Na tarde de 21 de abril de 1913, Manaus parou para olhar o céu. Pela primeira vez, um homem desafiava a gravidade diante de milhares de espectadores. Entre o espanto, a curiosidade e a admiração, a capital da borracha testemunhava um acontecimento que marcaria para sempre a sua história: o primeiro voo de um aeroplano sobre a cidade.
Passados cento e treze anos, registro neste livro a história desse
extraordinário acontecimento. Reúno também fotografias do local onde ocorreu
essa façanha histórica, bem como imagens do aviador francês Lucien
Deneau e de seu aeroplano Libellule, protagonista do
primeiro voo realizado nos céus de Manaus.
No dia 16 de abril de 1913, aportou no Roadway de Manaus o
paquete do Lloyd Brasileiro Sergipe. Em seu tombadilho era
transportado um aeroplano francês do sistema Blériot,
denominado Libellule, juntamente com seu piloto, o aviador
civil e militar francês Lucien Deneau, que viera especialmente
à capital amazonense para realizar demonstrações aéreas, um feito inédito na
região.
A aeronave foi levada para um hangar improvisado em um antigo barracão do Theatro
Alhambra, localizado na Avenida Eduardo Ribeiro, onde permaneceu até a
tarde do dia 21 de abril, data escolhida para a histórica
apresentação.
Na manhã desse dia, o aeroplano foi colocado sobre um caminhão-reboque da Manáos
Tramways, que, por sua vez, foi atrelado a um bonde. O curioso comboio
partiu da Estação dos Bondes, na Praça do Commercio, por volta das oito horas
da manhã, seguindo em direção ao Hyppódromo Amazonense, mais
conhecido como Prado Amazonense. Anos depois, aquele espaço
passaria a chamar-se Parque Amazonense, tornando-se uma
tradicional praça esportiva da cidade.
Na época, o Prado Amazonense era um dos principais centros de lazer de
Manaus, onde, todos os domingos, realizavam-se concorridas corridas de cavalos,
iniciadas às duas horas da tarde.
A expectativa em torno do voo era tão grande que o serviço de bondes, mesmo
reforçado pela companhia, mostrou-se insuficiente para transportar a multidão.
Após o espetáculo, milhares de pessoas retornaram ao centro da cidade a pé,
devido ao adiantado da hora e à falta de condução. Todos os automóveis e carros
de aluguel disponíveis foram contratados para transportar as famílias que
desejavam regressar com maior conforto.
As corridas de cavalos transcorreram normalmente naquele 21 de abril
de 1913, mas foi às 17 horas e 15 minutos que o
momento mais aguardado finalmente aconteceu. O Libellule
deixou o solo e, durante aproximadamente quinze minutos,
Lucien Deneau executou diversas evoluções aéreas que impressionaram o público.
Ficaram evidentes, para todos os presentes, sua habilidade, coragem e
extraordinária perícia.
O Prado Amazonense, suas arquibancadas e arredores estavam completamente
tomados por uma multidão estimada em mais de três mil pessoas.
Entre os presentes encontravam-se o governador do Estado, Dr. Jonathas
Pedrosa, o Superintendente Municipal de Manaus, além de diversas
autoridades civis, militares e convidados.
Pela primeira vez, os manauaras contemplavam um homem dominando os céus a
bordo de um aeroplano. A emoção tomou conta da sociedade amazonense. Entre o
receio e o encantamento, milhares de olhos acompanharam aquela frágil máquina
voadora que, como um grande condor, deslizava pelos ares obedecendo aos
comandos firmes de seu piloto.
Ao término do voo, Lucien Deneau realizou uma aterrissagem perfeita, sendo
calorosamente aplaudido pela multidão e cumprimentado pelo governador e pelas
demais autoridades presentes.
Na edição de 22 de abril de 1913, o Jornal do
Commercio publicou uma fotografia histórica do acontecimento,
registrada por uma máquina Kodak. A imagem, reproduzida neste
livro, foi restaurada e colorizada com o auxílio da Inteligência Artificial do ChatGPT,
preservando, tanto quanto possível, suas características originais.
A manchete do jornal dizia:
"O HOMEM PÁSSARO — Lucien Deneau assombrou ontem o povo com
seus arrojados voos."
Na fotografia é possível observar a arquibancada do Prado Amazonense e, ao
lado, o aeroplano Libellule. O nome da aeronave significa "Libélula",
em francês, uma referência à leveza, à agilidade e às delicadas asas da
máquina, que lembravam o elegante inseto e simbolizavam o espírito pioneiro da
aviação no início do século XX.
No dia 26, após previamente convidar a imprensa,
por volta das cinco horas da tarde, Lucien Deneau elevou-se rapidamente a
grande altura, descrevendo um amplo giro sobre toda a cidade. A população,
maravilhada, acompanhava com os olhos aquela extraordinária ave mecânica que
fendia os ares em vertiginosa carreira, aplaudindo entusiasmada a façanha.
No dia seguinte, despediu-se da população de Manaus
realizando verdadeiras proezas aéreas. No Hyppodromo Amazonense, a aglomeração
era imensa, tanto no interior quanto nas imediações do vasto campo esportivo.
Encerrada a festa hípica, por volta das quatro e meia da tarde, Deneau retirou
o Libellule do hangar. Em poucos instantes, o veloz monoplano ganhou os
ares, alcançando grande altitude e executando diversas manobras. Cada vez que
sobrevoava as arquibancadas do Hyppodromo, era saudado por uma prolongada salva
de palmas da multidão.
Após alguns minutos de exibição, realizou uma
aterrissagem precisa sobre o ponto onde estavam hasteadas as bandeiras da
França e do Brasil. Em seguida, efetuou mais dois voos, cujo êxito em nada foi
inferior ao primeiro. No terceiro, sobrevoou a cidade, cruzando-a de norte a
sul e de leste a oeste, proporcionando aos manauaras um espetáculo jamais
visto.
Assistiram às demonstrações no Hyppodromo
Amazonense o superintendente municipal, Dr. Jorge de Moraes, e o chefe de
Polícia, Dr. João Lopes.
Concluídas as apresentações em Manaus, Lucien Deneau
embarcou, no dia 1.º de maio de 1913, a bordo do paquete Pará,
levando consigo o Libellule. Em entrevista concedida aos
jornais da época, despediu-se da cidade informando que seguiria viagem para Recife,
onde realizaria novas demonstrações de voo.
Onze anos depois, os céus de Manaus voltariam a ser palco
de outro momento memorável. Na manhã de 7 de setembro de 1924,
em homenagem ao Dia da Pátria, chegaram à cidade, desta vez com asas
brasileiras, os hidroaviões Eleanor I, Eleanor II
e Eleanor III, pertencentes ao Destacamento do Norte, sob o
comando do General Menna Barreto. Iniciava-se, assim, um novo
e importante capítulo da história da aviação amazonense.
Foto: Jornal do Commercio, 1913 - O Prado Amazonense completamente tomado pelo público durante a apresentação do primeiro voo de um aeroplano em Manaus, realizada em 21 de abril de 1913. Ao lado, Lucien Deneau posa diante do aeroplano Libellule, protagonista da histórica demonstração aérea que inaugurou a aviação na capital amazonense. Fotografias publicadas pelo Jornal do Commercio em 22 de abril de 1913 e restauradas digitalmente com o auxílio da Inteligência Artificial.
Livro 'Nos Trilhos dos Bondes de Manaus, José Rocha'

