Manaus.
Falo de Maria Moreira Gomes,
a inesquecível Dona Maria
Portuguesa.
Dona
Maria nasceu em 10 de maio
de 1887, numa Manaus que ainda se preparava para viver os seus
tempos de grandeza. Veio ao mundo um
ano antes da inauguração da Igreja de São Sebastião e nove anos antes do Teatro Amazonas
abrir suas portas. Era uma cidade que crescia e se iluminava com o dinheiro da
borracha, enquanto o destino daquela menina já parecia ligado ao coração
popular da cidade: o Mercado.
E
foi assim que aconteceu.
No
dia 17 de dezembro de 1919,
Dona Maria começou a trabalhar no Mercado Adolpho Lisboa, o
nosso querido Mercadão. E ali ficou praticamente a vida inteira. Imagine só: em
1986, com 99 anos de idade, ainda era vista no mercado, firme,
vendendo verduras, conversando com fregueses e cuidando do seu pequeno comércio
como quem cuida de um pedaço da própria história de Manaus.
Concedeu
uma entrevista ao Jornal do
Commercio. Contou que seu pai era português e sua mãe brasileira. O
pai trabalhava no mercado e transmitiu esse amor pelo comércio aos filhos. E
Dona Maria fez o mesmo com a geração seguinte, passando o ofício para os filhos
Jorge, Antônio e José Matos.
Nas
suas lembranças, ela falava de um Mercadão bem diferente do de hoje. Contava
que houve tempo em que o prédio era iluminado por lampiões de querosene. E
lembrava também do bonde,
que passava bem em frente, trazendo fregueses do centro da cidade para comprar
peixe, frutas, verduras e ouvir as novidades do dia.
Mas
Dona Maria não vivia apenas do mercado. Em casa, cultivava uma horta famosa em
Manaus: a “Horta da
Vitória”, localizada na Rua
Dr. Machado, em um terreno que pertencera à sua avó. A horta
era tão caprichada que chegou a receber prêmio como a melhor horta da cidade.
Certa
vez, em entrevista ao jornal A
Crítica, Dona Maria deu uma receita simples para enfrentar tempos
difíceis. Disse assim:
—
“Para enfrentar a crise,
nunca pare de trabalhar!”.
E
não era frase de efeito, não. Era filosofia de vida.
Mesmo quase chegando aos cem anos, ela acordava às quatro horas da manhã para preparar as
verduras e seguir para o Mercadão.
Entre
seus filhos estava o conhecido Antônio,
figura popular no mercado, apelidado carinhosamente de “Antônio Macumbeiro”. Ele
mantinha um box vendendo artesanato e artigos religiosos de umbanda. Antônio
também foi diretor da União
Esportiva Portuguesa, o lendário “Sambão” da Avenida Joaquim Nabuco,
um dos redutos tradicionais do samba manauara.
Com
o passar do tempo, o box passou para Alberto,
meu compadre, que até hoje mantém o negócio vivo com o seu irmão, no mesmo
ponto onde o pai trabalhou, como quem preserva uma pequena herança da história
do Mercadão.
Dona
Maria morou muitos anos com filhos e netos no fim da Travessa Dr. Machado,
área que hoje faz parte do Prosamim. Depois, a família comprou um terreno na Rua Major Gabriel, onde
seus descendentes continuam vivendo até hoje.
Histórias
assim não podem desaparecer nas brumas do tempo.
Porque
Dona Maria Portuguesa não foi apenas uma vendedora de verduras do mercado.
Ela
foi, na verdade, uma dessas
mulheres anônimas que ajudaram a construir Manaus com trabalho, coragem e
dignidade.
E
por isso, neste Dia Internacional da Mulher, fica aqui a lembrança: no coração
do velho Mercadão ainda parece ecoar a voz firme de Dona Maria Portuguesa —
mulher de fibra, dessas que o tempo não consegue apagar.
Fontes: Livro 'MEMÓRIA BARÉ: CRÔNICAS DE JOSÉ ROCHA'
