Há acontecimentos na história de Manaus que parecem ter sido retirados de um filme. A revolta de 15 de junho de 1913 é um deles. Vários fatores contribuiram para este acontecimento: havia uma rebelião dos policiais que estavam revoltados, sem receber seus vencimentos e ficaram no lado do povo, misturado com a revolta popular e ataque contra a empresa inglesa Manáos Improvements Limited Company, sangrava o povo com preços exorbitantes e cortava o abastecimento do precioso líquido, para vários bairros da cidade, além de ataques aos jornais que estavam divididos, com uns a favor e outros contra o governo e uma guerra política entre grupos que disputavam o poder no Amazonas, o governador e seu vice-governador.
Naquele
domingo, a cidade vivia uma situação difícil. O Amazonas atravessava uma grave crise financeira, a população estava insatisfeita com os serviços públicos e havia uma forte disputa política dentro do próprio governo.
No
centro de uma das maiores reclamações estava a Manaós Improvements, empresa
inglesa responsável pelo abastecimento de água e pelos serviços de esgoto da
capital. A companhia cobrava pelos serviços e havia grande insatisfação com as
tarifas e com os problemas no fornecimento de água. Para uma população que
dependia daquele serviço para cozinhar, beber e manter suas casas, ficar sem
água era coisa séria.
Houve
a ameaça formal de paralisar o fornecimento de água na capital devido a
pendências financeiras e dívidas e a força pública chegou a ser utilizada de
forma arbitrária para invadir residências e cortar a água dos inadimplentes,
gerando extrema indignação coletiva.
Mas
a história não começou na empresa inglesa. Tudo começou no quartel. Na tarde de
15 de junho, aproximadamente às 13h30, começou uma rebelião no quartel da Força
Policial, localizado na região da atual Praça Heliodoro Balbi, a conhecida Praça da
Polícia.
Parte
dos soldados se revoltou. Havia insatisfação dentro da corporação e problemas relacionados
ao pagamento dos militares, e aproximadamente cem praças participariam de um
levante. O comandante interino foi recebido a tiros e um tenente morreu.
O tiroteio tomou conta do quartel.
De
um lado estavam os policiais que permaneciam fiéis ao governo. Do outro, os soldados
rebelados. A situação ficou tão grave que alguns policiais tiveram de fugir,
inclusive pulando os muros do quartel.
O
governador do Amazonas era Jonathas de Freitas Pedrosa, diante da rebelião,
recorreu às tropas federais. O Exército entrou em ação, tropas de infantaria e
artilharia foram mobilizadas para enfrentar os revoltosos. Os homens que
ocupavam o quartel receberam ordem para se entregar, mas não se entregaram.
Então
aconteceu algo que hoje parece inacreditável: o Exército utilizou artilharia
contra o quartel da própria Polícia, canhões foram empregados para obrigar os
revoltosos a abandonar a posição. Depois de horas de tensão, o movimento foi
derrotado e o controle da cidade começou a ser restabelecido.
Mas
o pior ainda estava por vir. A revolta chega às ruas. Com a rebelião militar, a
população saiu às ruas. E foi nesse momento que a Manaós Improvements
entrou diretamente na história. Grupos de populares dirigiram-se às instalações da companhia inglesa. A revolta contra os serviços de água e esgoto transformou a empresa em um dos principais alvos da multidão.
Os
escritórios foram invadidos e depredados. Documentos e instalações foram
destruídos. Os manifestantes invadiram o prédio, destruíram os arquivos físicos
da concessionária e atearam fogo nas instalações. A empresa, que já era vista
com enorme desconfiança por parte da população, passou a enfrentar uma situação
praticamente insustentável. Após a destruição de sua sede e sob forte rejeição
popular, os administradores ingleses abandonaram os serviços e deixaram a cidade.
Também
houve ataques contra jornais. A imprensa estava dividida politicamente, e alguns jornais eram identificados com o governo ou com a oposição. Durante os tumultos, instalações jornalísticas foram atacadas e empasteladas, foi o caso
do O Jornal de Manaus. A cidade amanheceu depois de uma noite de violência, com
mortos, feridos, prisões, destruição e enorme tensão.
E
a política? É aí que a história fica ainda mais complicada. O governador Jonathas
Pedrosa tinha como vice-governador Antônio Guerreiro Antony. Os dois haviam se
transformado em adversários políticos.
Depois
da revolta, o grupo ligado ao governador passou a sustentar uma acusação gravíssima: a de que a rebelião não teria sido apenas uma revolta de soldados insatisfeitos. Segundo essa versão, existiria uma conspiração política para
derrubar Pedrosa, e até mesmo para matá-lo.
O
principal nome acusado foi justamente o do vice-governador, Guerreiro Antony,
que negou as acusações. E a briga política não ficou restrita a Manaus. O caso
chegou ao Rio de Janeiro e ao Senado Federal. O famoso jurista e senador Rui
Barbosa tomou posição em defesa de Antony e passou a atacar a versão
apresentada pelo governo amazonense.
E
a Manaós Improvements? A empresa inglesa também não esqueceu o que aconteceu.
Depois da destruição de suas instalações, começou uma longa disputa com o
Governo do Amazonas. A companhia reclamava indenização pelos prejuízos. O governo,
por sua vez, enfrentava uma situação financeira complicada e precisava resolver
o problema do abastecimento de água da população. Em 17 de agosto de 1913, o
governo estadual anulou o acordo com a companhia inglesa e iniciou o processo
que levou à incorporação de seus bens pelo Estado. Houve posteriormente uma
longa negociação para indenizar a empresa.
A
questão acabou se transformando em uma enorme conta para os cofres públicos. E é
justamente aí que a história fica ainda mais curiosa: a revolta de 15 de junho
não foi apenas uma briga do povo contra uma empresa de água.
O
desfecho dos acontecimentos culminou com uma indenização para à Manaos
Imporvements Limited, no valor de dez mil e quinhentos contos de réis, quantia
considerada exorbitante na época, porque o Teatro Amazonas tinha custado alguns
anos antes, com toda a sua beleza arquitetônica, o montante de dez mil contos
de réis. A Indenização, entretanto, não atingia apenas as instalações do prédio
da concessionária, estabelecida na Rua Izabel, 142, no centro de Manaus, mas
quitava dívidas anteriores, contraídas desde 1908, com a empresa americana Manaos Markets and Slaughterhouse, no governo transitório do coronel Raymundo Afonso de Carvalho, de curto período.
Por
isso, 15 de junho de 1913 não foi simplesmente uma revolta contra a empresa de
água. Foi uma explosão em que água, dinheiro, soldados, política e poder se
misturaram nas ruas de Manaus. E talvez seja justamente isso que torna aquele
domingo tão importante para compreender a história da nossa cidade. Manaus não
estava apenas brigando por água. Manaus estava brigando pelo poder.
Fontes:
Gaitano Antonaccio/Catador de Papéis/RevistaUSP/Jornal O Liberal-RJ/Jornal do
Commercio.