terça-feira, 29 de setembro de 2026

A Fotografia e os Fios Invisíveis dos Dias dos Santos - Como uma imagem no IPHAN revelou a herança de amizade que moldou nossas famílias

 

É fascinante como certas coisas na vida não acontecem por acaso. Elas vão se entrelaçando silenciosamente até que, em um momento qualquer, o clique da fotografia de um quadro nos revela uma verdade oculta. Foi exatamente isso o que me aconteceu na qualidade de cronista: uma imagem capturada nas paredes do IPHAN/AM permitiu-me fechar um cerco temporal e descobrir que o passado guardava uma ligação profunda entre a minha família e a família Dias dos Santos.

Ao adentrar pela primeira vez na sede da Superintendência do IPHAN no Amazonas — um belíssimo casarão situado na Travessa Doutor Vivaldo Lima, nº 13, bem em frente ao Porto de Manaus —, meu objetivo inicial era técnico. Ia conversar com os especialistas sobre os antigos trilhos que ressurgiram na Rua Ferreira Pena. Contudo, antes de sair, resolvi fotografar um quadro que retrata o funcionamento daquele local durante a Belle Époque manauara.

Ao observar a imagem com mais atenção em casa, a história saltou aos olhos. Aquele prédio fora, no passado, a sede da firma Dias dos Santos & Cia. Ltda., originalmente conhecida pela razão social e pelo nome de seu principal estabelecimento: a Progredior – Oficina Mecânica e Fundição a Vapor. Tratava-se de uma das maiores e mais importantes indústrias metalúrgicas e navais de Manaus durante o auge do ciclo da borracha.

Fundada pelo imigrante português Antônio Dias dos Santos em 1894, a empresa funcionava no pavimento térreo do palacete, enquanto o andar superior servia de residência para a família. A firma especializou-se na fundição de ferro — sendo responsável pelas grades ornamentais de centenas de casarões históricos da cidade —, além do reparo rigoroso de caldeiras, motores, máquinas industriais e cascos de lanchas e vapores que singravam os rios amazônicos.

Com o passar dos anos, o fundador dividiu o comando e a sociedade com seus filhos, Antônio Maria Dias dos Santos e Joaquim Bernardo Dias dos Santos. A firma operou ativamente até meados do século XX. O palacete permaneceu com os descendentes até 1985, quando foi vendido ao Ministério da Cultura. Desde 1987, o prédio, totalmente preservado, serve como a sede regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Até aí, estamos diante de uma cronologia histórica que muitos manauaras conhecem. Mas, quando me detive a analisar os detalhes daquela fotografia, o panorama mudou. Uma indagação me assaltou o pensamento: “Será que existe alguma relação entre esses pioneiros e o Senhor João Dias, antigo dono do Estaleiro São Pedro, morador da Rua Major Gabriel e que foi amicíssimo de meu pai, o luthier Rochinha?”

Unindo os pontos, cheguei à conclusão de que sim. A Progredior era, essencialmente, uma oficina mecânica naval especializada em estruturas de embarcações e motores. Essa tradição de trabalhar com estaleiros e construção naval atravessou gerações. O Sr. João Dias (já falecido) foi o proprietário do tradicional Estaleiro São Pedro, localizado na área do "Amarelinho", no histórico bairro do Educandos — região que concentrou as principais atividades navais e de carpintaria de cascos da cidade. O sobrenome, a profissão idêntica e a linha do tempo batem perfeitamente com os ramos mais jovens da Família Dias dos Santos, que deram continuidade ao ofício naval após o fechamento da fundição central no Centro.

Lembro-me muito bem do Sr. João Dias. Ele morava na Rua Major Gabriel e gostava de visitar a Oficina de Violões do meu pai, José Rocha, que ficava na Rua Huascar de Figueiredo. Mesmo após o meu pai ter sofrido um AVC e ter ficado inválido para o trabalho, seu amigo nunca o abandonou; continuava a visitá-lo com frequência, ajudando-o no que fosse preciso. Era uma amizade fraterna, daquelas moldadas para durar uma vida inteira.

Mas a história ganha um contorno ainda mais emocionante na geração seguinte. Uma das filhas do Sr. João, a Maria Dias, casou-se com um dos descendentes da família Madeira, da Rua Tapajós — justamente onde minha família veio residir na década de sessenta. Dessa união nasceu Jean Dias que, devido a complicações no parto, cresceu com sequelas de paralisia cerebral.

Sua mãe, Maria, foi uma verdadeira guerreira. Para ajudar no desenvolvimento físico do filho, ela transformou o amor materno em profissão: tornou-se fisioterapeuta e, anos mais tarde, montou uma clínica no Vieiralves. Talvez pela antiga e terna amizade que unia nossos pais, a generosidade de Maria alcançou o meu velho luthier. Quando meu pai sofreu o AVC, ela se prontificou a ajudá-lo, realizando várias séries de exercícios de reabilitação de forma totalmente gratuita, no afã de recuperar a saúde do meu pai.

Hoje, os patriarcas já partiram. Meu pai e seu grande amigo João Dias já faleceram. Não tenho certeza se a querida Maria Dias ainda está entre nós, mas o fruto de sua luta, o atleta Jean Dias, continua vivo e brilhando nas piscinas. Em outubro de 2024, aos 50 anos de idade, ele conquistou o 1º lugar nos 800 metros livres no Campeonato Sul-Americano Master de Natação, realizado em Buenos Aires, na Argentina.

Jean é um paratleta de elite e um exemplo vivo de resiliência. Cada treino, cada competição e cada desafio superado refletem a garra de quem não se deixou abater pelas dificuldades, transformando-as em combustível para seguir adiante. Sua trajetória inspira não apenas o mundo esportivo, mas a todos nós que conhecemos os bastidores dessa história de superação.

A fundição que outrora moldou o metal da Manaus antiga terminou por fundir, também, uma rede invisível de amizade, solidariedade e gratidão. Uma herança de afeto que resistiu ao tempo e que agora, orgulhosamente, transformo em literatura.