domingo, 17 de fevereiro de 2008

SILVINO SANTOS - BIBLIOTECA VIRTUAL DO AMAZONAS




Silvino Santos (Flávio Araújo Lima Bittencourt)
Em 1969 realizou-se o I Festival Norte do Cinema Brasileiro. Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, foi considerado o melhor filme. Na sessão de encerramento, um senhor de 82 anos, desconhecido pelos artistas que estavam em Manaus, subiu ao palco do cinema Odeon para receber um trófeu. Silvino Santos, o pioneiro do cine-documentário no Amazonas, estava sendo homenageado. Depois de longos anos de esquecimento, finalmente o grande fotógrafo e genial pioneiro do cinema passava a ser conhecido pelo jovem público brasileiro. Silvino Simões Santos Silva nasceu em Sernache de Bomjardim, pequena cidade portuguesa. Filho de Antônio Simões Santos Silva, um professor de música e de Vírginia Silva, Silvino Santos, ainda muito jovem, partiu para tentar a vida na lendária Amazônia. Chegando a Belém do Pará foi trabalhar no comércio. Aprendeu a fotografar nesta época já demonstrando enorme talento, foi descoberto por um dos mais poderosos seringalistas da Amazônia Peruana, o Sr. Júlio Cezar Araña. Araña era responsável pela Peruvian Amazon Co. e queria sensibilizar os acionistas ingleses, que estavam indignados pelas acusações de Hardenburg, um missionário americano. Hardenburg afirmava que no rio Putumayo, Aranã escravizava e assassinava indígenas. Este foi defender-se no Tribunal dos Comuns em Londres e percebeu que havia uma novidade sensacional que poderia servir como veículo de propaganda. Era o cinematógrafo. Araña financiou a viagem de Silvino a Paris. As usinas dos irmãos Pathé e os laboratórios dos Lumière eram diariamente freqüentados pelo rapaz que precisava de películas resistentes ao calor tropical. Retornando ao rio Putumayo, onde se havia estabelecido, Silvino rodou o filme que mostrava os seringais de Araña (1912). Em 1913, casou-se com Anna Maria Schermuly, descendente de alemães, que estava sendo tutelada por Araña. Em 1914, o filme rodado no Peru ia ser copiado nos Estados Unidos, mas submergiu, pois o navio onde se encontravam os negativos foi colocado a pique na I Guerra Mundial. Silvino Santos se estabeleceu em Manaus e seu segundo filme também se perdeu. Em 1918, o comerciante Manoel Gonçalves resolveu fundar a Amazônia Cine Film e foi realizada a película documental Amazonas, o Maior Rio do Mundo. O empresário Avelino Cardoso participava do empreendimento. O noivo de sua filha, Propércio Saraiva, a título de copiar o filme em Londres, desapareceu com os originais deixando o cineasta em difícil situacão financeira. A firma se dissolveu e o material cinematográfico foi arrematado pelo Comendador Joaquim Gonçalves de Araújo. Silvino iria conhecer o sucesso. Em 1921 filmou No Paiz das Amazonas, filme de rara beleza fotográfica, exibido no Cinema Pathé do Boulevard des Italiens, em Paris, e nos principais centros da Europa. O lançamento comercial no Rio de Janeiro, se deu em 02 de abril de 1923 no cinema Palais. O Jornal O Paiz comentou: “Chama-se No Paiz das Amazonas e é uma estupenda licão de coisas. Paisagens, maravilhas phisicas, riquezas naturaes, progressos economicos, typos, costumes, cidades, tudo se projecta nessa empolgante pellicula, que o Sr. Presidente da República teve ensejo de admirar, com todos os Ministros de Estado, no Palácio do Cattete e a que não poupou honrosos encomios”. Esse filme foi produzido incialmente para ser exibido na Exposicão Comemorativa do Centenário da Independência. No Rio de laneiro, Silvino filmou a Exposicão, na qual seu filme fez enorme sucesso, e rodou o documentário Terra Encantada, focalizando os mais variados aspectos da Capital Federal. Em 1924/25 realizou No Rasto do EI-Dorado, documentação cinematográfica da Expedicão Alexander Hamilton Rice, outro sucesso estrondoso. Produziu ainda Terra Portuguesa, focalizando aspectos de Portugal, onde permaneceu de 1925 a 1927 com a família Araújo. Trabalhou até o fim de sua vida na firma do Comendador Araújo. Teve um casal de filhos, Guilherme (1914) e Lilia (1916). Quando já não mais produzia longa-metragens, Silvino fazia “shorts” para serem exibidos na Fábrica de Cerveja e Gelo de Miranda Corrêa e Cia. Era um ambiente refinado onde a sociedade amazonense ia se admirar na tela do cinematógrafo. Em 1970, os cineastas Roberto Kahané, Domingos Demasi Filho e Paulo Sérgio Muniz realizaram o curta-metragem Silvino Santos, o Fim de um Pioneiro. Silvino Santos faleceu em Manaus a 14 de maio de 1970. Anna Maria faleceu em 1979. Em novembro e dezembro de 1981, realizou-se, na Galeria de Arte Afrânio de Castro em Manaus, uma exposição fotográfica comemorativa dos 95 anos de nascimento do cineasta. Como se vê, o cinema, arte de suporte material tecnológico, não foi introduzido no Amazonas sem a dose de poesia e criatividade característica das produções dos grandes artistas de nosso século. Filmografia1912 - Filme rodado no Rio Putumayo1918 - Amazonas, O Maior Rio do Mundo1921 - No Paiz das Amazonas1922 - Documentação cinematográfica da Exposição da Independência1923 - Terra Encantada1924 - Documentação cinematográfica da Intervenção Federal no Estado do Amazonas, no episódio do golpe de Ribeiro Júnior1924/25 - No Rasto do El-Dorado1925/27 - Terra PortuguesaFontes:1. ALENCAR, Miriam. Silvino Santos no Rastro das Amazonas. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 08 ago. 1970.2. BITTENCOURT, Agnello. Dicionário Amazonense de Biografias. Rio de Janeiro, Conquista, 1973.3. MONTEIRO, Mário Ypiranga. Um Jovem Cineasta, Jornal do Comércio, Manaus, 27 dez. 1975.4. RANGEL, Carlos. Um Herói à Antiga. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, nº 50, 1969.5. RICE, Hamilton. Exploração da Guiana Brasileira. São Paulo, EDUSP, 1978.6. SOUZA, Márcio. A Expressão Amazonense. São Paulo, Alfa-Ômega, 1977.7. STEVENS, Albert W. Exploring the Valley of the Amazon in a Hidroplane. The National Geographic Magazine, nº 4, 1926
Silvino Santos,um genial pioneiro Durante a filmagem de No Rasto do El-Dorado (1924/25): “Santos, o cinegrafista, descobriu esta grande árvore, crescendo na margem do rio, onde a água estava à mão. Ele observou suas vantagens naturais e a converteu em laboratório. À noite, com um pedaço de lona amarrado ao redor das raízes para manter afastada a luz, poderia revelar os filmes. Entusiasta pelo seu trabalho, vinha pelo campo com a lanterna ou vela, com um pé ou dois de filme, mostrando a todos o que teve a sorte de conseguir. Se ele não aparecesse todos sabiam que o seu dia tinha sido um fracasso”. (Albert Stevens. Foto The National Geographic Magazine) .
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