Crônica
Baré de José Rocha
Muitos anos atrás, fui convidado
para participar de um bingo na Rua Frei José dos Inocentes, no centro antigo de
Manaus. Naquela tarde quente, de cadeiras na calçada e vizinhança unida, tive a
grata satisfação de conhecer a inesquecível Tia Nazinha. Fiquei na torcida para
que ela ganhasse o tão cobiçado aparelho de televisão, mas a sorte, naquela
noite, preferiu brincar de esconde-esconde.
Na semana seguinte, porém, o
empresário Augusto — proprietário da Máquinas e Equipamentos
— chamou-me para fazermos uma surpresa: entregar a ela uma TV novinha em folha.
A alegria dela parecia iluminar a rua inteira. Sua garra, o amor pelo samba e
pelo carnaval contagiam qualquer um que tenha o privilégio de cruzar o seu
caminho. Tia Nazinha é, em essência, a cara viva da nossa cidade.
Sempre sonhei entrevistá-la e
registrar sua história no nosso querido BLOGDOROCHA, mas o encontro nunca se concretizou. Por
isso, aproveito o belo trabalho do jornalista Paulo André Nunes, do Jornal
A Crítica, para prestar-lhe esta homenagem no coração do mês de
carnaval.
Nascida na década de 1930, em
Manaus, filha de pais barbadianos (da ilha de Barbados, na América Central),
Tia Nazinha já passou dos cem anos de idade — e está lúcida como poucas, falando com
firmeza, memória afiada e uma vitalidade que impressiona. A vida, no entanto,
não lhe foi fácil: criada em casa de família, sofreu maus-tratos, trabalhando
como se fosse escrava, chegando a ter o corpo marcado com ferro quente na
altura dos seios — cicatrizes que o tempo não conseguiu apagar.
Casou-se com Francisco Marques de Carvalho,
com quem teve 18 filhos
(8 ainda vivos), além de 50 netos e 58 bisnetos. Foi cozinheira e lavadeira de muitos
políticos, batalhando como guerreira para criar sua família numerosa.
Moradora histórica do centro,
tornou-se a figura mais querida e festejada da Rua Frei José dos Inocentes. E
não é para menos: Tia Nazinha foi a primeira baiana da Escola de Samba Aparecida, onde
desfilou por 36 anos.
Nunca deixou de participar, nem mesmo depois do acidente de 2014, quando sofreu
uma queda de ônibus e ficou com sequelas no joelho.
Certa vez declarou ao jornal:
“Sou Aparecida e amo meu bairro e
minha escola de samba até a morte. No dia do desfile eu fico boa e me apresento
como todos os anos. Nem que seja em cadeira de rodas, eu vou. Depois, se
precisar, eu vou para o hospital.”
Aos quinze anos, já brilhava nos
blocos de sujo da Avenida Eduardo Ribeiro:
“Fazíamos instrumentos como o
tambor e o tan-tan. Queimávamos jornais para esquentar os tambores e o
xeque-xeque, e as pessoas saíam cantando. Era Carnaval. Quantas saudades desse
tempo. Manaus é Manaus, né, maninho? Uma história abençoada por Deus.”
Participou também das escolas Unidos da Selva e
Em Cima da Hora,
hoje extintas, mas imortalizadas em sua memória afetiva.
Declarações que guarda como pedaços
de um tempo que não volta:
·
“Não é mais aquele Carnaval. Hoje
só se vê político jogando dinheiro fora, colocando fantasias luxuosas. Pobre
desce no chão com a fantasia comprada com o seu salário mínimo.”
·
“O Carnaval do passado era lindo
e maravilhoso, mas também era uma guerra entre Aparecida e Vitória Régia. As
pessoas brigavam, tinham amor e garra pela escola. E não se falava em
dinheiro.”
·
“Sem as baianas, as agremiações
não são nada. Tem que dar água para elas na hora do desfile.”
E completava com fé inabalável:
“Sou devota de Nossa Senhora Aparecida, Virgem Mãe. Todos os dias às 3h
eu rezo e tiro um terço ao deitar. Rezo por todos — imprensa, autoridades, pelo
meu presidente da escola. Que Deus nos proteja. Desejo um bom Carnaval a todos
e que Jesus nos abençoe.”
E é com imensa alegria que registro:
Mesmo com mais de cem anos, Tia
Nazinha estará presente no Bloco do Frei em 16 de fevereiro de 2026. Lúcida, sorridente e dona de uma
energia que desafia o tempo, fará questão de acompanhar a homenagem. Segundo um
de seus coordenadores, o cineasta e produtor cultural Bruno Pantoja: “O Bloco se tornou símbolo de
resistência cultural e engajamento comunitário. Em 2013, consolidou seu papel
como promotor da cultura local com o lançamento de um CD que enalteceu o
patrimônio histórico-cultural do centro antigo de Manaus.”
E como toda
boa crônica pede história, aqui vai a origem da rua que abraça Tia Nazinha. O
historiador Robério Braga
escreveu o seguinte:
“O nome civil e original de Frei José era José
Batista Mardel, paraense de nascimento. Antes de se tornar frei, foi soldado e
estudou em seminário, mas abandonou os estudos para se casar com Maria
Carmelita, com quem teve filhos. Enviuvando, retornou ao Convento dos
Carmelitas, sagrando-se Frei José dos Inocentes. Serviu na Amazônia como
capelão do Forte de São Joaquim, no Rio Branco, e depois no Lugar da Barra
(Manaus), onde atuou como Vigário-Geral. Foi um dos líderes do movimento de
1832 pela autonomia do Rio Negro em relação ao Pará. Morreu em Manaus em 1852.”
Parabéns
à Rua Frei José dos Inocentes, ao Bloco do Frei, aos seus coordenadores e,
sobretudo, à nossa estrela centenária:Tia Nazinha, patrimônio vivo do
carnaval baré.
Fontes:
Jornal A Crítica
Bloco do Frei
BLOGDOROCHA
Bruno Pantoja
Evangelista Trindade
Robério Braga
Fotos:
Bloco do Frei
Bruno Pantoja