quinta-feira, 5 de abril de 2007

CINE GUARANI

CINE GUARANY

Freqüentava religiosamente o Cine Guarany, de preferência aos domingos, na sessão das 12h45min, passava sempre dois filmes, um de bang bang e outro romano.

Pela parte da manhã, eu e a molecada da Rua Igarapé de Manaus ficávamos tomando banho e pulando da Ponte Romana I, quando dávamos conta do horário já passava das 12h.

Corria até a minha casa, tomava um banho rápido para tirar o cauxi, vestia a minha roupa domingueira; não dava mais tempo para almoçar; saía correndo para assistir aos filmes no saudoso Cine Guarany.

Enquanto estava na fila para comprar o bilhete de ingresso, aproveitava para saborear um famosíssimo sanduíche de cachorro quente, servido com refresco de maracujá.

Ficava observando um mendigo chamado Jaú.
- uma esmolinha para o cego, uma esmolinha, por favor! Conseguia desviar-se dos homens; das mulheres nem tanto, era o famoso mão boba.

Gostava de ficar no lugar de cima, chamado de Poleiro; quando as luzes se apagavam era o momento certo para xingar e cuspir no pessoal que ficava no térreo, algumas vezes pegava alguns cascudos, outras vezes era advertido pelo lanterninha, era tudo diversão!

O sinal sonoro, o barulho dos ventiladores laterais, o fechamento das portas de madeira, a escuridão, a abertura das cortinas, o ataques dos veados em cima da macharada, os gols da rodada e a gritaria da molecada enxotando o urubu, tudo isso marcaram nossa infância.

Estou procurando um filme chamado Cine Paradiso, somente para matar a saudade do Guarany.

Abaixo transcrevo um comentário sobre este filme:

Cinema Paradiso
(Nuovo Cinema Paradiso, 1989)
Por Deivid Cardoso20/04/2004



Uma das coisas mais belas que a vida nos traz são as amizades que conseguimos ao longo dela. Não importa se são entre mulheres, homens, jovens, adultos, ou até entre crianças e adultos, desde que elas sejam verdadeiras. Isso é o que o diretor Giuseppe Tornatore, de Cinema Paradiso, nos mostra, em uma linda história entre uma criança que adorava ir ao cinema e o projecionista do local, que já era uma pessoa mais vivida. Quem é fã de cinema e já assistiu a esse filme sabe do que estou falando. Mas para os que somente o conhecem de nome, ou por ter ganhado o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1989, direi o que acho dessa bela obra.
O filme conta a trajetória desde a infância difícil, passando pelos problemas da adolescência, até a maturidade de Salvatore di Vitto (também conhecido por todos como Toto). O personagem foi interpretado por três atores diferentes: Salvatore Cascio (quando criança), Marco Leonardi (quando adolescente) e na fase adulta Jacques Perrin. A história se passa em uma Itália pós-guerra, na pequena cidade de Giancaldo. Um lugar onde todo mundo se conhece e a única atração restante é o velho Cinema Paradiso, aonde todos vão aos finais de semana para se divertirem um pouco.
Antes das sessões serem passadas ao público em geral, o padre local assiste ao filme da semana em particular para fazer a censura, cortando cenas que ele acha serem desprovidas de pudor. Isso sempre afetou as sessões, pois bem na hora daquele esperado beijo ardente, a cena é cortada para a seguinte, causando um furor entre os espectadores. Foi em uma dessas sessões de corte que o pequeno Toto, àquela época o coroinha do padre, que sempre freqüentava o cinema escondido dele, conheceu o projecionista do cinema, Alfredo (interpretado por Philippe Noiret). Assim, começou a amizade entre os dois, que a princípio não foi das melhores, pois o homem não gostava que o pequeno se metesse em seu trabalho. Também porque a mãe de Toto, que estava sempre à espera de seu marido que nunca voltaria da guerra, não aceitava que seu filho pequeno perdesse seu tempo indo ao cinema.
Por viver em um lar atormentado e ver no cinema sua única forma de esquecer os problemas de sua ainda curta vida, Toto foi perseverante e conseguiu que a amizade de Alfredo fosse conquistada. Agora os dois eram os projecionistas do Paradiso e podiam ver de camarote a alegria de um povo que via no cinema a sua forma de diversão. Tudo corria muito bem, até que um dia a película pega fogo, incendiando todo o cinema e fazendo com que Alfredo, salvo por Toto, ficasse cego, e o Paradiso fosse destruído por completo. Mas um morador local que havia ganhado na loteria e ficado milionário reconstruiu e o batizou de “Novo Cinema Paradiso”. Assim, Toto foi contratado e assumiu o cargo de seu velho amigo.
Os anos se passaram e o menino virou um adolescente cheio de vaidades e se apaixonou por uma moça, mas não foi retribuído. Sendo persistente como sempre, ele ganhou o seu amor. Mas foi por pouco tempo, pois ele teve de servir o seu exército e ela, ir para a faculdade. Voltando do exército, mas vendo que ali não tinha mais nada a fazer sem seu amor por perto, e com o conselho de seu velho amigo na cabeça, foi embora da cidade para tentar uma nova vida, onde veio a se tornar um cineasta, somente voltando trinta anos mais tarde, já amadurecido pela idade e pelas experiências de vida.
Cinema Paradiso não possui somente uma história tocante e de personagens sinceros e bem desenvolvidos. As tomadas são muito bem filmadas e o roteiro foi muito bem escrito pelo diretor e por Vanna Paoli (que foi uma colaboradora), mostrando um ambiente simples, mas ao mesmo tempo rico em personagens, mesmo os coadjuvantes, como o homem que se denomina dono da praça onde o cinema se localiza. A sequência em que os meninos ficam um pouco excitados com uma cena que está passando (isso quando o padre não as censurava mais) também é de uma inteligência rica.
Com um ambiente único e bem filmado, mostrando-nos nas expressões de cada personagem seus mais fortes sentimentos, Cinema Paradiso é uma ode à vida. O filme conta que a vida somente tem um sentido se temos alguma paixão e amizade para compartilhá-la, pois mesmo tendo muitos amores em sua vida, Toto nunca mais esqueceu de seu velho amigo e do Paradiso, que foi demolido para a construção de um estacionamento (essa é sem dúvida a cena mais emocionante do filme). Usando de palavras ditas pelo próprio personagem do filme, eu o descrevo como uma experiência “bela, mas triste”, pois todos nós, amantes do cinema, temos um pouco do Toto em nossos interiores.




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