, apitando o tempo todo, transmitindo segurança a todos – praticamente não existia violência urbana, apenas casos pontuais de brigas entre bêbados e desordeiros.

Quando alguém adoecia, os parentes e amigos faziam visitas, levando solidariedade e carinho ao enfermo – no caso de morte, a viúva e familiares vestiam-se de preto e ficavam até seis meses de luto, depois, mais seis meses de luto brando, com roupas de preto e branco e braçadeira preta ou fita na lapela/bolso da camisa – e não participavam de nenhum evento social na cidade.

Por estar em plena Segunda Guerra Mundial, com os navios mercantes brasileiros sendo atacados pelos submarinos alemães, existia um grande desabastecimento na cidade – ninguém se incomodava de dar a um vizinho um pouquinho de açúcar, café, óleo, etc. – aliás, isso foi um hábito que durou por muito tempo.

A cidade respirava a guerra, com despedias e choros para aqueles que partiam para o front na Itália – com o afundamento do navio Baependi (nome dado a uma vila que fica na Rua 24 de Maio – antes se chamava Vila Itália) morreram vários manauaras ilustres, ocasionado revolta na cidade, como uma quebradeira geral do Consulado da Alemanha, de residências e lojas de italianos, espanhóis e de partidários do eixo – na cidade não morava japoneses, porém, os residentes na Vila Amazônia (Parintins, Baixo Amazonas) foram expulsos de suas terras (o que lamentamos até hoje).

Com a reabertura dos seringais e a chegados dos “soldados da borracha”, a cidade foi invadida, novamente, pelos nordestinos “arigós” (aves de arribação) e também por muitos norte-americanos que trabalhavam na empresa que transportava borracha em hidroaviões (Ilha de Monte Cristo) – o aeroporto de Ponta Pelada foi construído em tempo recorde pelos americanos.

Os homens usavam paletó e gravata o tempo todo, com os chapéus panamá já caindo de moda – as mulheres não usavam calça comprida, era coisa de homem –nos vestidos e saias até abaixo dos joelhos, com meias para não mostrarem as pernas – utilizam também anáguas e combinações para não aparecerem a calcinha e o sutiã.

Manaus era entrecortada por igarapés, onde a população gostava de fazer piqueniques e tomar banho de rio, com as mulheres usando maiôs inteiros e os homens bermudas longas – quando o evento era promovido pelos colégios de freiras, as mulheres tomavam banho de vestido!

A Semana Santa era respeitada por todos, com poucas atividades no comércio (muitas lojas ficavam fechadas durante a semana) e na Sexta-Feira um multidão iam à procissão, com muitos carregando cruz ou uma pedra na cabeça – nem as “mulheres do sexo” faziam encontros nessa semana – as rádios somente tocavam musicas sacras e os cinemas passavam direto “A Paixão de Cristo”.

Não se ouvia falar em lésbicas na cidade, era muito raro – alguns homens tentavam esconder ao máximo que eram gays (também conhecidos como enrustidos), quando assumiam a sua homossexualidade, eram marginalizados, apanhavam dos machos e era uma vergonha para a sua família, alguns deles tinham que deixar a cidade, geralmente partia, em definitivo, para no Rio de Janeiro.

As mulheres não chamavam palavrões em hipótese alguma e não bebiam em público – os homens falavam baixinho entre amigos e jamais próximos a família – eles também não fumavam diante dos pais, mesmo depois de adultos.

O pedido de casamento era um evento marcante, pois todos da casa, os vizinhos e parentes aguardavam com muita expectativa o dia – uma autoridade ou o pai do rapaz era quem fazia o pedido, sem a presença dos noivos – selavam o acordo com uma taça de champanhe e, era muito raro não acontecer o casamento.

A mulher tinha que casar virgem, caso contrário, o homem devolvia ao seu pai – o camarada que casasse com uma desvirginada era apelidada na cidade por “pedreiro” (aquele que tampava buraco).

Caso o homem desvirginasse uma mulher antes do casamento, os pais arrumavam o casamento as pressas e, para não ficar falada na cidade, inventavam que o filho de sete meses nasceu prematuro – quando não era possível casar, a mulher ficava reclusa em casa até nascer o filho ou mudava de cidade.

A mulher tinha que casar aos vinte anos, conhecido como “o primeiro tira na macaca”, depois aos 25 anos (segundo tiro) e, por último, aos trinta anos (o terceiro tiro), após essa idade era muito difícil encontrar um pretendente, ficando no “caritó”, permanecendo titia para o resto da vida.

A mulher estudava até o colegial e o magistério (ensino médio), dificilmente fazia um curso superior, algumas faziam Direito, mas não exerciam a profissão ao casar, pois toda mulher tinha que cuidar da casa, dos numerosos filhos e do marido, sendo sustentada por ele.

A esposa não traia o marido, pelo menos isso não era divulgado (quando existia, era caso até de morte), porém, os maridos pegavam as empregadas domésticas e as barangas, além de terem uma amante (quando tinham dinheiro para sustenta-las) – não havia separação formal, ficavam juntos até a morte, mesmo em camas separadas – em eventos sociais, o marido levava sempre a esposa, jamais a amante.

A família era patriarcal, o pai mandava e decidia tudo, inclusive escolhia até a roupa que a mulher usaria ao sair para um evento social – algumas delas ficavam reclusas em suas casas (pelos maridos enciumados).

Os filhos tomavam benção dos pais, dos tios e avós – rezavam o Pai Nosso e a Ave Maria ao dormir, pois a grande maioria das famílias era católica - utilizava em suas casas um oratório com vários santos e não admitiam protestantes na cidade (havia muita rivalidade e até brigas) – todos iam às missas nas igrejas da Matriz, São Sebastião e Remédios.

Nos finais de tarde as famílias, por ainda não existir a televisão, colocavam cadeiras de embalo em frente de suas casas, para papear com os vizinhos, enquanto a meninada brincava de marmanja, cemitério e outras brincadeiras infantis, podendo permanecer na rua até às onze da noite – todos brincavam juntos (pobres e ricos), sem a existência de preconceitos entre eles, apesar de viverem em uma sociedade preconceituosa.

Os jovens do sexo masculino gostavam de “morcegar” os bondes (entrar e sair em movimento, sem pagar), deixavam vidros nos trilhos para fazer o cerol das linhas de papagaios - muitos deles tinham a iniciação sexual com empregadas domésticas ou com as prostitutas em pensões e no baixo meretrício.

As do sexo feminino eram mais vigiadas, namoravam apenas na sala de estar de sua casa, sob a supervisão de alguém da família – os namorados jamais saiam sozinhos, eram sempre acompanhados dos irmãos mais velhos ou alguém de confiança da família – aquelas moças que fossem pegas sozinhas com o namorado ficavam sendo faladas na cidade.

Amavam a cidade, gostavam de passear de bondes, principalmente nas linhas Saudade e Circular – frequentavam o Roadway (Porto de Manaus) nos finais de semana e sempre iam se despedir dos entes queridos que viajassem – gostavam das praças, sendo a Praça da Saudade a queridinha de todos – frequentavam em peso o Parque Amazonense (para assistir eventos esportivos) e ao Teatro Amazonas (shows e peças teatrais) e cinemas no Cine Guarany– a cidade era pequena, pacata, bonita, limpa, bem arborizada, sem violência urbana e muito boa para se viver.


Quem viveu os anos quarenta pode contar e registrar, foi o caso do nosso saudoso Senador Jefferson Péres. Tempos bons, hein? É isso ai.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

O DESAPARECIMENTO DOS BONDES E O SURGIMENTO DOS PRIMEIROS ÔNIBUS EM MANAUS


Os bondes elétricos prestaram um grande serviço à mobilidade urbana em nossa cidade, porém, com o inicio da Segunda Guerra Mundial, os ingleses que administravam a geração de energia elétrica e os bondes, começaram a ter problemas para atender a contento a população, o que motivou o seu declínio e o surgimento dos primeiros ônibus para suprir essa lacuna.

Com o início da guerra (1939), os ingleses tiveram muitas dificuldades em importar peças de reposição para os bondes e para as subestações de geração de energia elétrica, ocasionando apagões prolongados na cidade e deixando parados alguns bondes, revoltando a população.

Os bondes que sempre foram bem limpos, reluzentes e conservados, porém, na década de quarenta começaram a aparecer com os bancos quebrados e rasgados, sendo abandonados aos poucos pelos ingleses – eles alegavam que estavam tendo prejuízos financeiros, não sendo possível conservá-los e, muito menos, adquirir novos elétricos.

A população começou a se revoltar com essa precariedade, inclusive provocaram o incêndio de um deles.

Diante de tantos problemas nesse sistema de transporte, em 1951, o governo do estado resolveu encampar a companhia inglesa, por iniciativa do governador Álvaro Maia, provocando uma grande indignação por parte deles, vindo diretamente da Inglaterra até Manaus o Mr. Booth, dono da empresa Manaos Tramways, com o intuito de reverter a situação, não sendo aceito os seus argumentos.

O governo do estado não fez os investimentos necessários para a revitalização dos bondes, bem como, demonstrou um péssimo gerenciamento do sistema, sendo obrigado a desativar, em definitivo, a circulação dos bondes em Manaus.
Os bondes ainda serviram por um bom tempo para transporte de cargas para a sub-usina da Cachoeirinha (no final da Sete de Setembro, atual Eletrobras Manaus Energia).

O governador Plinio Coelho (PTB) em campanha política para o governo prometeu a volta dos bondes, no entanto, conseguiu apenas reativar uma linha, em 1957, sendo desativada em seguida.

Lamentamos, profundamente, pela falta de sensibilidade dos governantes em não manterem para as novas gerações de manauaras, pelo menos uma linha regular de bondes elétricos – como escreveu Jefferson Péres “A fim de preservar algo inseparável da memória da cidade” - algumas cidades brasileiras assim o fizeram, constituindo motivo de orgulho e respeito aos seus antepassados, além de servir como fonte de divisas com o turismo – a exemplo dos bondinhos de Santa Tereza, no Rio de Janeiro.

Em 1940, surgiram alguns ônibus de madeira não oficiais (piratas) para suprir, em parte, a deficiência de transporte público dos bondes elétricos – eram apelidados pelos manauaras como “Pirata”, “Perna- de-Pau” e “Periquito da Madame”, uma alusão as marchinhas de carnaval da época.

Esses ônibus foram comprados pelos ingleses, para abafar a concorrência e, posteriormente, deixados ao relento até apodrecerem.

Nesse mesmo ano, os automóveis de luxo começaram a circular em Manaus, eram de chapa brancas (do governo), de aluguel (pertenciam às garagens Avenida e Esportiva) ou de particulares (classe alta) – eram importados dos Estados Unidos, da marca Ford, Chevrolet, Buick, Packard, Studebaken e Cadillac, além dos ingleses Austin e Standard (acessíveis à classe média).

Na primeira fotografia antiga, na esquina das avenidas Eduardo Ribeiro e Sete de Setembro, aparecem um bonde e um ônibus, além de carros estacionados no primeiro plano (possivelmente um Austin e um Studebaker) e vários deles bem meio da avenida (provavelmente são de aluguel da Garagem Avenida).

Depois, surgiram novas empresas de ônibus, pois esse sistema de transporte popular caiu no gosto dos usuários, devido serem mais espaçosos, atendendo linhas onde os bondes não passavam e, não tinham problemas com falta de energia (que deixavam os bondes parados), além de serem mais baratos.

Atendiam, inicialmente, os bairros de Cachoeirinha e Educandos, posteriormente, para os demais bairros, onde houvesse ruas que lhes possibilitasse a circulação.

Os primeiros ônibus tinham a carroçaria em base de madeira, com cobertura de zinco, montados em chassi de caminhão – eram montados artesanalmente na Rua Wapés, no bairro da Cachoeirinha – tinham os nomes de Progresso, Brasil, Radiant, Monte Ararate, Torino, Girassol, Santa Helena, dentre outros.

Os ônibus entraram para valer com o fim da circulação dos bondes, ocorridano final da década de quarenta.


Em 1957, foi criado no governo do Plinio Coelho, a “Sociedade de Economia Mista Transportamazon” (não oficializada e desativada na década de 60), com a compra inicial de 10 ônibus e mais 15 veículos no ano seguinte.




A empresa “Viação Sul Americana”, sediada na cidade de Belém (PA) começou a fabricar um tipo de ônibus muito estranho, pois tinha um formato do dirigível “Zeppelin” – eles circularam naquela cidade e, também em Manaus – a carroceria era de madeira, ferro e flandres, pintados externamente na cor de alumínio, com o interior forrado em couro e os bancos acolchoados.

Alguns veículos tipo Kombi, da Volkswagen, foram transformados em lotação, sendo chamados pelos manauaras de “Expresso”.

Os ônibus de madeira que ficaram na história da cidade, foram os pertencentes à empresa “Ana Cássia”, de propriedade do empresário Cirilo Anunciação, conhecido pela alcunha de “Batará” –tinha a maior frota de veículos, além de provocarem o maior número de acidentes.

Os primeiros ônibus de ferro a circular na cidade vieram da fábrica “Marcopolo”, em São Paulo – aqui receberam o nome de “Hilariante”, apelidado pela rapaziada por “Rabo Quente”, em decorrência do superaquecimento da parte traseira (descarga vertical), impossibilitando aos mais afoitos a pratica de “morcegar” (carona sem pagar).

Apesar de todo o progresso dos dias atuais, com milhares de ônibus e outros veículos circulando pela cidade, os saudosistas ainda desejam alcançar um dia, a volta dos bondinhos elétricos na área história da nossa Manaus. É isso ai.

Fonte:
Blog:
Livros:
Manaus 1920-1967 A Cidade do Céu e Dura em Excesso. José Aldemir de Oliveira
Evocação de Manaus: como eu a vi ou sonhei. Jefferson Péres

Manaus, amor e memória. Thiago de Mello