É fascinante como certas coisas na vida não acontecem por acaso. Elas vão se entrelaçando silenciosamente até que, em um momento qualquer, o clique da fotografia de um quadro nos revela uma verdade oculta. Foi exatamente isso o que me aconteceu na qualidade de cronista: uma imagem capturada nas paredes do IPHAN/AM permitiu-me fechar um cerco temporal e descobrir que o passado guardava uma ligação profunda entre a minha família e a família Dias dos Santos.
Ao adentrar pela primeira vez na
sede da Superintendência do IPHAN no Amazonas — um belíssimo casarão situado na
Travessa Doutor Vivaldo Lima, nº 13, bem em frente ao Porto de Manaus —, meu
objetivo inicial era técnico. Ia conversar com os especialistas sobre os
antigos trilhos que ressurgiram na Rua Ferreira Pena. Contudo, antes de sair,
resolvi fotografar um quadro que retrata o funcionamento daquele local durante
a Belle Époque manauara.
Ao observar a imagem com mais
atenção em casa, a história saltou aos olhos. Aquele prédio fora, no passado, a
sede da firma Dias dos Santos & Cia. Ltda., originalmente conhecida
pela razão social e pelo nome de seu principal estabelecimento: a Progredior
– Oficina Mecânica e Fundição a Vapor. Tratava-se de uma das maiores e mais
importantes indústrias metalúrgicas e navais de Manaus durante o auge do ciclo
da borracha.
Fundada pelo imigrante português
Antônio Dias dos Santos em 1894, a empresa funcionava no pavimento térreo do
palacete, enquanto o andar superior servia de residência para a família. A
firma especializou-se na fundição de ferro — sendo responsável pelas grades
ornamentais de centenas de casarões históricos da cidade —, além do reparo
rigoroso de caldeiras, motores, máquinas industriais e cascos de lanchas e
vapores que singravam os rios amazônicos.
Com o passar dos anos, o fundador
dividiu o comando e a sociedade com seus filhos, Antônio Maria Dias dos Santos
e Joaquim Bernardo Dias dos Santos. A firma operou ativamente até meados do
século XX. O palacete permaneceu com os descendentes até 1985, quando foi
vendido ao Ministério da Cultura. Desde 1987, o prédio, totalmente preservado,
serve como a sede regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional.
Até aí, estamos diante de uma
cronologia histórica que muitos manauaras conhecem. Mas, quando me detive a
analisar os detalhes daquela fotografia, o panorama mudou. Uma indagação me assaltou
o pensamento: “Será que existe alguma relação entre esses pioneiros e o
Senhor João Dias, antigo dono do Estaleiro São Pedro, morador da Rua Major
Gabriel e que foi amicíssimo de meu pai, o luthier Rochinha?”
Unindo os pontos, cheguei à
conclusão de que sim. A Progredior era, essencialmente, uma oficina
mecânica naval especializada em estruturas de embarcações e motores. Essa
tradição de trabalhar com estaleiros e construção naval atravessou gerações. O
Sr. João Dias (já falecido) foi o proprietário do tradicional Estaleiro São
Pedro, localizado na área do "Amarelinho", no histórico bairro do
Educandos — região que concentrou as principais atividades navais e de
carpintaria de cascos da cidade. O sobrenome, a profissão idêntica e a linha do
tempo batem perfeitamente com os ramos mais jovens da Família Dias dos Santos,
que deram continuidade ao ofício naval após o fechamento da fundição central no
Centro.
Lembro-me muito bem do Sr. João
Dias. Ele morava na Rua Major Gabriel e gostava de visitar a Oficina de Violões
do meu pai, José Rocha, que ficava na Rua Huascar de Figueiredo. Mesmo após o
meu pai ter sofrido um AVC e ter ficado inválido para o trabalho, seu amigo
nunca o abandonou; continuava a visitá-lo com frequência, ajudando-o no que
fosse preciso. Era uma amizade fraterna, daquelas moldadas para durar uma vida
inteira.
Mas a história ganha um contorno
ainda mais emocionante na geração seguinte. Uma das filhas do Sr. João, a Maria
Dias, casou-se com um dos descendentes da família Madeira, da Rua Tapajós —
justamente onde minha família veio residir na década de sessenta. Dessa união
nasceu Jean Dias que, devido a complicações no parto, cresceu com sequelas de
paralisia cerebral.
Sua mãe, Maria, foi uma
verdadeira guerreira. Para ajudar no desenvolvimento físico do filho, ela
transformou o amor materno em profissão: tornou-se fisioterapeuta e, anos mais
tarde, montou uma clínica no Vieiralves. Talvez pela antiga e terna amizade que
unia nossos pais, a generosidade de Maria alcançou o meu velho luthier. Quando
meu pai sofreu o AVC, ela se prontificou a ajudá-lo, realizando várias séries
de exercícios de reabilitação de forma totalmente gratuita, no afã de recuperar
a saúde do meu pai.
Hoje, os patriarcas já partiram.
Meu pai e seu grande amigo João Dias já faleceram. Não tenho certeza se a
querida Maria Dias ainda está entre nós, mas o fruto de sua luta, o atleta Jean
Dias, continua vivo e brilhando nas piscinas. Em outubro de 2024, aos 50 anos
de idade, ele conquistou o 1º lugar nos 800 metros livres no Campeonato
Sul-Americano Master de Natação, realizado em Buenos Aires, na Argentina.
Jean é um paratleta de elite e um
exemplo vivo de resiliência. Cada treino, cada competição e cada desafio
superado refletem a garra de quem não se deixou abater pelas dificuldades,
transformando-as em combustível para seguir adiante. Sua trajetória inspira não
apenas o mundo esportivo, mas a todos nós que conhecemos os bastidores dessa
história de superação.
A fundição que outrora moldou o
metal da Manaus antiga terminou por fundir, também, uma rede invisível de
amizade, solidariedade e gratidão. Uma herança de afeto que resistiu ao tempo e
que agora, orgulhosamente, transformo em literatura.
