sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

HISTÓRIA EM RUÍNAS - I PARTE

Fonte:
Revista Empório Cult
Por Alfredo Loureiro e Sebastião Reis
Fotos Fernanda Preto e arquivo Empório

Primeiro, a pesquisa minuciosa. Depois, a investigação em busca do que outrora foi a usina hidrelétrica da Cachoeira Grande, uma das primeiras do País. Descortinar a historia por entre amontoados de palafitas na Rua da Cachoeira, no bairro de São Jorge, em Manaus, é vislumbrar um passado da cidade que se perde diante da poluição. As ruínas imponentes do que restou do prédio, escondidas entre construções toscas que se equilibram sobre toras de madeira às margens do igarapé de águas fétidas, surgem insistindo em ficar.
O passado daquela obra magnífica pode nos ensinar como não construir o futuro. Nos últimos 140 anos, se destruiu de maneira irresponsável aproximadamente 140 quilômetros dos mananciais hídricos que serpenteavam Manaus, O primeiro igarapé a ser aterrado, o igarapé da Manaus Harbour, no centro da cidade. O desastre ambiental motivado pelo habito da população de jogar dejetos e cortar a mata ciliar dos igarapés para obter lenha para a cozinha gerou um problema de grandes proporções, que pode ser resumida na seguinte pergunta: Como dar de beber água para uma população crescente?
O rio Negro, em frente à cidade, nunca foi boa fonte potável pelo cheiro forte e tonalidade escura cor de mel ou, como diziam os antigos, alhambre. Procurou-se uma solução para abastecer de água nas nascentes dos igarapés de Manaus, Castelhana, Cachoeirinha e, por fim, foi escolhido o da Cachoeira Grande, por apresentar as seguintes características: estar próximo a Manaus três quilômetros, ter vazão na estação das chuvas de 80 milhões de litros de água e 8 milhões no tempo da estiagem, dissolver bem o sabão, cozer os legumes e não apresentar vestígios sensíveis de matérias orgânicas ou terrosas em dissolução.
O engenheiro Lauro Batista Bittencourt, projetista da obra, calculou a necessidade de Manaus em 500 mil litros diários. Sendo pouco considerável a queda d’água no lugar escolhido, foi conveniente eleva-la a uma altura suficiente para a distribuição na cidade. Por isso, projetou-se a construção de uma represa com 104,30 metros de comprimento, 3,50 na maior espessura e 3,80 metros na maior altura, em alvenaria de pedra e cimento,
Em um contrato minucioso, ficou prevista também a construção de uma caixa de distribuição, uma rede com encanamento de ferro fundido, aquisição de bombas, turbinas e reservatórios na Praça dos Remédios.
A pedra fundamental para o inicio da construção foi lançada em 1º de julho em 1883. Um ano depois, a barragem esta pronta. Antonio Lopes Mendes, viajante português, visitou o local. Deixou suas impressões no seguinte texto: “Hoje visitamos as obras hidráulicas em execução na Cachoeira Grande. A água é cristalina e potável. Tomamos a picada aberta através da floresta que fica ao norte da cidade e, de lá, avistamos um grande manancial. Ali vimos muitos portugueses que executavam diversos serviços. Estes nossos compatriotas ganham de 2.500 reis a seis mil reis, salário insignificante numa terra onde um ovo de galinha custa 240 reis, uma galinha, seis mil e, em caso de necessidade, 18 e 20 mil reis! E tudo o mais nesta proporção”.
No dia 20 de agosto de 1888 foi feita a primeira experiência com as turbinas, bombas e encanamento principal de nove polegadas, com excelente resultado. No dia 8 de dezembro, foi feita a experiência definitiva e, desde então, a cidade começou a ser abastecida regularmente 10 a 12 horas por dia, elevando até a altura do grande reservatório.
No esforço tecnológico para a construção desta memorável obra de engenharia, se utilizou trem de ferro até a localidade chamada Teju e britadeira para quebrar a pedra em tamanhos regulares para o concreto em cimento Portland. Essa obra foi o maior investimento feito na Região Norte no governo imperial de D. Pedro II.
Postar um comentário