segunda-feira, 8 de agosto de 2016

O RETORNO DAS PASTORINHAS DO LUSO


Fiquei sabendo através do meu amigo José Luiz Silva, Diretor da Via Conta Serviços Contábeis, que o atual Presidente do Luso Sporting Club, o Flávio Vilhena, pretende viabilizar o retorno, em 2017, das Pastorinhas do Luso, em comemoração aos cem anos daquela peça teatral.


O Luso Sporting Club é uma agremiação de portugueses, fundada em 1912 (na Rua Saldanha Marinho), localizada na esquina das ruas Monsenhor Coutinho e Tapajós, centro antigo de Manaus - um bonito casarão remanescente da Belle Époque - pertencia ao seu fundador, o comerciante português Francisco Gomes Rodrigues (segundo os historiadores, foi destruído por uma grande incêndio e, o atual, foi reconstruído em 1936).

 Era de caráter desportivo, disputando o futebol amador manauara, no Parque Amazonense, encerrando a sua participação futebolística em 1934, passando. doravante, a exercer somente atividades sociais para os portugueses radicados em Manaus.  

Em 1917, iniciou uma atividade teatral, conhecidas como “As Pastorinhas do Luso”, uma encenação representando o Auto do Natal, iniciava em dezembro e ia até março do ano seguinte.

No início da minha adolescência, fui morar na Baixada da Vila Paraíso, entre a Avenida Getúlio Vargas e Rua Tapajós, onde tive a oportunidade de frequentar, regularmente, o Teatro Amazonas, Teatro Juvenil e Luso Club.

Não tinha a menor vocação para a encenação teatral, mas, fazia parte dos bastidores das “Pastorinhas do Luso”, na qualidade de ajudante do “Cão do Luso”, fazendo um trabalho pesado, apesar de ser franzino.

Ajudava na alavanca que impulsionava os capetas na saída de alçapão para entrarem em cena – além de colaborar com o enchimento de um cachimbão com pólvoras, onde eram jogados labaredas (língua de fogo) e, também, batendo nos pratos de bateria – era o momento mágico e aterrorizante para o público infantil, que se assustava e se abraçava fortemente nos braços de seus pais.

Segundo o livro “Manaus (1944-1968). Selda Vale da Costa e Ediney Azancoth. – Manaus: Editora Valer/Governo do Amazonas, 2001”, em agosto de 1917 o Teatro do Luso já apresentava as famosas “Pastorinhas”, inclusive, construíram uma escola chamada “João de Deus”, onde era formada a maioria dos artistas.

Um Folheto Informativo denominado “Movimento Luso 2000, lançado em 1997, publicado no citado livro, fazia o seguinte comentário:

” As Pastorinhas, ou Auto do Natal, do Luso, tomava conta do sentimento da cidade. Não havia uma só família que não levasse suas crianças para assistirem ao espetáculo. O anúncio das Pastorinhas era feito pelas próprias personagens que desfilavam pela pacata cidade em cima de um velho caminhão, todo enfeitado, como se fora um palco. As batidas dos pratos de metal despertavam atenção e alvoraçaram a população, mas a personagem que mais se destacava era Lúcifer. O famoso Cão do Luso, todo vermelho, com enorme garfo preto, fez muita criança correr em disparada buscando abrigo no colo dos adultos. Metia medo e sedução”.

Existiam vários atos, porém, o que mais me chamava à atenção era os que tinham a participação do Cão do Luso, por ser a parte mais divertida e aterrorizante!

Dois deles eram assim (conforme o livro da Selda e do Ediney):

A pastora perdida e Lusbel (o Cão do Luso).

A cena representava uma floresta fechada. O Diabo surge do alçapão numa gargalhada satânica.

LUSBEL – Há... Há... Há... Eis-me novamente em campo, prosseguindo no meu intento de em tudo contrariar esse Deus. (Grita para dentro do alçapão): Trinca Ferro!
TRINCA-FERRO (saltando) Pronto! Que ordenais?
LUSBEL – Come-Fogo!
COME-FOGO (saltando): Aqui estou!
LUSBEL – Feiticeiro!
FEITICEIRO – Hi... Hi... Hi...
LUSBEL – Gigantes-das-Trevas Que é isto? Estais amarelo?
TODOS – Nós, amarelos? Nunca!
LUSBEL – Nada de vacilações!
LUSBEL (canta):
No meu reino sou invencível
Lutarei até vencer
Contra Deus e contra tudo,
Far-me-ei obedecer.
TODOS (coro):
Não temer nem recuar.
O inferno nos protege
Em tudo vamos ganhar
LUSBEL:
Do inferno imperador
De minha grei rodeado
Serei sempre insubmisso
Mas não serei humilhado
(Ouve-se ao longe o canto da Pastora Perdida. Os diabos escutam, ocultando-se em seguida)
PASTORA PERDIDA:
Perdida eu vivo nesta solidão
Entregue somente às leis desta sorte
É minha sina. Ó, Deus, tem compaixão
Dá-me forças precisas para enfrentar a morte
Deus do Céu, enviai, por amor de Maria
Um anjo celeste e protetor, que me sirva de guia.
LUSBEL:
Pastora perdida, eu te guiarei
Por lindas estradas
Que meu reino tem
Se queres ser rainha
Diz-me que és minha
Possuo riqueza, sou homem de bem
PASTORA PERDIDA:
Não quero riqueza, nem tua bondade
Quero o meu pastor
Da minha igualdade. Vivo na pobreza
Abandono a riqueza
Eu só queria um guia
Que tivesse piedade.
LUSBEL:
Pois já que me recursas e me fazes sofrer, no reino do inferno tu vais padecer (chamando os infernais):
- Infernais! Amarrem-na e levem-na para o meu reinado para alegrar o nosso festim de hoje. Há... Há... Há... (Desaparece no alçapão).
PASTORA PERDIDA:
- Valei-me, São Miguel!
(São Miguel aparece de espada em punho)
SÃO MIGUEL – Para trás, espíritos infernais
 (São Miguel derrota os diabos e castiga Lusbel)
SÃO MIGUEL – A Cruz Divina quebrará o teu poder e te obrigará a rogar-te no chão (mostra a cruz)...
Agora, sobe ao teu trono para seres castigado e seres transformado em dragão.

As Pastorinhas ficaram em cena por cinquenta anos, os demônios eram encenados pelos portugueses (um deles, foi o José Azevedo, dono das lojas TV Lar), deveria ser muito engraçado a interpretação do “Cão do Luso” com sotaque lusitano - na minha época, todos os atores e atrizes eram brasileiros, dentre eles, o Lapinha e o Lapão (Belisca Lua), o Chaquinha, Walder e Batoré (Soldados Romanos) – esses eram meus vizinhos, além da Nossa Senhora, uma linda atriz que morava no bairro da Matinha.

Todos os atuais sexagenários que moravam nas proximidades do Luso Club, lembram-se daquele momento bonito e marcante - quando encontro com o meu irmão Rocha Filho e os amigos Julinho da Receita, Delfim, Sacy da Pareca, Faraó, dentre outros, sempre lembramos com carinho, respeito e saudade das Pastorinhas do Luso!

Ficarei na expectativa pela volta da peça teatral, pois além de poder frequentar o clube da minha adolescência, levarei os meus netos para assistiram as Pastorinhas do Luso. É isso ai.

Obs. Para conhecer mais sobre as pastorinhas, os interessados devem ler a Dissertação de Mestrado, da Elma Nascimento de Souza:


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