Com a consolidação da Zona
Franca de Manaus e a presença crescente de militares, profissionais e
empresários no Estado, a migração de gaúchos para a Amazônia deixou marcas
profundas.
Ao longo das décadas, essa
presença foi se intensificando — tanto na capital quanto em cidades como Apuí —
criando uma ponte afetiva entre dois mundos geograficamente distantes, mas
culturalmente próximos naquilo que mais importa: coragem, trabalho e respeito
mútuo. O povo amazonense, orgulhoso de suas raízes, aprendeu também a amar o
tradicionalismo gaúcho.
Muito antes desse fluxo
migratório, a região já reverenciava o gaúcho José Plácido de Castro, natural
de São Gabriel (RS) e protagonista da Revolução Acreana. Anos mais tarde, a
chegada dos sulistas ao Amazonas e aos estados vizinhos se deu por
investimentos agrícolas, comércio, serviços e, sobretudo, pela influência
militar. O Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS) e o Colégio Militar de
Manaus, criados sob a gestão do então prefeito Jorge Teixeira — ele próprio
gaúcho — trouxeram oficiais e sargentos que aqui fixaram residência e formaram
novas gerações de manauaras.
Na minha juventude, tive a
honra de conhecer alguns desses pioneiros. Ivan Bertolini, dono de uma
gargalhada inconfundível, instalou em Manaus, junto com o irmão, a
Transportadora Bertolini Ltda. Mais tarde, tornei-me amigo de Marcos Gaúcho,
empreendedor que aqui construiu família e permanece até hoje como figura
conhecida do Bar do Armando. Converso com ele até hoje pelas redes sociais.
Poucos anos atrás, conheci
Matuzalem Pereira (natural de São Francisco de Paula – RS), mais conhecido como
Matuza. Ainda jovem, veio para Manaus gerenciar o Hotel Taj Mahal,
empreendimento imponente no Centro. Profissional dedicado da hotelaria, Matuza
ajudou a preservar, junto com outros gaúchos, o tradicionalismo sulista.
Tornou-se figura querida da Vila Paraíso, na Avenida Getúlio Vargas, onde
ensinava aos jovens danças de salão e ritmos tradicionais.
Em 2009, organizou o programa
Raízes do Sul em Manaus, filmado no Sheik Club, ao lado do Patrão do CTG 20 de
Setembro, Rubens Estivalet (natural de Santiago - RS). O projeto mostrou ao Brasil e ao mundo que, mesmo
distante dos pampas, Manaus vivia o tradicionalismo gaúcho com autenticidade. A
equipe de gravação se surpreendeu ao encontrar jovens manauaras que dançavam
como veteranos, sem nunca terem viajado ao Rio Grande do Sul.
A festa ficou registrada para
sempre no Youtube, Matuza ainda levou um grupo de dançarinos para se apresentar
em Porto Alegre — uma experiência emocionante que marcou gerações. Hoje
aposentado, vive no Rio de Janeiro, mas sua memória permanece viva entre nós.
Outro sulista que deixou sua
marca na cidade foi o Luiz Antônio (natural de Campo Mourão - PR), que veio para Manaus
gerenciar a antiga Lojas Americanas, na esquina da Saldanha Marinho com a
Eduardo Ribeiro. Aqui criou família e abriu a 'Paraná Conveniência', na Rua Dez
de Julho — local que até hoje frequento para ouvir histórias de Manaus e
acompanhar programas tradicionalistas do Rio Grande do Sul.
Apesar do tempo, os gaúchos
continuam migrando para Apuí, no extremo sul do Amazonas, onde se dedicam à
criação de gado e ao cultivo de cacau, arroz e milho. Em Manaus, os CTGs —
Rancho Manaus, 20 de Setembro e Unidos Pelas Raízes — mantêm vivas as
tradições: danças, churrasco, música, poesia e chimarrão. São espaços que
aproximam gaúchos, manauaras e simpatizantes no coração da selva amazônica.
Como diz o Hino Rio-Grandense, “Sirvam nossas façanhas de modelo a toda a
terra”.
Manaus e os gaúchos se
encontraram e se reconheceram. Dessa união nasceu uma identidade híbrida, feita
de histórias, sabores, afetos e saudades cruzadas. Uma mistura que mostra como
culturas distantes podem se abraçar e se tornar parte de uma mesma memória.
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