quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Os Gaúchos em Manaus: Tradição e Encontro de Culturas




 Com a consolidação da Zona Franca de Manaus e a presença crescente de militares, profissionais e empresários no Estado, a migração de gaúchos para a Amazônia deixou marcas profundas.

Ao longo das décadas, essa presença foi se intensificando — tanto na capital quanto em cidades como Apuí — criando uma ponte afetiva entre dois mundos geograficamente distantes, mas culturalmente próximos naquilo que mais importa: coragem, trabalho e respeito mútuo. O povo amazonense, orgulhoso de suas raízes, aprendeu também a amar o tradicionalismo gaúcho.

Muito antes desse fluxo migratório, a região já reverenciava o gaúcho José Plácido de Castro, natural de São Gabriel (RS) e protagonista da Revolução Acreana. Anos mais tarde, a chegada dos sulistas ao Amazonas e aos estados vizinhos se deu por investimentos agrícolas, comércio, serviços e, sobretudo, pela influência militar. O Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS) e o Colégio Militar de Manaus, criados sob a gestão do então prefeito Jorge Teixeira — ele próprio gaúcho — trouxeram oficiais e sargentos que aqui fixaram residência e formaram novas gerações de manauaras.

      A cultura gaúcha logo se incorporou ao cotidiano da cidade. As churrascarias, especialmente a tradicional Gaúchos Churrascaria, tornaram-se símbolos dessa convivência. E, apesar das distâncias continentais e do clima quente e úmido da Amazônia, muitos gaúchos se apaixonaram por Manaus e pelo acolhimento generoso de nosso povo. Estima-se que, no final do século XX, cerca de 700 mil gaúchos estivessem espalhados pelo Brasil, incluindo a região Norte.

Na minha juventude, tive a honra de conhecer alguns desses pioneiros. Ivan Bertolini, dono de uma gargalhada inconfundível, instalou em Manaus, junto com o irmão, a Transportadora Bertolini Ltda. Mais tarde, tornei-me amigo de Marcos Gaúcho, empreendedor que aqui construiu família e permanece até hoje como figura conhecida do Bar do Armando. Converso com ele até hoje pelas redes sociais.

       Todo manauara antigo lembra-se também de Alceu Pereira, o gaúcho criador do famoso Kikao, nome dado ao sanduíche Hot Dog vendido em seu trailer no Largo de São Sebastião, onde hoje funciona o African House.

       Outro caso curioso foi o de Nonato Silva, irmão da Delegada Graça Silva. Músico do Hotel Amazonas, Nonato conheceu a cantora gaúcha Lisete Cheslak durante um passeio de barco da Amazon Explorers. Três meses depois, já estava em Porto Alegre — voltou noivo. No Sul, passou a ser carinhosamente apelidado de Manaucho, mistura de manauara com gaúcho.

Poucos anos atrás, conheci Matuzalem Pereira (natural de São Francisco de Paula – RS), mais conhecido como Matuza. Ainda jovem, veio para Manaus gerenciar o Hotel Taj Mahal, empreendimento imponente no Centro. Profissional dedicado da hotelaria, Matuza ajudou a preservar, junto com outros gaúchos, o tradicionalismo sulista. Tornou-se figura querida da Vila Paraíso, na Avenida Getúlio Vargas, onde ensinava aos jovens danças de salão e ritmos tradicionais.

Em 2009, organizou o programa Raízes do Sul em Manaus, filmado no Sheik Club, ao lado do Patrão do CTG 20 de Setembro, Rubens Estivalet (natural de Santiago - RS). O projeto mostrou ao Brasil e ao mundo que, mesmo distante dos pampas, Manaus vivia o tradicionalismo gaúcho com autenticidade. A equipe de gravação se surpreendeu ao encontrar jovens manauaras que dançavam como veteranos, sem nunca terem viajado ao Rio Grande do Sul.

A festa ficou registrada para sempre no Youtube, Matuza ainda levou um grupo de dançarinos para se apresentar em Porto Alegre — uma experiência emocionante que marcou gerações. Hoje aposentado, vive no Rio de Janeiro, mas sua memória permanece viva entre nós.

Outro sulista que deixou sua marca na cidade foi o Luiz Antônio (natural de Campo Mourão - PR), que veio para Manaus gerenciar a antiga Lojas Americanas, na esquina da Saldanha Marinho com a Eduardo Ribeiro. Aqui criou família e abriu a 'Paraná Conveniência', na Rua Dez de Julho — local que até hoje frequento para ouvir histórias de Manaus e acompanhar programas tradicionalistas do Rio Grande do Sul.

Apesar do tempo, os gaúchos continuam migrando para Apuí, no extremo sul do Amazonas, onde se dedicam à criação de gado e ao cultivo de cacau, arroz e milho. Em Manaus, os CTGs — Rancho Manaus, 20 de Setembro e Unidos Pelas Raízes — mantêm vivas as tradições: danças, churrasco, música, poesia e chimarrão. São espaços que aproximam gaúchos, manauaras e simpatizantes no coração da selva amazônica. Como diz o Hino Rio-Grandense, “Sirvam nossas façanhas de modelo a toda a terra”.

Manaus e os gaúchos se encontraram e se reconheceram. Dessa união nasceu uma identidade híbrida, feita de histórias, sabores, afetos e saudades cruzadas. Uma mistura que mostra como culturas distantes podem se abraçar e se tornar parte de uma mesma memória.

Fontes: Matuzalem / Paraná Conveniência / BLOGDOROCHA / Graça Silva / YouTube – Raízes do Sul.
Foto: Matuza e o Patrão Rubens Estivalet

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